Espaço de partilha e divulgação das atividades da Biblioteca Escolar da Escola Secundária Rainha Dona Amélia
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Fernando - Os Heterónimos (Alberto Caeiro)
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ? Alberto Caeiro
Livro da semana - o rio e o seu segredo
Título: O rio e o seu segredoAutor: Zhu Xiao-Mei
Edição: 1ª
Páginas: 313
Editor: Guerra e Paz
ISBN: 978-989-8174-02-4
CDU: 821.581-94"20
Sinopse: Caminho pelas ruas de Zhamgjiako. Como muitas vezes antes, na minha vida, quis voltar atrás para encontrar a energia para seguir em frente. Zhangjiako, pensava eu, dar-me-ia coragem. Claro que a vida me trouxe muito. Mas também me quebrou, porque me levou a não gostar de mim, a duvidar incessantemente, doentiamente.
Com o tempo, sinto cada vez mais ao meu lado a presença de Bach e de Lao-Tzu. Ajudaram-me a ultrapassar as provações do passado, e ajudar-me-ão ainda a enfrentar as que me esperam, porque me parece que o mais difícil ainda está por vir: encontrar finalmente a liberdade interior. (...)
À noite, tenho dúvidas, tenho medo dos outros, de mim, e sinto com violência a minha impotência, a minha incapacidade para atingir a perfeição. Mas, de manhã, sei que ele está ali, na sala ao lado, à minha espera. É uma promessa de felicidade sempre constante. O meu piano. Olho para o céu de Zhangjiako. E ouço a minha avó a contar-me - Foi na noite em que nasceste...
(Um daqueles livros que procura na vida, as sombras para edificar a esperança e dar-nos formas vivas de palavras. Um retrato indescritível de uma jovem que viveu esse pesadelo que foi a Revolução Cultural e nos dá, não só a violência sobre o indivíduo, a morte de qualquer intimidade com a consciência, mas sobretudo a forma corajosa de como com a Arte pôde sobreviver a esse pesadelo. Um relato verídico e fascinante de uma pianista, que com Mozart e Bach venceu os mais baixos princípios de um poder sem alma e virtude. Muitas vezes olhamos para a História como uma sucessão de acontecimentos, à sombra dos quais muitos fazem leituras, a partir de campos ideológicos, sem nenhuma visão da essência humana. O rio e o seu segredo foca-se nas pessoas, nesse concreto de que tantas vezes nos esquecemos.)
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Fernando - Os Heterónimos (Bernardo Soares)
Onde está Deus, mesmo que
não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar
ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de Verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de Verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabe por
dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna
morna, os perigos que penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E
tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única
de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no Inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...
Quando
ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de
carinho — com vontade de lhes dar beijos — os meus brinquedos, as palavras, as
imagens, as frases — fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão
grande e tão triste, tão profundamente triste! ...Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no Inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das
sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos
degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De um pai sei o nome;
disseram -me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Às vezes,
na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a
quem possa amar... Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja
assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma...
Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...
E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que dormia...
Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...
E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que dormia...
Bernardo Soares. Livro do Desassossego. Vol.II.
(Recolha e
transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e
Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. p. 289.Semana das Artes - Ilustração / Textos (I)
Vagueio pelos corredores da
escola, entro numa viagem de cores explosivas. Reparo numa girafa, que olha
para mim, observo um cavalo, uma bola de Berlim, que brilha, paro em frente do
desenho de um olho, simples mas complexo, observo melhor e descubro que a
esfera que me parecia azul é, na verdade, o planeta Terra.
Continuo a viagem, deparo-me
com o desenho de um elétrico em Lisboa, e estou dentro de um poema de Cesário.
Azul, verde, encarnado, curvas, linhas, traços, mil imagens rodopiam na minha
cabeça.
Piso
uma mancha de tinta amarela, sinto a arte em todo o lado, agora vejo a escola
de uma maneira diferente!
Maria Tavares, 11º F
Penso que é importante este tipo de exposição, pois aqueles
que possuem talento estão a partilhar com outros a maravilha das suas obras.
Cada um tem o seu estilo, e é isso que torna as suas
criações tão extraordinárias e apelativas ao olhar.
Gostei muito das ilustrações dos peixes do Sermão de Santo António, porém gostei
mais da ilustração do esqueleto. O seu traço, a profundidade, a reflexão que o
desenho provoca são simplesmente magníficos. A outra obra que me chamou a
atenção, além do esqueleto, foi um desenho que vi num diário gráfico, no qual
duas mãos separam um coração em duas metades. A obra sugere um sentimento de
dor causada por um rompimento, e é isto que torna estes desenhos autênticas
obras de arte, a capacidade de transmitir os sentimentos que estão por detrás
da sua criação.
Bruno Nunes, 11º F
Esta Semana das Artes é uma
grande ideia! Quando entro na escola, de manhã, deparo-me com vários desenhos
incrivelmente bem feitos. Não é só na entrada, é por toda a escola!
A mim, que sou provavelmente a
pior pessoa do mundo a desenhar, apetece-me tentar fazer alguns rabiscos quando
vejo os desenhos tão bem feitos! Peixes, aranhas, girafas, auto-retratos,
esqueletos… há de tudo! Depois de ver estas criações por todo o lado, só
desejaria desenhar bem como os meus colegas autores dos trabalhos, mas isso,
infelizmente, não acontece…
Só espero que a escola tenha mais boas ideias como estas,
para repetir!
Duarte Ferreira, 11º F
Esta grande exposição das
disciplinas de Desenho, Educação Visual e Arte Digital é extraordinária. É de
louvar esta iniciativa, que só mostra a qualidade da nossa escola e dos nossos
alunos. Vê-se que os trabalhos foram feitos com uma grande paixão.
Todos os alunos, de todas as
áreas, têm um papel a cumprir: nós, de Humanidades, que estamos muito ligados à
escrita, temos a oportunidade de fazer isto que eu estou a fazer agora –
escrever. E os de Artes desenham. Estamos, sem dúvida, ligados uns aos outros.
Caetano Beirão da Veiga, 11º F
(As linhas e as cores, as palavras e as ideias, do branco mais puro até ao negro, de onde as sombras nascem nas tonalidades de cada sonho. Algumas dos trabalhos da Semana de Artes Visuais e outros tantos textos, naquilo que os alunos ali puderam ver e transmitir).
terça-feira, 12 de maio de 2015
Fernando - Heterónimos - (Ricardo Reis)
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.
A noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos.
A nossa incerta vida.
À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,
E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve)
A negra ida ao sol).
Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem.
Ricardo Reis, Odes
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