segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O cavaleiro da Dinamarca - Livro da semana

Depois, em fins de Fevereiro, despediu-se de Jerusalém e, na companhia de outros peregrinos, partiu para o porto de Jafa. Entre esses peregrinos havia um mercador de Veneza com quem o Cavaleiro travou grande amizade. Em Jafa foram obrigados a esperar pelo bom tempo e só embarcaram em meados de Março. Mas uma vez no mar foram assaltados pela tempestade. O navio ora subia na crista da vaga ora recaía pesadamente estremecendo de ponta a ponta. Os mastros e os cabos estalavam e gemiam. As ondas batiam com fúria no casco e varriam a popa. 

O navio ora virava todo para a esquerda, ora virava todo para a direita, e os marinheiros davam à bomba para que ele não se enchesse de água. O vento rasgava as velas em pedaços e navegavam sem governo ao sabor do mar. — Ah! — pensava o Cavaleiro. — Não voltarei a ver a minha terra. Mas passados cinco dias o vento amainou, o céu descobriu-se, o mar alisou as suas águas. Os marinheiros içaram velas novas e com a brisa soprando a favor puderam chegar ao porto da cidade de Ravena, na costa do Adriático, nas terras de Itália. Porém, o navio estava tão desmantelado que não podia seguir viagem. — Esperarei por outro barco — disse o Cavaleiro —. 

A beleza de Ravena enchia-o de espanto. Não se cansava de admirar as belas igrejas, as altas naves, os leves arcos, as finas fileiras de colunas. Mas mais do que tudo admirava os mosaicos multicolores onde se erguiam esguias figuras de rainhas e santos que poisavam nele o seu grande olhar. — Ouve — disse o Mercador ao Cavaleiro —, não fiques aqui à espera de outro navio. Vem comigo até Veneza. Se Ravena te espanta mais te espantará a minha cidade construída sobre as águas. De Veneza seguirás por terra para o porto de Génova. Assim atravessarás o Norte da Itália e conhecerás as belas e ricas cidades cuja fama enche a Europa. De Génova partem constantemente navios para a Flandres. E uma vez na Flandres depressa chegarás à tua terra.

 O Cavaleiro aceitou o conselho do Mercador e seguiu para Veneza. Veneza, construída à beira do mar Adriático sobre pequenas ilhas e sobre estacas, era nesse tempo uma das cidades mais poderosas do mundo. Ali tudo foi espanto para o dinamarquês. As ruas eram canais onde deslizavam estreitos barcos finos e escuros. Os palácios cresciam das águas que reflectiam os mármores, as pinturas, as colunas. Na vasta Praça de Sáo Marcos, em frente da enorme catedral e do alto campanário, o Cavaleiro mal podia acreditar naquilo que os seus olhos viam. Aérea e leve a cidade pousava sobre as águas verdes, ao longo da sua própria imagem. Passavam homens vestidos de damasco e as mulheres arrastavam no chão a orla dos vestidos bordados. Vozes, risos, canções e sinos enchiam o ar da tarde.

Nunca o Cavaleiro tinha imaginado que pudesse existir no mundo tanta riqueza e tanta beleza. Não se cansava de olhar os degraus de mármore, os mosaicos de oiro, as solenes estátuas de bronze, as águas trémulas dos canais onde se reflectiam as leves colunas dos palácios cor-de-rosa, as pontes, os muros cobertos de sumptuosas pinturas, as igrejas e as torres. A cidade parecia-lhe fantástica, irreal, nascida do mar, feita de miragens e reflexos. Era igual às cidades encantadas que as fadas fazem aparecer no fundo dos lagos e dos espelhos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Dia Mundial da Alimentação III

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Dia mundial da alimentação - Na rota do Oriente

A celebração do Dia Mundial da Alimentação na Escola Secundária Rainha Dona Amélia em 2015 passou pela construção temática de atividades organizadas pelo cruzamento de culturas e em particular pelas trocas de plantas. A rota do Oriente foi a temática escolhida que permitiu organizar uma exposição de especiarias com mostra bibliográfica e uma receita de almoço, com destaque para algumas das influências vindas da China, da Índia ou da Ásia Menor.

Dia mundial da alimentação

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Hannah Arendt – evocar o pensamento

” The sad truth is that most evil is done by people who never make up their minds to be good or evil. ” – Hannah Arendt, A condição humana. 

Quando a New Yorker me enviou para cobrir o julgamento de Adolf Eichman eu assumi que o tribunal teria apenas um propósito. Fazer justiça. Esta não era uma tarefa fácil, porque o tribunal que o julgava via-se diante de um crime que não exista nos códigos penais. E o réu era um criminoso muito diferente daqueles que antecederam o julgamento de Nuremberg. Mesmo assim, cabia ao tribunal definir Eichman como homem sendo julgado pelos seus actos. Não se estava a julgar um sistema, nem a História, ou sequer o anti-semitismo. Somente a pessoa. O problema com os crimes nazis como os de Eichmam é que ele insistia em renunciar a qualquer traço pessoal. Como se não tivesse sobrado ninguém para ser punido ou ser perdoado. Repetidas vezes ele protestava, rebatendo as acusações da promotoria, dizendo que não tinha feito nada por iniciativa própria. Que jamais fizera algo com premeditação para o bem ou para o mal.  Apenas cumpria ordens. Esta típica desculpa oferecida pelos nazis torna claro que o maior mal do mundo é o mal perpretado por ninguém. Males cometidos por homens sem qualquer motivo, sem convicção, sem razão maligna, mas seres humanos que se recusam a ser pessoas. E é este fenómeno que eu chamei a banalidade do mal. Nunca acusei o povo judeu pela sua destruição. A resistência era impossível. Mas talvez haja alguma coisa entre a resistência e a cooperação. E é só nesses sentido que digo, que alguns dos líderes judeus poderiam ter agido de modo diferente. É extremamente importante fazer-se essas perguntas. Porque o papel dos líderes judeus fornece o exemplo mais chocante do ponto a que chegou o colapso moral causado pelos nazis na respeitada sociedade europeia. E não só na Alemanha, mas em quase todos os países. Não apenas entre os que perseguiam, mas também entre as vítimas. Os crimes de Eichman foram crimes contra a humanidade porque os judeus são seres humanos. Porque os nazis o negavam. Um crime contra eles, é por definição, um crime contra a humanidade. Nada do que escrevi foi em defesa de Eichman. O que tentei foi conciliar a chocante mediocridade deste homem com os seus actos abomináveis. Tentar entender não é o mesmo que perdoar. A minha responsabilidade é entender. É a responsabilidade de qualquer um que ouse escrever sobre este assunto. Sócrates e Platão referiam-se muitas vezes ao pensar como o diálogo silencioso travado entre mim e eu próprio. Ao recusar-se a ser uma pessoa, Eichman abdicou totalmente da característica que melhor define o homem como tal – a de ser capaz de pensar. Consequentemente, ele se tornou incapaz de fazer juízos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem actos cruéis numa escala monumental jamais vista. É verdade. Tratei dessas questões de forma filosófica. A manifestação do acto de pensar não é o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal. O belo do feio. E eu tenho a esperança de que o pensar dê força às pessoas para evitar a catástrofe nesses raros momentos, na hora da verdade. (Do filme Hannah Arendt, de Margarethe Von Trotta)