O livro é um objeto único, raro por aquilo que nos dá. Ele é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo.
Espaço de partilha e divulgação das atividades da Biblioteca Escolar da Escola Secundária Rainha Dona Amélia
quinta-feira, 23 de abril de 2015
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Escritor do mês - Fernando Pessoa
Quem mais do que ele era ele? Foi o que se perdeu em si mesmo, por uns copos a mais ou pelas alucinações opiáceas muito em voga naquela altura? Fosse como fosse ou porque fosse, para além do poeta imergiu o filósofo da identidade perdida que por acaso até era a sua. Nota-se em toda a obra uma profunda angústia depressiva, uma ruptura do Eu com o mundo exterior e o inevitável refúgio num mundo alucinatoriamente centrado em si mesmo. Todos os heterónimos reforçam a ideia do isolamento, num universo humano de incompreensão e vazio de atitudes reflexivas.
Por breves instantes, talvez mais em Álvaro de Campos, nota-se um verdadeiro esforço para valorizar o Outro «És importante para ti porque só tu és importante para ti. E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?». Mas mesmo aqui a sua escrita é decerto uma admoestação ao próprio e aos seus súbitos delírios de insatisfação. Em Alberto Caeiro, a mesma descrença nos outros continua presente «Falaram-me os homens em humanidade. Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade. Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si. Cada um separado do outro por um espaço sem homens.» Ricardo Reis revela um Pessoa em constante combate com Deus e com a ideia da existência de um ser superior. Para «calar» esse Deus, desenrola a sua vasta cultura clássica, criando uma tal Lídia para o guiar no percurso dessa revolta «Da verdade não quero mais que a vida; que os deuses dão vida e não verdade, nem talvez saibam qual a verdade.» Bernardo Soares é na minha perspectiva, o expoente da desilusão de Pessoa em relação tudo e todos «A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão é a necessidade da alma de ser exterior.
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.»
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.»
Fernando Pessoa foi e continua a ser o paradigma da identidade perdida. Muitos psicólogos e psiquiatras se debruçaram sobre a sua vasta obra, descortinando nos poemas, uma possível esquizofrenia do poeta ou a tão famosa hoje, doença bipolar. Muitos chamam-lhe génio, outros consideram-no o maior poeta português de todos os tempos e ainda outros nunca o leram. Gostando ou não da sua obra, a verdade é que hoje, ela é, mais actual do que nunca. Leva-nos a reflectir sobre o individualismo que caracteriza a nossa sociedade, o consumismo versus o despojamento, os centros comerciais versus o contacto com a natureza, a legitimidade das acções versus os valores éticos das mesmas e o Eu versus os Outros.
(Um texto de outras vidas, do tempo em que se discutia Literatura em encontros / pontos de encontros na Almeida Garrett e de uma memória - a da Profª Ana Cristina Oliveira).
A cidade e as serras - exposição
E necessitava correr, reentrar na Cidade, mergulhar nas ondas lustrais da Civilização, para largar nelas a crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e Jacíntico! (...) Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, de uma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras rudes, crespo e quase lanígero; e o bigode, como o de um Celta, caía em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. (Jacinto, à porta do 202, A cidade e as serras, cap. I).
(Ponto de partida de uma exposição que a Biblioteca montou a partir de recursos próprios e outros já existentes, e onde se procura documentar um escritor muito especial, autor do mês, Eça de Queiroz.
A Cidade e as Serras é o ponto central desta exploração visual e literária.)
Ilustração - Júlia Kovacs (de um projeto de ilustração de alunos do ensino secundário de uma escola de Faro, há alguns atrás).
terça-feira, 14 de abril de 2015
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Escritor do mês - Eça de Queiroz
José Maria de Eça de Queiroz
nasceu na Póvoa do Varzim em 1845. Estudou entre o colégio da Lapa, na cidade
do Porto, e a Universidade de Coimbra, onde entrou no primeiro ano, em 1861.
Aqui, ligou-se a uma geração académica, admiradora das ideias de Proudhon e de
Comte. Travou conhecimento com Antero de Quental e iniciou a sua carreira
literária, com a publicação de folhetins que mais tarde seriam agrupados nas Prosas Bárbaras (1905).
Em 1866,
formou-se em Direito e passou a viver em Lisboa, onde exerceu a profissão de
advogado. Cimentou a sua ligação a Antero de Quental e ao grupo do Cenáculo
(1868), após ter dirigido o Distrito de
Évora (1867). Em 1869, viajou até ao Egito, para fazer a reportagem sobre a
inauguração do Canal do Suez, de que resultará O Egipto, publicado apenas em 1926.
Em 1871, participou nas
Conferências do Casino Lisbonense. Entre 1869 e 1870, publicou diferentes
obras, tais como Os Versos de Fradique
Mendes, O Mistério da Estrada de Sintra, em parceria com Ramalho Ortigão
e iniciou a publicação das Farpas. Em
1871, foi nomeado 1.º Cônsul nas Antilhas espanholas, transitando depois para
Cuba, onde permaneceu dois anos. Entre 1883 e 1887, refez algumas das suas
obras e publicou o Conde D’Abranhos e Alves & Companhia. Em 1874, passou a
desempenhar a sua atividade em Inglaterra, foi em Newcastle que terminou O Crime do Padre Amaro (1875), ali
ficando até 1878.
Após esta data, foi para Paris, onde se dedicou à criação
literária e onde faleceu em 1900. Em 1888, publicou a sua grande obra Os Maias e foi nomeado Cônsul em Paris.
Continuou a escrever diferentes textos e obras, como A Ilustre Casa de Ramires ou a publicação na Revista Moderna, em
Paris.
Eça é
um dos maiores escritores de língua portuguesa, sendo em muitos aspetos uma
figura que cria um mundo novo que alcança formas novas de exprimir um
modernismo na escrita. É um dos escritores mais populares de língua portuguesa.
A sua obra evoluiu de uma formulação inicial mais fantástica e influenciada por
nomes como Baudelaire ou Heine, presente nos artigos e crónicas, para numa fase
posterior se dedicar à crítica das instituições mais tradicionais,
preocupando-se com a reforma social, dando-nos belos quadros de “crónicas de
costumes.” Na última fase, encontramos uma escrita com mais esperança, com o
culto da Natureza e de um certo regresso à simplicidade do homem, como se
percebe em A Ilustre Casa de Ramires, A
Cidade e as Serras ou a Correspondência de Fradique Mendes.
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