No dia cinco de outubro de dois mil e quinze deu-se início ao projeto "De que é que tens medo?". É um projeto a ser desenvolvido com os alunos do ensino secundário e que tem a parceria da Companhia Nacional de Bailado. Nesta primeira sessão participaram a jornalista do jornal Expresso, Cristina Peres e de um elemento ligado à Companhia Nacional de Bailado, a senhora Cristina de Jesus. Nesta apresentação ....
Espaço de partilha e divulgação das atividades da Biblioteca Escolar da Escola Secundária Rainha Dona Amélia
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
De que é que tens medo - (1)
O modo como se cresce com a arte é na maior parte das vezes uma escolha. Porém, é no primeiro ou nos encontros precoces com ela que se descobre a potência que tem de raptar-nos ao quotidiano. Depois, já se sabe, somos devolvidos ao mundo mais ricos. Só que há uma condição para que a arte passe a completar-nos a vida misturando-se com as nossas inquietações: sermos livres de fazer perguntas.
"De que é que tens medo?" é um ciclo de conferências em que a palavra será dada aos jovens do ensino secundário. O objetivo é que, partindo dos temas dos espétaculos da programação 2015-2016 da CNB, se abordem questões fundamentais da fase de desenvolvimento em que se encontram. Amor, paixão, homossexualidade, machismo, direitos das mulheres, coragem, inserção, racismo, violência, submissão são alguns dos elementos que queremos trazer a debate, o mais próximo possível do modo como são formulados pelos jovens. A estrutura das quatro edições "De que é que tens medo?" tem por ponto de partida uma palestra dada por um convidado a duas comunicações feitas por jovens, abrindo-se de seguida o debate à audiência constituída por jovens.
À partida, só há uma certeza: nomear o medo é a melhor maneira de esvaziá-lo.
Cristina Peres - Companhia Nacional de Bailado
(Apresentação do Projeto - "De que é que tens medo?")
(Apresentação do Projeto - "De que é que tens medo?")
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Mar me quer - Livro da semana
Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção de alma que nem chegou a falecer.
- Levanta, ó dono das preguiças.
E o mando da minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo:
- Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.
- Conversa de malandro...
- Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, fora isso, eu só presto é para viver...
Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
- Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher...
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestino sobre pensarmos Deus ou não-Deus..." (pág. 09).
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Dos livros
O livro é um dos objectos raros, por onde se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos aos critérios da econometria. O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura.
Embora muitos dispensem esta chave de
abrir tesouros e vidas infindáveis ela é um imenso privilégio. É-o, pois significa
que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já
não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A
leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos
de lazer e de conhecimento.
O que faz a grandeza do livro é a sua
essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela
suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único
suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do
seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos,
carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de
construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a
leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão,
nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade,
instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a
cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do
tempo.
Os livros são assim os elementos de um
ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso,
essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com
elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É
dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos
permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas
palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. É na respiração das palavras
que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as
palavras ouvem” (Manuel Anrónio Pina) e é por isso que eles são a mais bela
forma de registar o mundo e as suas cores.
A iniciar Outubro
ESPÍRITO DO OUTONO
Terei de falar do espírito do outono
agora que setembro
chegou ao fim. (Espírito
é palavra suspeita: não há
hipócrita que não se abrigue
à sua sombra.) Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?
Terei de falar do espírito do outono
agora que setembro
chegou ao fim. (Espírito
é palavra suspeita: não há
hipócrita que não se abrigue
à sua sombra.) Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?
Eugénio de Andrade, In "O sal da língua"
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
O Outono
Este é o mês em que as folhas
começam a arder devagar.
Nos ramos ainda, a mudança
- verde, dourado, castanho -
até chegar, tão cruel,
o dia em que a folha se solta
e tomba no chão do Outono.
E a saudade principia,
a melancolia do Verão,
o corpo ainda a beber
a última réstia de sol...
E aquela alegria final
de quem recebe nas mãos
a oferenda das uvas?
João Pedro Méeseder, "Setembro". O livro dos meses. Porto: Lápis de memórias.
começam a arder devagar.
Nos ramos ainda, a mudança
- verde, dourado, castanho -
até chegar, tão cruel,
o dia em que a folha se solta
e tomba no chão do Outono.
E a saudade principia,
a melancolia do Verão,
o corpo ainda a beber
a última réstia de sol...
E aquela alegria final
de quem recebe nas mãos
a oferenda das uvas?
João Pedro Méeseder, "Setembro". O livro dos meses. Porto: Lápis de memórias.
Imagem: http://english-idylls.tumblr.com/
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