sexta-feira, 12 de junho de 2015

Semana das Artes - Ilustração / Textos (X)

Forreta, avarento, sovina. Vitória, garra, segurança. união. Estas são apenas umas das palavras que a imagem transporta para mim. Sendo que todas as pinturas me transmitiram algo de novo, acabei por escolher esta pelos valores mais fortes que se encontravam por trás dela. Quando a observo com calma consigo imaginar alguém que não é capaz de ajudar ninguém pois tudo aquilo que tem fica consigo para seu benefício. Por outro lado, facilmente consigo imaginar-me a ganhar um jogo ou a festejar um golo da minha equipa e erguer bem alto os meus braços e cerrar os punhos com força pelo prazer que isso me dá. Ou simplesmente pelo carácter mais sentimental, isto é, a força pois devemos ser persistentes e não dar nada por perdido e irmos à luta. Por fim, transmite-me segurança pois a mão fechada faz-me lembrar um porto de abrigo e tudo o que está lá dentro encontra-se bem protegido.
Texto: |Vasco Castanheira|11ªD|
Desenho:|Sara Saraiva|12ºD| 
Escola Secundária Rainha Dona Amélia|Semana das Artes |

Semana das Artes - Ilustração / Textos (IX)

O mar está dentro de mim. Nas minhas veias, é ele que corre e não sangue; as minhas lágrimas são água salgada. A minha alma é um rio. A minha raiva, um temporal. A minha serenidade, um lago. (Em Alqueva, os mortos estão debaixo de água.) Amo todos os sítios do mar. O meu povo não é, não, este que aqui vedes. Meu povo é o gentil do oceano, é esse que canta canções de sereia, sem ser mau, e não entende, nem quer entender, os mistérios e as maldades da terra. (Entre os cavalos-marinhos, um cemitério. Ao pé das algas castanhas, grandes do tamanho do mundo, uma escola. Ali, no banco, carcomido pela água, conheci eu a minha mulher.) 
Há uma razão muito clara e muito evidente para ser o mar azul e a terra castanha: é que o mar é purificação, inocência, primordial essência e a terra é casa de pecado, é gases, é dissimulação. Sujam meu oceano só de o imaginarem. A água é o meu lar. Quando chove, estendo a cara ao firmamento e é esse o meu amor. Sei que o mar também me ama. Habito nas tuas grutas, habito nas tuas falésias e a minha vida é olhar-te e rezar para que nunca sejas corrompido. Rezo à baleia e rezo ao polvo. 
Não sei quem são esses deuses sangrentos da terra nem me importo com eles. (Que fazes aqui, mergulhador? Não é bom que aqui estejas…) Amo-te mar; a palavra mar está na palavra amar. O meu suicídio é o deserto. Recebe-me na maré-cheia, na seca, nas ondas, e recebe-me também no gelo. 
Acolhe-me em ti porque a água é o meu sangue e o meu quarto não tem teto para poder sentir-te quando vens. Se os meus olhos fossem de alguma cor que não azul, pintava-os em pinceladas fingidas de Turner. Da minha boca só saem palavras salgadas e as pessoas da terra não entendem o que não é doce ou ácido. Das minhas mãos só se vêem as tuas transparências. As minhas unhas são basaltos. (Vim ver a minha mulher.) Tu secares é eu secar. (O banco verde permanece sozinho à beira da barragem. Nada há entre ele e a água). Prometo que o mar corre dentro de mim.

Texto: | Sofia Sequeira|11ªB|
Desenho:|Caetana F. Thomaz|12ºD| 
Escola Secundária Rainha Dona Amélia|Semana das Artes |


Semana das Artes - Ilustração / Textos (VIII)

Caminhando, pensativo, nas ruas iluminadas pela cor festiva da cidade, absorto na minha mente, onde me refugio, vejo belas pinceladas alegres na calçada branca lisboeta. Sem cansaço, mas com uma felicidade extasiante, passeio num quadro feito só de esperança…
As ruas estreitas e arejadas podiam estar preenchidas com pessoas que andam sonhadoramente ao sol idílico, mas não estão. Onde se encontram, não sei; talvez no campo, aproveitando o tapete verde de uma ou outra colina. Sei que as ruas estão vazias. Sim. Intensamente vazias. Nem pombos me fazem companhia debicando as frestas entre as pedras.
Ao fundo, avisto um rio azul, brilhante, com uma leve ondulação provocada por um navio de três mastros, esguio, sublime, com as suas pálidas velas desfraldadas.
 No meio de uma calma tão pura, numa destas ruas floridas, ouço um som metálico, um som agudo e fino, familiar, propagando-se nos carris frios que atravessam o alcatrão escaldante.
Vem aí um som de madeira, amarelo, imponente; é o elétrico lisboeta em todo o seu esplendor!
É esta a beleza infinita de Lisboa, livre e
desordenada, tão inspiradora… Aqui tenho
o nosso elétrico, amigável companhia, numa visita pela cidade que de todas é a que todos acolhe, com um calor saudável e terno, na cidade de luz, banhada pelo
manto azul que nos lançou à descoberta…

 Eis o rasgo de poesia desenhada, pintada com um pincel.

