quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Das palavras de Vergílio (VI)

Não penses muito num mundo onde o pensar não te ajuda, não te une,... Não penses muito num tempo onde um porquê básico completa o teu desejo, te guia... Utiliza essa capacidade, essa atitude, essa garra, para mudar o que ainda não mudaste, fazendo o que ainda não fizeste e, talvez, atingir aquilo que ainda não atingiste. Usa essa "digestão" da tua mente para resolver o que precisa de ser resolvido, para o que se apresenta como realmente importante, ultrapassando "as pequenas pedras" que te impedem de começar e te obrigam a pensar no que não precisa de ser pensado, segue o "não penses muito" e pensa só no que verdadeiramente importa, pensa por ti.

João Saúde, "Não penses muito", 10º C2
Imagem: © – m-ban. – 白の習作。

Matilde Campilho - A Escrita das palavras

Há palavras que se encontram como formas de viagem, sons de ideias à nossa espera, desejos expostos do mundo, para os reencontrarmos na nossa pele, no sorriso dessas sílabas à deriva no mundo. Essas palavras são a nossa composição de pequenos fragmentos,  a permanência de uma eternidade que deixamos em momentos informais e naquilo que descobrimos e amamos.
A escrita nasce assim da nossa experiência viva, das nossas indecisões, dos caminhos percorridos, de como a chuva nos transporta a imaginários sonhos ou como o sol nos inunda com as suas atmosferas de luz. 
Matilde Campilho tem uma escrita que nasce e desenvolve-se nesta forma de escrever como a vida nos surge, nos descreve no que sentimos e exploramos. Depois do destaque como livro da semana na Biblioteca, um vídeo sobre essa graça natural de viver entre as palavras. Uma apresentação digital sobre essa construção das palavras em nós, um retrato de uma jovem e a sua redescoberta nessas formas de expressão que exprimem espaço e desejo, uma construção habitada de paisagens vastas e belas.

Jóquei - Livro da semana

Título: Jóquei
Autor: Matilde Campilho
Edição: ..ª
Páginas: 
Editor: Tinta da China
ISBN: ...

CDU: ...
Sinopse:
Não sou de choro fácil a não ser quando descubro qualquer coisa muito interessante sobre ácido desoxirribonucleico. Ou quando acho uma carta que fale sobre a descoberta de um novo modelo para a estrutura do ácido desoxirribonucleico, uma carta que termine com “muito amor, papai”. Francis Crick achou o desenho do ADN e escreveu a seu filho só para dizer que “nossa estrutura é muito bonita”. Estrutura, foi o que ele falou. Antes de despedir-se ainda disse: ” Quando você chegar em casa vou-te mostrar o modelo”. Isso não esqueça os dois pacotes de leite, já agora passe a comprar pão, guarde o resto do dinheiro para seus caramelos, e quando você chegar eu te mostro o mecanismo copiador básico a partir do qual a vida vem da vida. 
Não sou de choro fácil mas um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos me comove. Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir, e olha que eu moro bem no meio da montanha. De vez em quando vejo passar os aviões, mas isso nunca acontece de madrugada – a noite se guarda toda para o infinito silêncio. Algumas vezes, durante o apuramento das estrelas, penso nos santos que protegem os pilotos. Amelia Earhart disse que não casaria a não ser que fosse assinada uma tabela de condições e essas condições implicavam a possível fuga a qualquer momento.” I cannot gurantee to endure at all times the confinements of even an attractive cage”.
 Vai passarinho. Soube de uma canção cujo refrão dizia I would die for you, fiquei pensando que mais de metade das canções do mundo dizem isso mas eu nunca entendi isso. Negócio de amor e morte, credo. Lá na escola eles ensinavam que amor são sete vidas multiplicadas, então acho que amor é o contrário do fim. Sei lá, o mundo está mudando tanto. Não sou de choro fácil a não ser quando penso em determinados milagres que ainda não aconteceram. Meu time ganhou por três a dois. O maior banco norte-americano errou, e errou em muitos milhões. Ninguém chegou a falar do aniversário do Superman, e isso também conta como erro.
 Faltam seis dias para a Primavera, está tendo uma contagem comunitária na aldeia mais próxima daqui. Acho que está chegando a hora do sossego, e que muita alegria vai pintar por aí. Acho que uma palavra é muito mais bonita do que uma carabina, mas não sei se vem ao caso. Nenhuma palavra quer ferir outras palavras: nem desoxirribonucleico, nem montanha, nem canção. Todos esses conceitos têm os seus sinónimos simplificados, veja só, ácido desoxirribonucleico e ADN são exatamente a mesma coisa, e o resto das palavras você acha. É tudo uma questão de amor e prisma, por favor não abra os canhões. Quando Amelia Earhart morreu continuava casada com Putnam – suspeito que ela deve ter visto rostos incríveis nas estrelas. Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba. Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho.
Matilde Campilho. “NOTÍCIAS ESCREVINHADAS NA BEIRA DA ESTRADA”. Jóquei. Tinta da China. 2015, p. 21-22.

Das palavras de Vergílio (V)

Silêncio da noite, quando tudo é nada.
É no silêncio da noite que te soltas, é nesse silêncio que por nulos segundos tu és tu. 
É nesse silêncio que tu te ouves, que te fazes sentir.

