quinta-feira, 4 de junho de 2015

Olhar a Tabacaria (I)

Não sou nada.  
Nunca serei nada.  
Não posso querer ser nada.  
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,  
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

(...)
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).   
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.   
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)   
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.   
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo  
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.


Desenho: |Maria Teresa Franco|11ºE|



Rainha em Folha Nº 27

Memórias...


Havia um tempo em que, por estas colinas (sobretudo acompanhando o derradeiro fio de água do Tua, a caminho do  Douro), descia um comboio vagaroso e pobre, sujo, com as madeiras ressequidas a desfazerem-se, os varandis das carruagens enferrujados, os tectos corroídos pelo tempo. Chovia lá dentro. Os vidros, em muitas composições, tinham sido quebrados - ou, pura e simplesmente, quebraram-se com o tempo, o uso, a idade. Nos carris, o comboio chiava até encontrar as primeiras vinhas do Douro, relembrando ainda a última paisagem do planalto.

Quando o crepúsculo se despedia em Bragança, partia o derradeiro comboio que chegava ao Tua já noite alta, a tempo do transbordo para a linha do Douro, na direcção de Barca D'Alva. O percurso que desenhara no mapa, de Bragança a Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Cachão e Tua, só era conhecido por esse traçado ronceiro, lento, demorado (...) entre uma paisagem de oliveiras, azinheiras e falésias caindo sobre o que restava do rio. (...) O caso da linha do Tua evoca tragédias recentes; mais do que «tragédias», no entanto, evoca o isolamento da região.

Nada disto interessa em Lisboa, tirando excepções muito localizadas. A indústria do asfalto que tomou conta do País, acompanhada pela indústria da camionagem, pela indústria das portagens e pela indústria do esquecimento, não tem a ver com as velhas linhas férreas que desenharam a geografia de um país onde os carris acompanhavam rios, fronteiras de província, planaltos áridos e solitários - e uma enumeração caótica de designações fora de moda. Ao longo dos anos, destruindo metódica e paulatinamente os comboios, desprezando as populações que os utilizavam e beneficiando os interesses da camionagem e dos combustíveis, o Estado preparou este cenário contra o qual há, hoje, pouco a fazer.

Uns, mais conformados, recordam; outros, menos conformados, resistem e combatem o quase inevitável fim destas linhas perdidas. Um resto de dignidade e de memória devia fazer-nos correr até onde o último comboio regional ainda corre - para o defender. O País - o Estado, os empresários, a indústria - dá o assunto como encerrado e abre auto-estradas, suja a paisagem, promove o grande progresso (...).
Por isso, defender o último comboio regional, seja onde for, é combater este país abjecto que destruiu a nossa paisagem, a nossa memória e a geografia do tempo.

                         Francisco José ViegasRevista Ler. Maio de 2010 

(Muitas vezes não compreendemos a estagnação económica, a imobilidade social ou a crise cultural de que o País vive. A luta contra a construção de uma barragem no rio Tua foi uma tarefa de cidadania pela defesa de um património humano e cultural. A importância das memórias de que Gonçalo Ribeiro Teles tem dado conta e da sua importância para a sustentabilidade das comunidades humanas fez-nos lembrar esta luta antiga e generosa. Defender um reino do maravilhosoOs gestos de indiferença para com as pessoas e a memória são demasiadas vezes, a arquitetura de uma desigualdade). 

Rainha em Folha Nº 26

A praça da paz celestial


«Estamos longe de parecer seres humanos que somos incapazes de nos reconhecer uns nos outros. (...) Quando nenhuma consciência superior, cultural ou religiosa está lá para canalizar os instintos, não encontramos meios de nos defendermos, senão agredindo.» (1)

