quinta-feira, 17 de março de 2016

O pensamento de Umberto Eco (I)

Ponto de partida paras atividades com alunos do 10º e 11º anos sobre o valor das Humanidades na formação das pessoas e no desenvolvimento das sociedades. Foram apresentadas algumas ideias de Umberto Eco sobre o valor do livro como instrumento de aprendizagem, os novos suportes e a importância deste património da memória das sociedades. O livro enquanto objeto é uma das mais significativas invenções do género humano. 

Ele constrói connosco significados, conduz-nos numa viagem, da qual nós nos apreendemos para nós próprios. A leitura em formatos digitais alarga a possibilidade de novos leitores, mas não é uma leitura capaz de nos fazer descobrir os mais interiores espaços do texto. A memória de uma leitura do livro é real, diferenciada e única. Nos suportes digitais essas memórias não se distinguem. Os suportes digitais estão concebidos para funcionarem como instrumentos de pesquisa de informação. 

A memória nas sociedades representa o conhecimento de uma identidade, a integração de todos num valor comunitário que identifica e reconhece os cidadão, como entidades vivas de  uma cultura. O estudo dessa memória permite refletir sobre os fatores que organizam uma animi cultural, isto é os significados que nos conduzem aos valores do espírito. São estes que em microcosmos organizam a criação artística e respondem às necessidades do belo, como uma entidade superior de existência humana.

As redes digitais tornaram possível uma democratização no acesso a conteúdos e como espaço alargado sem controle de publicação, a internet passou também a ser utilizada por qualquer pessoa, independentemente da validade dos seus textos. Essa globalização dos acessos cria muitas dificuldades para a construção de um conhecimento capaz de reconhecer a diferença. Entre milhões de conteúdo cria-se um sentido aparentemente igualitário, que não é mais que o kitsch ao serviço de um pensamento utilitário. As redes permitiram a divulgação de qualquer informação, sem a que a mesma fosse acompanhada de qualquer certificação institucional. 
Nesta apresentação de algumas das ideias de Umberto Eco partiu-se para a apresentação genérica de alguns dos seus livros, com destaque para o Nome da Rosa.

Escola a ler 2016

 

 


 
 
 Registo da atividade Escola  a ler (dez minutos de leitura simultânea na Escola Secundária Rainha Dona Amélia.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Encontro com Alexandre Guerreiro

   
   
 

O doutorando Alexandre Guerreiro deu uma palestra a alunos do secundário (11º e 12º anos) sobre o tema: O Terrorismo, Refugiados e a Guerra da Síria: as origens e o futuro. Palestra de grande valor comunicativo pela informação disponibilizada e pelo modo sugestivo de interpelar os alunos, no sentido que todos compreendessem o que envolve o conceito de refugiado, os direitos humanos e o terrorismo nos tempos atuais. Foi uma excelente "aula" sobre a História Contemporânea, os desafios que o confronto de culturas coloca ao nível da cidadania e do exercício da liberdade.

Encontro com Jornalistas

 
 

Ferreira Fernandes e Valentina Goldschmidt, jornalistas do Diário de Notícias vieram conversar com alunos do secundário (10º e a12º ano) sobre a sua profissão. Relataram experiências, apresentaram o que os seduz nessa profissão, as dificuldades que por vezes têm de ultrapassar e contaram sobretudo histórias. Relatos fascinantes da procura da história original, mas também das que do ponto de vista humano nos engrandecem pelo reconhecimento do outro e da diversidade humana em tantos países. Foi um momento extraordinário de partilha de experiências. Os jovens puderam compreender como nos jornais diferentes tipos de textos fazem integrar os factos de um modo  mais linear ou mais literário,  como é o  caso das crónicas. Dever ético, respeito pelas fontes e participação cívica na construção da democracia foram outros aspetos destacados neste encontro.

terça-feira, 15 de março de 2016

Encontro com Maria Luísa Ribeiro Ferreira

Maria Luísa Ribeiro Ferreira, professora da Universidade de Lisboa e pertencendo ao seu Centro de Filosofia veio fazer uma palestra a alunos do ensino secundário sobre Filosofia e Ecologia. Maria Luísa Ribeiro Ferreira é autora de uma extensa obra escrita, dinamizadora de projetos filosóficos inovadores, combativa defensora de causas, como a da filosofia (feita) no feminino e a do ensino filosófico. Nesta palestra Maria Luísa Ribeiro Ferreira veio falar sobre a luta de Vandana Shiva em prol da biodiversidade. Foi destacado o papel de Vandana Shiva como ecofeminista e ativista ambiental na Índia. A palestra revelou-se interessante pela dimensão que ofereceu de ligar a Filosofia à Ecologia.

Nicolau...

