quinta-feira, 28 de maio de 2015

Leituras na Biblioteca - Pessoa (os Heterónimos)

Ser pessoa é amar o que se vê, é sentir o "ser", é não haver limites para a grandeza, é ser feliz na tristeza e perceber o que somos. Ser pessoa é querer mais do que se tem, é querer ser livre, beber a inocência e viver a presença do real. Ser pessoa é amar o ridículo, é escrever o sentimento e sentir o que vê, desenhando paisagens. É ser insignificante como o pó, mas ao mesmo tempo presentem no vento, é ser harmonia ministrada pelo maestro e seguir as regras. Ser pessoa é ser espontâneo nas decisões da vida e ter ideias que suportem os sonhos.
| Natália Brito| 10º A|  

Todos nós, cada um de nós somos uma multiplicidade de pessoas, um mundo de personalidades. É vago e raro definirmo-nos. Não somos um conjunto fechado, mas sim aberto, não somos nada apenas apresentamos traços de qualquer coisa. Somos um conceito em constante mudança e evolução. 
| Carolina Mateus| 10º A|

Ser pessoa é antes de mais existir. É em termos filosóficos uma incógnita. Ser pessoa é mais do que ser sensível, é ser racional, do ponto de vista intelectual e moral. É ser um sol que  ilumina o seu próprio mundo. É ser um dicionário que só é composto por sentimentos.
| ....| 10º A|

Imagem - O menino que era muitos poetas. Pato Lógico/ICNM.2014

(Alguns dos textos construídos numa sessão com alunos do 10º Ano sobre a Heteronímia  de Pessoa). 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Semana das Artes - Ilustração / Textos (III)

Eu escolhi este trabalho que retrata uma zona de Lisboa, o Bairro Alto. Nesta zona podemos encontrar elétricos e aspetos típicos da nossa cidade. Penso que o autor do desenho estava a pensar nas casas, nas ruas e no ambiente que conhecemos e que na altura dos santos populares é muito divulgado. Vemos no desenho dois elétricos e percebemos uma atmosfera que retrata espaços da cidade de Lisboa muito peculiares. Por outro lado, não era como os outros, quase todos desenhados a lápis de carvão, este tinha cores, alegria e brilho. Escolhi também este trabalho porque eu adorava viver nesta zona, a forma das casas, as inclinadas e estreitas ruas, o pitoresco, tudo é fascinante!
------------------------------------------------------
De todos os desenhos da exposição que vi, escolhi este, o dos elétricos, que representa a vida urbana de Lisboa que acolhe a tradição, a alegria de viver, as cores e o movimento típicos de hoje e de outrora da nossa bela cidade. 

Texto: | Marta Santos/Pedro Mendes| ... | Desenho: | Caetana Fernandes Thomaz |12.ºD | 
Escola Secundária Rainha Dona Amélia|Semana das Artes | 

Leituras na Biblioteca - O poema do menino Jesus (II)

Deus, dizem que é omnipresente.
Mas eu sou aquele que ainda não o sente, pelo menos a cem por cento.
Mesmo não sendo o maior cristão, sabendo que não há certeza, procuro a razão.
Vivendo, eu acredito e entendo.
Sem Ele, tudo é impossível, mas confesso que é difícil acreditar não vendo.
Por mais que o tempo passe, aquilo que vai crescendo são as dúvidas no meu pensamento.
Como não há certezas, vivo com o que entendo. O mundo é fruto de Deus, é assim que o compreendo.
Francisco Gouveia, 10º A.

Na minha opinião cada pessoa tem a sua própria visão das coisas, neste caso do menino Jesus. Na minha opinião, eu posso criar a minha própria imagem e a personalidade dele, pois nunca o vi nem o conheci. Devemos respeitar a história e a opinião dos outros, bem como a cultura do País. Com a sua história, conhecemos uma forma de ser pessoa e isso implica pensarmos no interior e exterior de cada um.
Bruno, 10º A

Não  concordo com a visão que Fernando Pessoa, pela voz de Alberto Caeiro, dá do menino Jesus. Penso que Jesus foi alguém que veio ao mundo para se sacrificar por nós. Aceito a visão de Pessoa, mas não concordo com ele, nem acredito que possa ser verdade. Desde pequena, que tive uma vida católica muito ativa. Na minha opinião, Fernando Pessoa caracterizou o menino Jesus daquela maneira porque assim o achava. Fê-lo para demonstrar que muitas pessoas apenas pensam em Deus quando precisam de algo. O poema do menino Jesus foi uma forma que ele usou para revelar esse "pensamento" que muitas vezes as pessoas têm.
Mafalda / Marta, 10ºA

Leituras na Biblioteca - O poema do menino de Jesus (I)

(...) Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe. 

