quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Um cartão de Natal


Um cartão de Natal - Um feliz natal a todos! (aceder, clicando na frase atrás).

Top 10 - Livros (1º Período)

Os livros mais requisitados durante o 1º Período para a leitura domiciliária








Top 5 - Os leitores (1º Período)

Os Leitores que integram o Top5 com mais requisições durante o 1º período. A todos eles os nossos parabéns!

7º ano:
1. Maria do Mar C. M.;
2. Miguel Santos;
3. Alexandre Alves;
4. Mafalda Nascimento;
5. Gonçalo da Silva Pica.

8º ano:
1. Mariana Gião;
2. Dilma Ribeiro Semedo;
3. Maria Geraldes Fonseca;
4. Manuel Maria Machado Pinto;
5. Diogo Nogueira.

9º ano:
1. João Gago;
2. Susana Miranda;
3. Sebastião Batalha Pimentel;
4. Sebastião Batalha Pimentel;
5. Bernardo Pacheco.

Ensino Secundário:
10º ano:
1. Rugiatu- Suma;
2. João Miguel Santos Chapado;
3. Débora Sofia Pereira Antunes dos Santos;
4. Marta Vilarinho;
5. Sebastião Batalha Pimentel.

11º/12 anos:
1. Inês Duque;
2. Ana Sofia Santos;
3. Sofia Sequeira;
4. Sandra Ferreira;
5. Rafaela Laurêncio.
Imagem, André Neves, via http://confabulandoimagens.blogspot.pt/

Uma ideia literária de presépio

A equipa da Biblioteca com destaque para as professoras Teresa Santos e Conceição Campos pensaram num presépio que desse conta desta quadra, dos seus símbolos e que de algum modo se interligasse com os livros. O livro como suporte de uma construção. Penso que foi muito bem conseguida esta ideia de ligar a Biblioteca e os livros ao imaginário do presépio.

O mar de Sophia

Com as palavras de Sophia e as ilustrações de Fernanda Fragateiro, a Biblioteca procurou criar uma pequena exposição com um conjunto diverso de materiais, de modo a dar aos alunos uma pequena ideia sobre a grandeza humana e literária da autora dos Contos Exemplares, ou de História da Terra e do Mar. A partir da leitura de excertos de poemas, ou de contos pediu-se a alunos de diferentes anos de escolaridade (7º e 10ºs anos) que fizessem uma ilustração sobre este mar de Sophia. Dispuseram-se imagens com poemas e solicitou-se um comentário ou um pequeno texto. Os mais interessantes foram aqui publicados em posts identificando os autores, os anos e as professoras envolvidas. Foram ainda comentadas e discutidas diferentes situações da sua obra proporcionada pelo documentário, que também aqui está disponível, "O nome das Coisas".

Exposição - O mar de Sophia


O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo de tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com os fatos inchados de vento, caminhou até ao extremo do promontório. 

O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como uma boa orquestra, afinava os seus instrumentos. Hans concentrava o seu espírito para a exaltação crescente do grande cântico marítimo. Tudo nele estava atento como quando escutava o cântico do órgão da igreja luterana, na igreja austera, solene, apaixonada e fria.

Para resistir ao vento, estendeu-se ao comprido no extremo do promontório. Dali via de frente o inchar da ondulação cada vez mais densa como se as águas se fossem tornando mais pesadas. Agora as gaivotas recolhiam a terra. Só a procelária abria rente à vaga o voo duro. À direita, as longas ervas transparentes, dobradas pelo vento, estendiam no chão o caule fino. Nuvens sombrias enrolavam os anéis enormes e, sob uma estranha luz, simultaneamente sombria e cintilante, os espaços se transfiguravam. De repente, começou a chover. A família de Hans morava no interior da ilha. Ali, o rumor marítimo só em dias de temporal, através da floresta longínqua, se ouvia.

(Maquetas realizadas por alunos do oitavo ano, a partir de uma leitura do conto "Saga" de Sophia. Estas maquetas ajudaram a compor a exposição e a mostrar "o caminho do mar" que Hans, de algum modo deixou em Sophia e que ela fez nascer em palavras brilhantes.

O mar de Sophia ... leituras

"Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio. O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar dum marinheiro ou dum barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos. E trazia sempre na mão direita duas conchas. (...)

Mas o Búzio aparecia sozinho, não se sabia em que dia da semana, era alto e direito, lembrava o mar e os pinheiros, não tinha nenhuma ferida e não fazia pena. Ter pena dele seria como ter pena de um plátano ou de um rio, ou do vento. Nele parecia abolida a barreira que separa o homem da natureza. O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda que era ele próprio. A terra era sua mãe e sua mulher, sua casa e sua companhia, sua cama, seu alimento, seu destino e sua vida. Os seus pés descalços pareciam escutar o chão que pisavam. E foi assim que o vi aparecer naquela tarde em que eu brincava sozinha no jardim. (...)

No alto da duna o Búzio estava com a tarde. O sol pousava nas suas mãos, o sol pousava na sua cara e nos seus ombros. Ficou algum tempo calado, depois devagar começou a falar. Eu entendi que ele falava com o mar, pois o olhava de frente e estendia para ele as suas mãos abertas, com as palmas em concha viradas para cima. Era um longo discurso claro, irracional e nebuloso que parecia, com a luz, recortar e desenhar todas as coisas. Não posso repetir as suas palavras: não as decorei e isto passou-se há muitos anos. E também não entendi inteiramente o que ele dizia. E algumas palavras mesmo não as ouvi, porque o vento rápido lhas arrancava da boca.

Mas lembro-me que eram palavras moduladas como um canto, palavras quase visíveis que ocupavam os espaços do ar com a sua forma, a sua densidade e o seu peso. Palavras que chamam pelas coisas, que eram o nome das coisas. Palavras brilhantes como as escamas de um peixe, palavras grandes e desertas como praias. E as suas palavras reuniam os restos dispersos da alegria da terra. Ele os invocava, os mostrava, os nomeava: vento, frescura das águas, oiro do sol, silêncio e brilho das estrelas."

(Conto lido que serviu como um dos suportes para a atividade com os alunos sobre o universo de Sophia e o mar que ela nos deu, o real e as coisas nomeadas.)
Sophia, "Homero". Contos Exemplares. Porto: Porto Editora. 2014.