Espaço de partilha e divulgação das atividades da Biblioteca Escolar da Escola Secundária Rainha Dona Amélia
quarta-feira, 6 de maio de 2015
terça-feira, 5 de maio de 2015
Fernando - Os heterónimos (Alberto Caeiro)
"Deito-me ao comprido na erva.E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava".
Alberto Caeiro, in Fragmentos; Imagem, Stardust- Copyright: Simona Forte.
Encontrar Pessoa - Visita de estudo
Entro na porta que foi a
tua casa. Afinal, sempre tiveste uma casa e não esses quartos medíocres,
pequenos, alagados de pequenez e solidão, para ruas de pó e formalidade. Fico
contente, por essa companhia em que escreveste linhas sem fim, já na companhia
de uma mãe, de uma família, se assim o podemos dizer. Entro pela tua porta e
vejo essa escada velha, de madeira solene, com que os prédios antigos
encantavam em passos secos os seus moradores.
Revejo-te aprumado nessa entrada,
após uma curta e maçada jornada num qualquer escritório. Vejo-te como que a
encaminhar passos de descanso, por essa porta branca solícita de tantos versos,
de ideias infinitas sobre o que sonhamos, o que desejamos para um Universo de
finitude. Imagino-te nesse compartimento de todas as possibilidades, e, nas
noites dançantes de aguardente e inspiração, para melhor percebermos os
instantes que nascemos para um nome que nem sempre visitamos.
Vejo-te debruçado
sobre a janela e a corresponder a essa sabedoria de infância, que desconhece a
morte e que se alegra nos instantes mais puros, nas graças mais desajeitadas de
formalismo e por isso em instantes perfeitos de sorrisos e camaradagem.
Imagino-te em passos caminhantes a outros espaços da casa, onde hoje te vemos
como um elemento entre crianças e a tu mãe, sempre com essa dedicação de
criança em sonhos. Não sei se és capaz de o perceber, mas de algum modo, os
materiais revelam as sombras imanentes dos que absorveram a respiração, a tua e
do que nos soubeste dizer. Precisamos de verdadeira inspiração para encontrar
as tuas múltiplas vozes.
A tua escrita é a maior forma de amor a uma língua e a
uma ideia, de fazer essa navegação e descobrir todos os universos, os nomes de
que somos feitos. Não sei se ao visitar a tua casa a respiração ultrapassou a
imaginação. Se assim for, tal não é muito importante, pois como tu dizias,
também muitas vezes me parece, que o mais
importante “é ler com a imaginação”. Obrigado Fernando. Sempre preferi os nomes
próprios. Eles dizem-nos muito mais sobre esse ser que em cada um vive. Um dia
vou ter saudades tuas.
(Um texto imaginado nos passos da Casa Fernando Pessoa, naquela que foi a sua última casa e onde tentámos descobrir com a ajuda preciosa do guia da Instituição, as sombras de um universo sem fim, as palavra e a vida de Pessoa).
Mulheres que lêem são perigosas - livro da semana
Autor: Stefan Bollmann
Edição: 1ª
Páginas: 149
Editor: Círculo de Leitores
ISBN: 978-972-42-4002-2
CDU: 821.112
Edição: 1ª
Páginas: 149
Editor: Círculo de Leitores
ISBN: 978-972-42-4002-2
CDU: 821.112
Sinopse: As mulheres foram e são as grandes leitoras. Foram elas que usaram nos mundos particulares, todas as possibilidades para reconstruir mundos pessoais, aventuras e sonhos emergindo para universos, onde se sentissem mais próximas do que mais amavam. Este é um livro sobre a história da leitura e de como as mulheres foram evoluindo nos espaços da leitura.
Nesta aventura das mulheres na leitura encontramos, dos momentos de representação do mundo, com o nascimento do cristianismo e a Bíblia, onde se procurava uma luz no mundo aos espaços da intimidade, no fascínio pela descoberta. Dos momentos de intimidade com a leitura, como descoberta, mas já também como prazer de uma liberdade individual. E encontramos a leitura onde as leitoras se deixam representar pelos sentimentos do livro, expansão do seu ser, à procura de si próprias, onde leitura e a vida se confundem na necessidade de criar caminhos alternativos, naquilo que o século XX mais fez nos leitores e nas leitoras.
O título do livro pode enganar no sentido de lhe dar uma conotação "política", mas ele expressa essa história de conquista de liberdade que foi a leitura no feminino. Os livros, companheiros de uma liberdade de descoberta, construtores da dúvida, criadores de universos de intimidade permitiram a liberdade existencial a gerações de leitores e em especial das mulheres. Assente num conjunto de pinturas fascinantes, o livro é um grande fresco sobre a construção da autoconfiança e dessa capacidade de criar ideias.
domingo, 3 de maio de 2015
Dia da Mãe
O sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães. (...)
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães. (...)
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Herberto Helder, "Fonte", in A Colher na Boca, 1961
Imagem, Angela Morgan, Maternitat
quarta-feira, 29 de abril de 2015
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