No silêncio da noite consegues sonhar, consegues pensar, sem que te seja criticado alguma coisa.
É no silêncio da noite que falas com quem te ouve mas não te vê, é nesse silêncio que essas pessoas são o teu meio mais reconfortante.

No silêncio da noite fazes as tuas maiores decisões e tens as tuas melhores ideias.
Silêncio da noite, este que me ouve.

Maria, "Silêncio da noite", 11º A1

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O tempo longo - memória de Manuel Laranjeira

"[...] Não compensar o trabalho é aniquilar o estímulo de trabalhar. E até certo ponto, se não é justo. É pelo menos explicável, que homens, que em outro meio seriam prodigiosas fontes de riqueza e de progresso, respondam invariavelmente aos que os incitam a fazer alguma coisa: "Não vale a pena".

Ontem, passou mais um ano sobre o desaparecimento físico de um homem que conviveu com o modernismo e fez dele, com Amadeo de Sousa Cardozo, uma forma possível de modernidade num País velho e cinzento. O tempo longo é uma das suas mais importantes características, ao lado desse desfile de figuras tão nobres e vitais, que foram dispensadas de participar. De Sá de Miranda, a Bento de Jesus Caraça, de Torga a Pessoa, de Bento de Jesus Caraça a Agostinho da Silva, muitos ficaram presos na sua genialidade, dentro de um país que apenas respira, forma eufemística, para a expressão de Eça, "existe apenas".

Manuel Laranjeira, enquadra-se num movimento cultural autónomo dos homens que como Antero, Soares dos Reis, Torga, Ramalho Ortigão, Afonso Lopes Vieira ou Teixeira de Pascoaes souberam pensar as realidades sociais para melhor compreenderem o que faz as sociedades evoluírem e o que as paralisa, que movimentos as congelam e o que as transformam. Manuel Laranjeira é associado a uma ideia de pessismismo nem sempre bem enquadrada, pois o que o movia era a compreensão dos elementos que não faziam do país um lugar entre as nações desenvolvidas. Laranjeira nasceu em São Martinho de Moselos, em 1877, num lugar próximo de Santa Maria da Feira e faleceu em Espinho a 22 de Fevereiro de 1912. Portador de uma neurastenia crónica, o seu pensamento e a procura de um sentido para o país fez-lhe traçar um caminho de pessimismo, que Miguel de Unamuno viria a traduzir na sua célebre formulação de um povo suicida, no seu livro por Terras de Portugal Y de España.

Laranjeira encontraria neste pessimismo muitos dos pontos que Eça já tinha trazido à luz do dia, nomeadamente com as crónicas do Jornal de Évora, sobre uma classe política incapaz de compreender o país e a sua função e uma população analfabeta, num país que proclamava valores de um tempo e de uma civilização que não vivia. Continuamos fora dessa civilização que se pensa a si como um futuro de possibilidades, que não seja apenas obedecer a directórios não eleitos.

Laranjeira era natural de um meio modesto, mas por apoio de um tio pode estudar, tendo-se formado em Medicina. Dotado de um grande saber para o seu tempo, conciliou diferentes interesses e nos seus escritos encontramos abordados temas que vão da religião, à política, à literatura ou às artes. Laranjeira teve uma influência muito importante em Amadeo de Souza Cardoso e na sua ida para Paris para estudar desenho. Viria a publicar diferentes textos em periódicos como A Revista Nova, A Voz Pública, ou ainda, O Norte. 

A doença, as ideias de uma geração sobre a decadência do país, o isolamento cultural dos intelectuais ou dos que pensavam a realidade nacional, o afastamento de Portugal dos cenários de desenvolvimento e de enfoque internacionais construiriam um pessimismo de vida que o levaria cedo, numa atitude  violenta que outros também praticaram. Manuel Laranjeira é uma importante figura do pensamento oitocentista e do início do século e em muitos aspectos ele é profundamente actual.

Há neste livro e na sua obra a construção dos elementos culturais e sociais que impedem o País de ser um espaço de desenvolvimento pessoal para os seus cidadãos. O seu diagnóstico sobre a irrelevância dada ao trabalho como capital, a inteligência não colocada ao  serviço da construção de ideias que suportem acções de valor para o homem no seu quotidiano, o afastamento das classes políticas pelo que é justo, pelo território, pela identidade cultural das pessoas recoloca a importância de Manuel Laranjeira no pensamento cultural do início do século. No movimento dos que ousaram pensar por si, e que veicularam um modernismo único, o de transformar o futuro, que é o presente de todos os dias.

Concurso nacional de Leitura - fase distrital (Ensino Secundário)

 

Obras escolhidas para a fase final do Concurso Nacional de Leitura, para os alunos do secundário.
O ano sabático de João Tordo, editado pela Dom Quixote.
Flores de Afonso editado pelas Companhia das Letras.

Concurso nacional de Leitura - fase distrital (Ensino Básico)

O concurso nacional de Leitura na sua 10ª edição, a realizar no dia 6 de abril na Biblioteca Municipal da Lourinhã escolheu para a fase distrital os livros abaixo indicados:

A alvorada dos deuses, de Filipe Faria, editado pela Presença. 
A cruz vazia de Maria Teresa Maia Gonzalez, editado pela Difel e também pela Arcádia.