quarta-feira, 1 de abril de 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

Herberto

I do not Know much about gods, but I think that the river
Is a strong brown god
(…)
What we call the begining is the end. (T. S. Elliot, Four Quartets)

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar, que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se é esse o seu tempo, quando havia ele de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo esteja real e tudo esteja certo;
E porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. (…)
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências,
O que for, quando for, é o que será que é.

(“Poemas Inconjuntos”. in Poemas de Alberto Caeiro. Lisboa: Ática, 1946.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
«Tríptico». In A Colher na Boca, 1961.


Herberto morreu. Eugénio sobre Torga tinha o consolo que tudo é efémero, só a morte é imortal, pois não poupou o mais chegado aos anjos, esse cântico de perfeição que são as sonatas de Mozart. Quando um poeta morre diz-se ficam as palavras. Em Herberto mais ainda, pois ele construiu na solidão de cada momento, as faces do poema. Esmerou-se como um carpinteiro por desenhar as palavras que a sua simbologia criou. Ergueu uma obra para o mundo, entregou-a sem explicações, sem manifestos, sem prémios, na reclusão da torre da palavra. Herberto tinha na reclusão a voz de um poeta, que se afirma pelas suas palavras, pelo valor que aquelas têm, como víamos em Baudelaire, sempre nessa atitude modernista, de fugir ao mundo, para o apreender. 

Herberto trouxe uma poesia, onde as palavras emergem sobre nós, como oráculos de mistério, sem um tempo definido, onde se advinham rituais de tempo mágico, parecendo conduzir-nos para o espaço sagrado de uma mitologia. Herberto recuperou nas suas palavras a sacralidade perdida num mundo secularizado, dando uma resposta à velha dúvida de Nietzsche, da perda de Deus e da dor antiga. Os rios, o corpo são formas vivas de um fogo que persiste, nos espaços obscuros e de silêncio onde emergimos, para um real nem sempre possível de integrar, pois somos feitos, na feliz expressão de António Lobo Antunes, “de ranho e de poeira cósmica”. 

Pessoa e Herberto são as maiores figuras da poesia e da literatura portuguesa do século XX. Pessoa, na dimensão única de Caeiro vive a natureza, mas supera-a em si em cada instante, absorve o olhar brilhante do sol de cada momento, sabendo-o que só o que existe é real. O real dá-lhe consistência e justificação. Herberto ainda procura um valor sagrado, uma construção de milagres, o real mais belo para a nossa respiração. Herberto procura-se na noite vasta, no tempo imemorial, onde os pensamentos são graças permanentes ouvidas em cada um de nós. 

Em Herberto há uma labuta humana, pelas ideias que hão-de chegar ao outro, ao que procuramos. Em Herberto há uma emoção por esse coração que naufraga num céu infinito, das crianças que em cada esperança se renovam, nas casas, “ruas de flores” de onde imaginamos o mundo. Há dentro de cada um de nós a flor, o fruto, a divindade, entre a racionalidade e o sagrado mais breve, as flores que nos procuram em cada um de nós. São duas formas infinitas, porque humanas de conceber o homem e os seus anseios mais secretos, o fogo das palavras eternas. São duas formas gloriosas de modernidade e de construir a língua e as palavras, essas formas breves de eternidade.

(Perto da interrupção letiva, a morte de um poema vivo, a poesia que devora o real, Herberto Helder).

domingo, 22 de março de 2015

Rainha em Folha

O holocausto - apresentação

Trabalho de Filosofia sobre o Holocausto Nazi. Realizado por alguns alunos de Filosofia do 10º B e 10º G. Nele se procurou fazer um vídeo sobre o Holocausto colocando pequenas, mas interessantes questões sobre o holocausto, a sua definição, a sua causa e a sua influência na organização do mundo pós 2ª guerra mundial. É uma forma diferente e muito criativa de colocar questões e com elas aprender com um tema, expondo-o criativamente.

O Holocausto

Trabalho de alguns alunos na disciplina de Filosofia sobre a temática do Holocausto.

Débora Santos / Irene Pires / Leonor Sá / Rugiatu - Suma -10ºB
André Henriques - 10ºG

sábado, 21 de março de 2015

Dia Mundial da Poesia

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abaraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa

Que eu via prometida nas imagens.


Sophia, "Em todos os jardins", in Poesia.

(A poesia que é sinónimo da sua palavra, Sophia e do seu perfume. As suas palavras dão-nos o encanto impressivo da claridade que tanto procuramos na compreensão do possível onde se fragmentam os nossos passos de sol nas ondas de azul, no verde das florestas. Nos lugares onde ambicionamos a substância de um encontro real, a voz dos nossos precários desejos. Sophia é, nunca é demais relembrar, nas suas palavras, a Poesia, pela sua mensagem de mistério e real, pelas possibilidades que nos deu de saber olhar e com ele construir a própria linguagem. Com ela habitamos, ainda que brevemente um reino, o seu.)

sexta-feira, 20 de março de 2015

A Primavera

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura

Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás as mãos de quem te espera.


"Flores", "Primavera", "Glória" de Sophia; Miguel Torga e Eugénio de Andrade