quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O mar de Sophia

Com as palavras de Sophia e as ilustrações de Fernanda Fragateiro, a Biblioteca procurou criar uma pequena exposição com um conjunto diverso de materiais, de modo a dar aos alunos uma pequena ideia sobre a grandeza humana e literária da autora dos Contos Exemplares, ou de História da Terra e do Mar. A partir da leitura de excertos de poemas, ou de contos pediu-se a alunos de diferentes anos de escolaridade (7º e 10ºs anos) que fizessem uma ilustração sobre este mar de Sophia. Dispuseram-se imagens com poemas e solicitou-se um comentário ou um pequeno texto. Os mais interessantes foram aqui publicados em posts identificando os autores, os anos e as professoras envolvidas. Foram ainda comentadas e discutidas diferentes situações da sua obra proporcionada pelo documentário, que também aqui está disponível, "O nome das Coisas".

Exposição - O mar de Sophia


O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo de tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com os fatos inchados de vento, caminhou até ao extremo do promontório. 

O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como uma boa orquestra, afinava os seus instrumentos. Hans concentrava o seu espírito para a exaltação crescente do grande cântico marítimo. Tudo nele estava atento como quando escutava o cântico do órgão da igreja luterana, na igreja austera, solene, apaixonada e fria.

Para resistir ao vento, estendeu-se ao comprido no extremo do promontório. Dali via de frente o inchar da ondulação cada vez mais densa como se as águas se fossem tornando mais pesadas. Agora as gaivotas recolhiam a terra. Só a procelária abria rente à vaga o voo duro. À direita, as longas ervas transparentes, dobradas pelo vento, estendiam no chão o caule fino. Nuvens sombrias enrolavam os anéis enormes e, sob uma estranha luz, simultaneamente sombria e cintilante, os espaços se transfiguravam. De repente, começou a chover. A família de Hans morava no interior da ilha. Ali, o rumor marítimo só em dias de temporal, através da floresta longínqua, se ouvia.

(Maquetas realizadas por alunos do oitavo ano, a partir de uma leitura do conto "Saga" de Sophia. Estas maquetas ajudaram a compor a exposição e a mostrar "o caminho do mar" que Hans, de algum modo deixou em Sophia e que ela fez nascer em palavras brilhantes.

O mar de Sophia ... leituras

"Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio. O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar dum marinheiro ou dum barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos. E trazia sempre na mão direita duas conchas. (...)

Mas o Búzio aparecia sozinho, não se sabia em que dia da semana, era alto e direito, lembrava o mar e os pinheiros, não tinha nenhuma ferida e não fazia pena. Ter pena dele seria como ter pena de um plátano ou de um rio, ou do vento. Nele parecia abolida a barreira que separa o homem da natureza. O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda que era ele próprio. A terra era sua mãe e sua mulher, sua casa e sua companhia, sua cama, seu alimento, seu destino e sua vida. Os seus pés descalços pareciam escutar o chão que pisavam. E foi assim que o vi aparecer naquela tarde em que eu brincava sozinha no jardim. (...)

No alto da duna o Búzio estava com a tarde. O sol pousava nas suas mãos, o sol pousava na sua cara e nos seus ombros. Ficou algum tempo calado, depois devagar começou a falar. Eu entendi que ele falava com o mar, pois o olhava de frente e estendia para ele as suas mãos abertas, com as palmas em concha viradas para cima. Era um longo discurso claro, irracional e nebuloso que parecia, com a luz, recortar e desenhar todas as coisas. Não posso repetir as suas palavras: não as decorei e isto passou-se há muitos anos. E também não entendi inteiramente o que ele dizia. E algumas palavras mesmo não as ouvi, porque o vento rápido lhas arrancava da boca.

Mas lembro-me que eram palavras moduladas como um canto, palavras quase visíveis que ocupavam os espaços do ar com a sua forma, a sua densidade e o seu peso. Palavras que chamam pelas coisas, que eram o nome das coisas. Palavras brilhantes como as escamas de um peixe, palavras grandes e desertas como praias. E as suas palavras reuniam os restos dispersos da alegria da terra. Ele os invocava, os mostrava, os nomeava: vento, frescura das águas, oiro do sol, silêncio e brilho das estrelas."

(Conto lido que serviu como um dos suportes para a atividade com os alunos sobre o universo de Sophia e o mar que ela nos deu, o real e as coisas nomeadas.)
Sophia, "Homero". Contos Exemplares. Porto: Porto Editora. 2014.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O mar de Sophia: 8º 6ª - (Profª Anabela Caldeira)

Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus passos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.


Sophia, "I", Coral (ilustração de Ana Cláudia, 8º 6ª)

O mar de Sophia: 8º 6ª (Profª Anabela Caldeira)

Sophia amava o mar e escrevia palavras em poesia e em prosa sobre os elementos da natureza que amava. Ela fala-nos na sua obra sobre os nomes das coisas naturais. 

Joana, 8º 6ª

O mar de Sophia: 8º 6ª (Profª Anabela Caldeira)

Mar vejo
Mar penso
Mar desejo
Mar sinto
Mar vivo

Mariana e Matilde, 8º 6ª

O mar de Sophia: 8º 6ª (Profª Anabela Caldeira)

Sophia tinha uma relação de grande amor com o mar. Completava-se com o mar e o mar completava.se com Sophia. Compreendia o mar como mais ninguém. Falava com ele e ele com ela através das ondas grandes, pequenas, ... Nós não percebemos o que querem dizer as ondas, as marés, a cor ... mas Sophia talvez soubesse e o usasse para conversar com o mar.

A mente e o coração entrelaçavam-se mas ondas altas e belas que a faziam apaixonar-se por cada dia que passava.

O monstro que vive no mar
Maria Madalena, Constança e Rita, 8º 6ª