Os dias estão pesados de indiferença. A liberdade tornou-se um protocolo de circunstância exibido em palácios de papel. E o gesto antigo, a palavra maior perdeu significado. Muitas certezas em poucos corações destruíram a magia de conhecer e lutar pelo mais digno, a decência da condição humana. Passaram anos, muitos e esse grito e esse sorriso ainda aqui estão, por todos os que imaginaram na esperança, o voto maior. A construção de um poema chamado LIBERDADE. Foi um poema de coragem, de ingenuidade e de amor pelos outros, por nós. Juntou estudantes, intelectuais, trabalhadores diversos num ideal de uma sociedade mais livre, menos corrupta e igualmente mais desenvolvida. Ocorreu na China, na Praça Tian'anmen, em Pequim e conduziu a um massacre que é a única evidência que alguns «espíritos revolucionários» costumam saber reconhecer. É pela sua expressão uma das mais importantes datas do século XX pelo grito de determinação e de coragem que envolveu. É importante não esquecer a luta pela liberdade num País totalitário, onde a dignidade humana é irrelevante, mesmo hoje. É essencial ver nessas flores de laranjeiras destruídas, o amor maior, a respiração autêntica por algo universal, a fraternidade e a humanidade de cada rosto.
(1) Zhu Xiao-MeiO Rio e o Seu Segredo
(Imagens, in MagnumPhotos.com)

A memória das palavras - João Aguiar

Quando um escritor parte, a sua obra, as suas ideias, a sua morada eterna são as suas palavras. João Aguiar deixou um discurso narrativo muito imaginativo nas formas e muito ligado à memória histórica. Nele transpareceu sempre uma imagem de príncipe das letras e o seu sucesso como recurso nas aulas de História foi sempre a confirmação das suas qualidades, junto dos adolescentes que mergulhavam no imaginário da Portugalidade que ainda se espera audaciosa. Um excerto, de um dos seus livros, A Catedral Verde).

Ainda não logrei definir com exactidão o que torna este lugar tão especial. Talvez a disposição das árvores, o modo como as suas cores se misturam sob a luz do Sol, talvez o jogo de sombras, talvez a folhagem – ou, neste momento, os ramos desnudados -, talvez o silêncio, porque é raro ouvir aqui outro som que não seja o das próprias árvores tocadas pelo vento. (...) Lembro-me da primeira vez que aqui vim. Seguia de carro pela estrada, avistei o cruzeiro, que despertou a minha atenção – nesse tempo eu era um recém-chegado a Vale de Monges. Reduzi a velocidade, acabei por parar, o carro ficou estacionado mais ou menos no sítio onde hoje está. 

Voltei a olhar para o cruzeiro, que se ergue bizarramente, não à beira da estrada, mas no meio de um terreno coberto de mato rasteiro. E avistei, à distância, em pano de fundo, a mancha verde. Saí do carro sempre a olhar para ela, atravessei a estrada sem deixar de a olhar e caminhei até ao ponto exacto onde me encontro agora. Vim puxado, ou empurrado, por uma força que não sabia se me era exterior ou se era um impulso da minha fantasia que eu inconscientemente vestia com as roupagens da atracção magnética.

Há aqui, pensei então, uma configuração especial que evoca a entrada de um templo: uma espécie de propileu. Mas esta configuração, pensei ainda, não é, ou não é exclusivamente, física. A evocação não está na forma como as árvores se encontram dispostas nem nos contornos e acidentes do terreno. Não é a imagem concreta das coisas, é a imagem que as coisas desenham dentro de mim.

Hoje, após tantas visitas solitárias a este lugar, hoje penso o mesmo. Talvez por vergonha, não mais voltei a fazer o que então fiz. Ajoelhei-me primeiro, depois prostrei-me de olhos fechados, as mãos coladas à terra, e rezei – digo rezei porque todo o discurso dirigido a Deus, ainda que o nome não seja pronunciado, deve ser considerado uma oração.

Não voltei a fazê-lo nem o poderia fazer neste momento sem, prosaicamente, ficar encharcado. Isso é pouco importante, porém… O lugar conserva o mesmo encanto, o silêncio feito de murmúrios é o mesmo, o mesmo é o verde luminoso e o movimento vagaroso, solene, da ramaria.