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão 
E olha devagar para elas.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.


Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro, "Poema do menino Jesus". Poemas de Alberto Caeiro. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Fernando - (Os Heterónimos) : Bernardo Soares

Onde está Deus, mesmo que não exista?
Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.

Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de Verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...

Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, os perigos que penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no Inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas... 

Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho — com vontade de lhes dar beijos — os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases — fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! ...

Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De um pai sei o nome; disseram -me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a quem possa amar... Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma...

Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que dormia...

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. p. 289.

(Imagem - Via Grupo de divulgação da poesia de Fernando Pessoa).

Semana das Artes - Ilustração / Textos (III)

Dos tetos desceram telas, todos os olhos ficaram fixos a surpreendentes traços, formas e cores. Tudo se misturou. As letras que já eram e outras que vieram, a Escola acordou para uma primavera maior, onde todos puderam saborear tempos de ser.


A criatividade faz parte de nós, essa é uma das principais características do ser humano. Todos temos a capacidade de imaginar e transpor essa imaginação para um papel, seja desenhando ou apenas escrevendo. 

Aqui estou eu, sentada, num grande e frio corredor, a contemplar a criatividade de alguém, e a sua incrível capacidade de, com apenas um lápis e uma borracha, colocar tanto sentimento numa folha de papel. 

Neste quadro, vejo um rosto humano, e talvez a criatividade não seja o que mais sobressai, mas sim a própria expressão do ser retratado. Vejo um homem idoso, mas não velho, vejo rugas, olheiras, olhos cansados, vejo um homem vivido, robusto, pesado, familiar e sério. Um homem provavelmente com influência na sociedade, numa empresa, ou simplesmente na sua família. Vejo um homem responsável, humano e despido, não de roupa, mas transparente de sentimentos, sem medo do que os outros pensam, sem medo do que irão pensar, sem medo de pensar. Vejo um homem justo e com ideias muito próprias, um homem humilde e com ideias.

Este quadro faz-me lembrar o Papa Francisco.

Texto: | Madalena Nobre| 10º A | Desenho: | a identificar|a identificar | 
Escola Secundária Rainha Dona Amélia|Semana das Artes | 

Breviário Mediterrânico - Livro da Semana

Título: Breviário Mediterrânico
Autor: Predrag Marvejevitch
 Edição: 1ª
 Páginas: 260
Editor: Quetzal
ISBN: 978-972-564-7639
CDU: 926.2
Sinopse: "A filologia do mar- rico de inteligência e de poesia, no que mistura de rigor e de temeridade, (...) de precisão científica e de epifania do infinito." (1)



O Mediterrâneo é esse caminho estrelar por onde o sol e a luz abrem formas particulares de organização social e económica. O Mediterrâneo, tal como a viagem, a navegação constrói-se na lenda, na geografia, no perfume alto dos pinheiros, nas encostas de figueiras onde já prenunciam as areias do deserto e nas cidades que reflectem as suas aventuras. Todas as palavras são instrumento e memória da linguagem precisa e enérgica que é o milagre do mar. Dando consistência ao particular, juntando no quotidiano as formas imaginativas da civilização. 

Predrag Matvejevitch descreveu em Breviário Mediterrânico, a luz solar, o perfume das laranjeiras, o vento silvestre no olival, onde as azeitonas e o sal fermentam os dias. Com ele aprendemos, o que sentimos nas cidades onde o mar fez soprar o seu encanto por onde perdemos a voz com as sereias. Se a viagem nos fez descobrir o que somos,o mar, com os seus rios interiores e exteriores deu-nos a alegria de redescobrir outras paisagens, outras formas de ser.

Há quem ainda não tenha compreendido que o Mediterrâneo deu origem à Europa, que sem ele, ela não teria existido, que nele se desenham as formas culturais e humanas do que sabemos ser e do que tentamos construir em tantas margens do sonho. O Mediterrâneo é a base cultural de uma civilização que se definha todos os dias, pela incapacidade de ver o mundo e a sua própria herança civilizacional.