segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Umberto Eco - In memoriam


No passeio das tílias

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração. (1)


 Foi há seis anos que a Madeira amanheceu com um aluvião que levou na corrente sonhos, memórias e quotidianos. Nas palavras e no coração as memórias de uma paisagem humana que foi preenchida pelos nossos sonhos, mesmo agora que a tragédia nos faz duvidar das paredes e dos aromas que aqui experimentámos. Fernando Alves, com a magia e a sabedoria de quem olha com espanto o real que nos é dado a viver, deixa-nos um podcast que dispensa apresentações. A ouvir como uma oração. Aqui.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Das palavras de Vergílio (IV)

É durante a noite que o mundo cai a nossos pés, quando a perceção da vida nos aparece clara e distintamente. É na paz do silêncio que nos encontramos e encaramos a vida, aquilo que temos de enfrentar. No silêncio da noite, quando estamos sós, podemos pensar e temos a oportunidade de sentir com mais intensidade. Não existem distrações. 

Existimos apenas nós e a nossa vida: as mágoas, os arrependimentos, as tristezas sem fim; o que a vida representa para nós e a oportunidade de nos guiarmos através dela.
Existem as nossas ações e os nossos sonhos.

É no silêncio da noite que ganhamos coragem e que podemos ser nós próprios, tomar as nossas decisões. É no silêncio da noite que nos apercebemos da realidade e de tudo o que perdemos. É também no silêncio da noite que compreendemos a nossa felicidade e o que a vida nos ofereceu.

Catarina, "Silêncio da noite", 11ºC1
Imagem: Copyright - Beyond-Somewhere


Das palavras de Vergílio (III)

Na noite o silêncio é mais puro.
(...) "Silêncio da noite",11º C1; Imagem - Noite estrelada - Vincent van Gogh

Das palavras de Vergílio (II)

Ouço. Não quero pensar. Não me apetece. Pensar implica empurrar a inércia para longe, e a inércia é muito pesada. Mas o pensamento também pode entrar-nos pelos ouvidos. É bem mais fácil assimilá-lo na alma depois. 
A Natureza, rainha do Universo, impinge uma regra ao mundo natural: "aquele que faz o mais possível a partir do menos possível deixará o seu legado para o futuro." É a lei do menor esforço. Usar a própria alma para produzir o pensamento, um pensamento original implica empurrar a inércia, e a inércia é muito pesada. Que se ouça e se assimile na alma o produto dos outros! 
Ao parar e escutar, sou capaz de possuir o pensamento. E não gasto a minha alma no processo. Imagino um mundo ideal, sem artistas, sem escritores, em que apenas um homem se sacrifica, pensa, e dá o seu pensamento a todos. E todos seguem o seu pensamento.
Assim pensam os que não pensam.

José, "Ouço, não quero pensar",10ºC1; 
Imagem - Copyright: Krzysztof Karpinsky

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Jorge Amado - escritor do mês

 

Cacau de 1933, inauguraria uma temática que entre os anos quarenta e oitenta serviriam de matéria-prima para as obras de Jorge Amado, o cacau como suporte de uma organização social, económica e política. Terras do sem-fim (1943), São Jorge de Ilhéus (1944), Gabriela cravo e canela (1958), Tocaia Grande (1981) e O menino garapiúna(1988) completam um ciclo de livros pensados e alimentados no sul da Baía, os seus grupos humanos, as suas fontes de poder, a sensualidade dos trópicos discutindo o papel da mulher e  de como novas ideias eram permeáveis a formas de colonização da terra. 

Especialmente em Terras do sem-fim, um dos seus livros mais importantes ao lado de São Jorge de Ilhéus, descreve-se a formação do cacau como uma indústria e como se dá essa luta pela terra e de como surgem pequenas cidades no sul da Baía, já no início do século XX. Neles, como em Gabriela cravo e canela, surgem-nos o universo dos coronéis, os critérios do seu estatuto político e económico e as figuras obedientes que suportam esse poder, os jagunços. Nestas obras Jorge Amado dá-nos uma geografia humana e cultural, a Baía colocando sempre a literatura como um património e uma forma, um instrumento de combate perante as formas mais simplistas de viver em comunidade. 

Jorge Amado parte de um local, da sua caracterização para chegar ao universal e aos modos de exploração da vida humana no seu sentido mais global. A esperança por novos territórios que eram difíceis de conquistar e que implicavam uma luta árdua, sobre-humana para sobreviver. Os aromas, a culinária, as formas de ser, o amor entre figuras à procura de um sentido num universo violento. Tudo isso faz de Jorge Amado um autor maior, que fez de particulares formas, um olhar ao universal. Isso faz dele um autor para todos os tempos. 

Jorge Amado escreveu sobre a antropologia das cidades e dos locais que tentava compreender. Esse significado autêntico sentido pelas pessoas, à procura de uma palavras substantiva e ao mesmo tempo bela. Era essa a sua forma de se encontrar com as pessoas e de no real ser preenchido pelos vivos e pelos ausentes que aqui deixaram as marcas de muitas vidas. Jorge Amado pertence à galeria dos eternos. Um dia ele vem por aí, com a sua linguagem própria e palavras a definir as personagens de uma cumplicidade, feita literatura. 

Das palavras de Vergílio (I)


Pensar. Pensar o quê, porquê, quem, como...?

Pensar porque sim ou pensar por pensar?
Pensar porque pensar faz parte de nós, pensar é estar vivo.
Pensar no que fazemos, queremos, temos, sentimos, tudo na nossa vida nos faz pensar, porque desperta este sentido, o sentido do pensamento, aquele que muitos consideram importante. (muitos não, mas até para chegar a essa conclusão precisam de pensar). O pensamento é essencial! Descreve cada um de nós, vai para além da realidade superficial e materialista, define quem somos emocionalmente, como um bilhete de identidade para as nossas emoções, opiniões. O pensamento não se baseia "no quê", pensamos porque pensar é viver.
Pensar para quê?
Para mostrarmos no mundo que estamos vivos, para nos mostrarmos a nós mesmos que estamos vivos, que somos alguém, que algo em nós não tem limites, não sem oposições nem arrependimentos, deixando a liberdade no pensamento, estamos a valorizá-lo, a afirmar que este não é determinado, é da nossa responsabilidade - conduzir o pensamento ao longo deste caminho que é a vida.

Inês, "pensar o quê?", 10ºC2
Imagem - O pensador de Rodin