Texto: | João Pedro Duarte|11ªF|
Desenho:|Caetana F. Thomaz|12ºD| 
Escola Secundária Rainha Dona Amélia|Semana das Artes |

Semana das Artes - Ilustração / Textos (VII)


Medo. Morte. Medo de Morte. Medo da Morte. Morro de medo da Morte.
Pessoas andam pela nossa vida. A correr. Outras a passar. Umas de relance. Vêm e vão. Vão e vêm. Ficam? Algumas sim. Poucas. Quase nenhumas. Tão dependentes. Tão habituadas a pedir ajuda. Não há quem nos ajude a fugir da morte. Não há quem morra connosco. Quando morremos, morremos sozinhos. Se morrer quero morrer contigo. A morte sem ti é muito mais assustadora

Texto: | Leonor  Prisca  Martins Ferreira|10ºH|
Desenho:|Sara Saraiva|12ºD| 
Escola Secundária Rainha Dona Amélia|Semana das Artes |

Semana das Artes - Ilustração / Textos (VI)

Escolhi o retrato de uma mulher nua coberta por um vestido ligeiramente descaído. Simboliza tanto a complexidade do ser humano, como a beleza das suas formas corporais. Acima de tudo, representa aquilo que identifica uma mulher, por vezes, o seu mistério e secretismo, ou a sua força e sensualidade. Através de um lápis de carvão são refletidos a naturalidade e presença tão indissociáveis do símbolo que é uma mulher.

Texto: | Maria Corrêa| 10º H | Desenho: |Leonor Oliveira |12ºD| 
Escola Secundária Rainha Dona Amélia|Semana das Artes |


Memória de Anne Frank



Lembro-me de uma altura em que coisas como um magnífico céu, pássaros  a chilrear, luar e flores em botão não me teriam cativado. As coisas mudaram desde que vim para aqui. Por exemplo, uma noite, na altura de Pentecostes, quando estava muito calor, fiz um grande esforço para ficar acordada até ás onze e meia para poder ver bem a lua, desta vez sozinha, para variar. Infelizmente o meu sacrifício foi em vão, uma vez que estava muita claridade e não me podia arriscar a abrir a janela. De outra vez, há vários meses, fui por acaso lá acima e a janela estava aberta. 

Só voltei para baixo quando a forem fechar. A noite escura e chuvosa, o vento, as nuvens a correr, tudo isto me hipnotizou; foi a primeira vez, em ano e meio, que vi a noite cara a cara. Depois dessa noite, o meu desejo de a voltar a ver tornou-se maior que o meu medo de assaltantes, de uma casa escura e infestada de ratazanas ou de rusgas policiais.  Descia sozinha e olhava pela janela da cozinha ou do gabinete privado. Muitas pessoas acham a natureza bela, muitas pessoas dormem de vez em quando debaixo de um céu estrelado, e muitas pessoas em hospitais e prisões esperam ansiosamente o dia em que serão livres para apreciar o que a natureza tem para oferecer. 

Mas poucas estão tão isoladas como nós das alegrias da natureza, que são para partilhar igualmente entre ricos  e pobres. Não é só a minha imaginação - olhar para o céu, as nuvens, a lua e as estrelas, faz-me realmente sentir calma e esperançada. É um remédio muito melhor que valeriana ou brometo. A natureza faz-me sentir humilde e pronta para enfrentar todos os golpes com coragem! Infelizmente, excepto raras ocasiões, só posso ver a natureza através de cortinas empoeiradas, presas sobre janelas sujas; isso  tira o prazer da observação. A natureza é a única coisa para a qual não há substituto!


(Diário de Anne Frank, 13 de Julho de 1944)

É uma história antiga e nestes dias em que dominam os privilégios do pensamento utilitário é muito importante lembrar sempre e em profundidade cívica, o que representou o Holocausto e como a dignidade, a esperança, a vida foi destruída em nome de nenhum valor. Primo Levi disse-o com clareza, "aconteceu aqui, na Alemanha, num país com uma cultura de referência, pode voltar a acontecer". É sobre isso, sobre o esquecimento que hoje se pratica que importa lembrar o nascimento de Anne Frank.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Semana das Artes - Ilustração / Textos (V)

Não sairei da escuridão sem ti, não sairei da escuridão sem te guiar, sem ser aquela luz de presença, aquela que te acalma quando em pânico estás, aquela que te descontrai, aquela que te relaxa, aquela que te amaina nas mais ínfimas situações de horror.

E no terror? No terror lá estarei para te iluminar, para ser a chama acesa na mais fria noite sofrida. Lá no céu marcarei, como um farol a um barco faz, a minha presença, de forma a encontrares o conforto no desconhecido desconforto, de forma a ires mais além, de forma a que não digas sim. Aí na terra, mostrar-me-ei por outros, e aí me deves aprender a ver, porque eu não estando, estou, não sendo, sou, não falando, falo, não vivendo, vivo- Manter-te-ás inabalável e eu farei possível o impossível.

Não te perseguirei, tentarei, lograrei, mas antes te mostrarei a pureza, o repouso alcançável, o reino, o infinito. 

Texto: |João Maria Maldonado Correia|11º D | Desenho: |Caetana F. Thomaz|12º D| 
Escola Secundária Rainha Dona Amélia|Semana das Artes |