segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O palácio japonês - Livro da semana

Entretanto o que podia existir de mais bonito na praça do que as crianças brincando no parque? Nada. Todas elas vestindo infância. Num alarido de pássaros sem gaiola. Jogando bolas, correndo. Verdade que nenhuma delas trazia uma canoa ou um trenzinho como ele possuía. 

Um velho japonês sentou-se ao seu lado e lhe disse que havia um palácio japonês em plena Praça da República. 
- O senhor falou que esse palácio fica mesmo na Praça da República?
Estendeu a mão e indicou um lugar.
- Bem ali. Mas nem todas as pessoas podem vê-lo. 
- E eu?
- Você disse que gostava de crianças, não disse?
- Claro.
- Se quiser poderá fazê-lo.
Alguma força o atraía para o assunto. Sem se controlar segurou as mãos do velho japonês e implorou:
- Por favor, deixe-me ver o Palácio Japonês. Eu guardarei o maior segredo. Nunca o mostrarei para ninguém.
O velho riu.
- Mesmo que o quisesse mostrar... Não é dado a todo o mundo a maravilha de ver todas as maravilhas.

José Mauro de Vasconcelos. (1999). O Palácio Japonês. Rio de Janeiro: Dinapress.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Lembrando o Nobel de José Saramago

Foi há dezassete anos que José Saramago tomou conhecimento que seria dele o Prémio Nobel da Literatura de 1998. Nessa memória das palavras, a lembrança dos seus Cadernos, onde ele iniciou a escrita de registos sobre o que o real lhe fez pensar. Nas suas palavras encontramos formas de ver o mundo, desenhos de geografias mentais. 

A sua obra é no essencial a sua assinatura sobre o que foi, o que procurou ser e o que nos tentou mostrar como sendo o seu olhar. E nessa obra cativante e ou polémica encontramos as palavras, ferramentas que José Saramago procurou usar ao serviço de uma escrita que se possa encontrar com o que somos como humanidade, o que nos limita, que sonhos temos e que fundo nos modela. 

Acima das palavras, das emoções, do desenho ético e ideológico das ações, de que pedra somos feitos, que substância temos depois de retirada toda a gordura. A sua obra evoluiu entre o edifício das palavras e a arquitectura do cinzel que busca a essência interior do homem. José Saramago definiu uma escrita em moldes muito próprios, diversas vezes narrando como se o discurso fosse do nível oral e propusesse uma longa conversa. E denunciou uma crescente falta de humanidade de um mercantilismo destrutivo, cujos contornos se tornaram mais negros. 
Vale a pena recordá-lo nas suas próprias palavras.

(...) amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las?

E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. 
Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Escritor do mês - Mia Couto

Tudo o que tenho não tem posse:
o rio e suas ocultas fontes,
a nuvem grávida de Novembro,
o desaguar de um riso em tua boca.

Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.(1)

Mia Couto é um autor moçambicano que tem reinventado a língua portuguesa dando-nos territórios por onde se ligam a identidade de uma cultura, o património colectivo de uma comunidade, saltando fronteiras, dando força nova às possibilidades da Literatura. Há trinta anos a publicar títulos, recordamos Terra sonâmbula (1992), A Varanda de Frangipani (1996), A Chuva Pasmada (2004), O Beijo da palavrinha (2006), Pensageiro frequente (2010), Tradutor de Chuvas (2011), A Confissão da Leoa (2012) ou o mais recente Jerusalém

Mia Couto está imerso como pessoa na realidade de uma cultura de um país, ainda com restos de heranças coloniais, vivendo uma construção política e social com situações mal resolvidas vindas do processo de descolonização e que assim necessita de se olhar, de se pensar como conjunto humano. Tem sido esse o papel de Mia Couto e da sua literatura. Tem dado novas formas à linguagem integrando a riqueza humana e cultural de Moçambique, expondo a sua respiração, mas também falando sobre o medo e o que povoa o quotidiano de figuras quotidianas.

A literatura de Mia Couto constrói uma ligação entre o fundo africano e aquilo que pode ser uma "modernidade" no sentido de uma sociedade mais partilhada, mais coerente com os valores de uma matriz europeia. A sua literatura desmonta as lendas, os mitos tentando ligar o mundo rural e urbano, dando consistência a uma humanidade que se religa entre a realidade e um pensamento mágico. Mia Couto dá-nos um conjunto de valores de grande significado, pois ensina-nos que a memória e a cultura são factores de grande significado na identidade dos povos. É a mais nobre função da literatura.

De que é que tens medo - (1)


No dia cinco de outubro de dois mil e quinze deu-se início ao projeto "De que é que tens medo?". É um projeto a ser desenvolvido com os alunos do ensino secundário e que tem a parceria da Companhia Nacional de Bailado. Nesta primeira sessão participaram a jornalista do jornal Expresso, Cristina Peres e de um elemento ligado à Companhia Nacional de Bailado, a senhora Cristina de Jesus. Nesta apresentação ....


De que é que tens medo - (1)

O modo como se cresce com a arte é na maior parte das vezes uma escolha. Porém, é no primeiro ou nos encontros precoces com ela que se descobre a potência que tem de raptar-nos ao quotidiano. Depois, já se sabe, somos devolvidos ao mundo mais ricos. Só que há uma condição para que a arte passe a completar-nos a vida misturando-se com as nossas inquietações: sermos livres de fazer perguntas.

"De que é que tens medo?" é um ciclo de conferências em que a palavra será dada aos jovens do ensino secundário. O objetivo é que, partindo dos temas dos espétaculos da programação 2015-2016 da CNB, se abordem questões fundamentais da fase de desenvolvimento em que se encontram. Amor, paixão, homossexualidade, machismo, direitos das mulheres, coragem, inserção, racismo, violência, submissão são alguns dos elementos que queremos trazer a debate, o mais próximo possível do modo como são formulados pelos jovens. A estrutura  das quatro edições "De que é que tens medo?" tem por ponto de partida uma palestra dada por um convidado a duas comunicações feitas por jovens, abrindo-se de seguida o debate à audiência constituída por jovens. 

À partida, só há uma certeza: nomear o medo é a melhor maneira de esvaziá-lo.

Cristina Peres - Companhia Nacional de Bailado

(Apresentação do Projeto - "De que é que tens medo?")

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Mar me quer - Livro da semana

  

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção de alma que nem chegou a falecer.
   - Levanta, ó dono das preguiças.
   E o mando da minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo
   - Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. 
   - Conversa de malandro...
   - Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, fora isso, eu só presto é para viver...
   Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
     - Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher...
     - Mulher, eu?
   - Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
     - Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
     Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
     - Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
     - A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestino sobre pensarmos Deus ou não-Deus..." (pág. 09).