A vida tem destas coisas. O srº Contente foi uma vez o srº Nicolau Breyner e o futuro é a memória dos que guardamos no espírito e no coração. A nossa eternidade vive disso, da memória. O mais importante é isso, é gostarem de nós, lembrarem com um sorriso o nosso rosto. Os nossos olhos, feitos de espanto e incompreensão, devolvem uma vida feita de momentos quase irreais à escala do universo e tão mágicos. Nicolau percebeu isso e compreendeu que a vida é ter um lugar na vida dos outros, construir uma linha, uma vontade, uma determinação, uma razão sentida, algo, como Pessoa dizia "uma coisa vinda diretamente da natureza para mim". Ele percebeu-o e nós devemos, em memória, agradecer essa lucidez e as palavras com que encantou o palco, onde tantas vezes nos distraiu e nos fez sorrir. Obrigado Nicolau. Take care!

segunda-feira, 14 de março de 2016

Compreender o génio de Einstein

 
Quando um pensamento percorre incessantemente o universo, quando se aventura e se perde em distâncias incomensuráveis, na infinidade dos possíveis, e se volta por um momento a fim de se fixar nas minúsculas que relas da Terra, reivindicações de fronteiras, possessões, insultos e ameaças recíprocas lançadas de um lado e do outro de uma linha imaginária, de uma cadeia montanhosa, de um rio, de um posto alfandegário, um nacionalismo estreito, mesquinho, que nos deixa paralisados, o que dizer?
Como reagir, no regresso das estrelas?
Um tal pensamento dificilmente poderá misturar-se às miseráveis lutas terrestres. Vê as pequenas coisas de demasiado longe. As estrelas não são propriedade de ninguém.
(...)

  - Está guardado para quê?
 - Para trabalhar, com certeza, já lho disse. Para prosseguir com as minhas investigações. Para dar a nossa opinião sobre as opiniões dos outros, como Newton continua a fazer com as minhas. Mas com uma má-fé total. praticamos a ciência espectral. Parece que as nossas equações, nas minhas em particular, existem segredos, tão bem escondidos que nos passaram despercebidos. Assim, andamos à procura, obstinadamente, todos juntos, juntamente com os que estão ali, na sala de espera, com os que me escrevem, com os que me telefonam. Aquilo que nos é concedido não é grande coisa na corrente da eternidade. Uma pequeníssima vitória sobre a morte. Sobre a morte física. A ilusão de ainda estarmos vivos. E Newton, que preferiu ficar acima da discussão, deve sentir que, desta vez, os seus sobressaltos não vão prolongar-se, que está a ser usado, que já está fora da corrida, que em breve vai dissolver-se e juntar-se ao enorme grupo silencioso das sombras sem utilidade. Desta vez, sem esperança de regresso. Mal deixará quinze ou vinte linhas na história geral das ciências.
   - E o senhor também? 
   - Com certeza. Apagamo-nos uns aos outros. E cada um de nós guarda no bolso algumas migalhas de todos aqueles que nos precederam.

(...)

  - O pensamento desta espécie - ínfima no universo - é necessariamente limitado a si mesmo. O pensamento das formigas exerce-se ao nível das formigas e o dos homens ao nível dos homens. Estabelece os seus próprios critérios, as suas próprias regras de verificação, e admira-se de que aquilo que observa corresponda àquilo que decretou.
  A jovem disse-lhe ainda: o pensamento humano apenas tem como referência o pensamento humano. As leis que ele descobre e verifica no universo, nada nos diz que existam numa realidade absoluta e, mesmo que existam fora de nós, que sejam justas. Não passam de uma projecção de nós mesmos, só são justas para nós. Como dizem com insistência os partidários da quantidade, os realistas, é até provável que o universo não seja aquele que observamos e analisamos, ou pelo menos que não seja só isso.

    Outra teoria, outros encadeamentos matemáticos e outras experiências de verificação, numa outra versão do universo, arrastar-nos-iam sem dúvida para territórios semeados de armadilhas, onde nos perderíamos. cada pensamento cria a sua própria prisão, de onde se evade pelos seus próprios meios. Ou julga evadir-se. Pois cavamos os nossos túneis de evasão e, ao mesmo tempo, avisamos os guardas. A mesma voz que faz as perguntas dá as respostas. Nem as especulações religiosas, bloqueadas desde a partida pelo dogma, nem as aventuras filosóficas temerárias, nem o virtuosismo extremo (aos nossos olhos) das verificações técnicas, nem as nossas escapadelas fantasmagóricas, ultrapassam o humano. E com razão. As nossas provas só têm valor para nós. Provavelmente, não interessam a mais ninguém, salvo como curiosidades locais. O nosso sistema sensorial, o nosso pensamento lógico e a nossa imaginação exercitada, não conseguem sair do nosso círculo.

Jean-Claude Carrière, Entrevista a Einstein. Quetzal, págs. 103, 167 e 168.