sexta-feira, 5 de junho de 2015

Minha Filosofia!

Oh minha filosofia!
Pede ao sol e à lua,
Que te digam o quanto quero ser tua!
Verdades questionáveis,
Muito mais que imagens,
Antes sim, o iluminar
E o mundo mudar.

Dialogo e argumento…
Qual o meu fundamento?
Desejar, amar, sonhar?
Algo exaustivo de pensar!
Refletir sobre mim,
Saber com fim.
Estado, presente,
Realidade existente.
Fluir do pensamento,
Abrigo da vida,

Estando perdida…

Texto: Sara Pinela, 10ºH

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Pensar a Tabacaria (III)

Sempre uma coisa defronte da outra
sempre um problema após uma decisão
Sempre um mistério após o silêncio
Sempre mil perguntas após uma discussão
Sempre uma descoberta após um segredo
Sempre uma lágrima após uma desilusão
Sempre um abraço após uma despedida
Sempre um sentimento no nosso coração.
Maria Galego / Frederico Ferreira / Inês Campos - 10º C; Cláudia Conceição - 11º E;

Olhar a Tabacaria (II)

Não sou, nada posso, nada sigo
Trago por cegueira, meu ser comigo
Não compreendo, nem sei
Se hei-de ser, sendo nada, o que serei
Vivemos só de recordar
Na nossa alma angustiada
Não podemos fazer nada
Para viver a nossa morta vida
É tarde de mais para acordar
Já vivi tudo o que tinha de viver
Só me resta esperar
O fim da minha funesta sina
Mas, em momentos de maior loucura
Sento-me 
Imito, tento ser
Aquela inocente pequena criancinha
Que ainda não perdeu a alma
Que come chocolates
Caio em mim
Volto à janela
A única passagem para o mundo real
Fecho-a

Texto - Débora Santos: 10º B; Ilustração - Claúdia Conceição: 11º E

Olhar a Tabacaria (I)

Não sou nada.  
Nunca serei nada.  
Não posso querer ser nada.  
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,  
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

(...)
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).   
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.   
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)   
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.   
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo  
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.


Desenho: |Maria Teresa Franco|11ºE|



Rainha em Folha Nº 27

Memórias...


Havia um tempo em que, por estas colinas (sobretudo acompanhando o derradeiro fio de água do Tua, a caminho do  Douro), descia um comboio vagaroso e pobre, sujo, com as madeiras ressequidas a desfazerem-se, os varandis das carruagens enferrujados, os tectos corroídos pelo tempo. Chovia lá dentro. Os vidros, em muitas composições, tinham sido quebrados - ou, pura e simplesmente, quebraram-se com o tempo, o uso, a idade. Nos carris, o comboio chiava até encontrar as primeiras vinhas do Douro, relembrando ainda a última paisagem do planalto.

Quando o crepúsculo se despedia em Bragança, partia o derradeiro comboio que chegava ao Tua já noite alta, a tempo do transbordo para a linha do Douro, na direcção de Barca D'Alva. O percurso que desenhara no mapa, de Bragança a Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Cachão e Tua, só era conhecido por esse traçado ronceiro, lento, demorado (...) entre uma paisagem de oliveiras, azinheiras e falésias caindo sobre o que restava do rio. (...) O caso da linha do Tua evoca tragédias recentes; mais do que «tragédias», no entanto, evoca o isolamento da região.

Nada disto interessa em Lisboa, tirando excepções muito localizadas. A indústria do asfalto que tomou conta do País, acompanhada pela indústria da camionagem, pela indústria das portagens e pela indústria do esquecimento, não tem a ver com as velhas linhas férreas que desenharam a geografia de um país onde os carris acompanhavam rios, fronteiras de província, planaltos áridos e solitários - e uma enumeração caótica de designações fora de moda. Ao longo dos anos, destruindo metódica e paulatinamente os comboios, desprezando as populações que os utilizavam e beneficiando os interesses da camionagem e dos combustíveis, o Estado preparou este cenário contra o qual há, hoje, pouco a fazer.

Uns, mais conformados, recordam; outros, menos conformados, resistem e combatem o quase inevitável fim destas linhas perdidas. Um resto de dignidade e de memória devia fazer-nos correr até onde o último comboio regional ainda corre - para o defender. O País - o Estado, os empresários, a indústria - dá o assunto como encerrado e abre auto-estradas, suja a paisagem, promove o grande progresso (...).
Por isso, defender o último comboio regional, seja onde for, é combater este país abjecto que destruiu a nossa paisagem, a nossa memória e a geografia do tempo.

                         Francisco José ViegasRevista Ler. Maio de 2010 

(Muitas vezes não compreendemos a estagnação económica, a imobilidade social ou a crise cultural de que o País vive. A luta contra a construção de uma barragem no rio Tua foi uma tarefa de cidadania pela defesa de um património humano e cultural. A importância das memórias de que Gonçalo Ribeiro Teles tem dado conta e da sua importância para a sustentabilidade das comunidades humanas fez-nos lembrar esta luta antiga e generosa. Defender um reino do maravilhosoOs gestos de indiferença para com as pessoas e a memória são demasiadas vezes, a arquitetura de uma desigualdade). 

Rainha em Folha Nº 26