segunda-feira, 18 de abril de 2016

Encontro - "As ondas gravitacionais"

 
 


Há momentos que não se descrevem. Experimentam-se, absorvem-se e ficam como uma experiência de quase epifania. Foi o que aconteceu hoje na sala de audiovisuais com três elementos do Departamento de Física do Instituto Superior Técnico. 
Um professor e dois alunos (um mestrando e um doutorando) apresentaram uma palestra sobre as ondas gravitacionais. Souberam falar com extrema simplicidade de um assunto complexo. Deram aos presentes a motivação para olhar para o Universo, tentar ouvir os seus sinais, de modo a que cada vez mais nós o possamos compreender. 
De um modo simples os presentes compreenderam o que são ondas gravitacionais. Perceberam que são essencialmente deformações no tecido espaço-tempo, que Einstein tinha já previsto na Teoria da Relatividade Geral. A geometria do universo pode ser distorcida por uma grande massa, sendo que essa curva construída seria a própria gravidade. Foram revelados testes feitos nos Estados Unidos ao nível da exploração das partículas que de um modo experimental comprova a teoria de Einstein. Foi um momento brilhante, com uma boa participação dos alunos.

Memória de uma estrela cintilante

"...faço também parte de uma geração que, na Europa, na América, e noutras partes do mundo, quis levar a ciência para a rua, levar a experimentação para a escola, trazer a argumentação científica para dentro dos debates de sociedade e para a decisão política democrática. " (Análise social, 2011)                                                                                                                                              
José Mariano Gago, foi um exemplo. José Mariano Gago foi um cientista que nos deu a ciência como suporte de formação no nosso quotidiano, o das escolas e o das pessoas. José Mariano Gago foi um ser humano acima das pequenas palavras, que desbravou formas de estimular a Ciência como forma de conhecer o mundo e as pessoas. Nessa atitude de desbravamento ousou criar possibilidades entre as  barreiras dos pequenos espíritos.

José Mariano Gago é uma daquelas raras pessoas que a "política" tem em milénios de uso. José Mariano Gago estudava a ciência como forma de todos podermos participar como comunidade. José Mariano Gago superou em galáxias de distância os pequenos gestos que vemos em tantos dias em políticas de marginal grandeza. 

José Mariano Gago foi o canto de cisne de uma cultura democrática perdida tantas vezes em palavras sem substância. Ele foi um exemplo do que poderíamos ser, se percebêssemos o valor da educação e do conhecimento para construir futuros. Foi, como disse o Miguel Esteves Cardoso, um herói, um homem bom. Um cientista que chegou à governação para dar um contributo positivo à ciência e foi por isso um benfeitor. A política neste País não é servida por exemplos destes. Vejamos nele alguém que nos ensinou o essencial.  

Aguardemos e lutemos para que a intervalos intermitentes, o seu espírito desça a vontades dignas de uma comunidade que se sabe pensar e existir em decência e grandeza de espírito. Partiu há um ano e é uma memória da nossa melhor forma de ousar pela imaginação novas fronteiras a descobrir. Obrigado José!

Partir com uma mochila (Francês - I)

  

A tartaruga de Darwin - Livro da semana

Título: Henriqueta, a tartaruga de Darwin
Autor: José Jorge Letria
Edição: 1ª
Páginas: 30 p.
Editor: Texto Editora
ISBN: 978-972-47-3827-7
CDU: 821.134.3-93"19/20"

Sinopse:(...) A sua teoria, aquela que eu e outros animais como eu ajudaram a ganhar forma na cabeça desse homem genial, pode resumir-se desta maneira: os indivíduos reproduzem-se dando origem a outros indivíduos semelhantes, mas não exactamente iguais aos pais que os geraram. Assim existe continuidade da espécie, mas também variedade. Entretanto, o processo de selecção natural faz com que os mais bem adaptados ao ambiente se reproduzam mais, deixando maior descendência e estando melhor preparados para sobreviver. este princípio é válido para todas as formas de vida na Terra, incluindo a humana. Deste modo, Charles Darwin defendeu a ideia de que os seres humanos são apenas uma espécie entre outras espécies e não foram criados nem escolhidos por Deus para nenhuma missão especial.  

Esta teoria provocou uma verdadeira revolução e nunca foi bem aceite por quem sempre teimou em ver o Homem como um ser único criado à imagem e semelhança de Deus. Talvez por isso, Charles Darwin nunca recebeu dos poderes públicos, em Inglaterra, o reconhecimento que merecia e pelo qual tanto ansiava. Só quando desapareceu, a 19 de Abril de 1882, com uma idade avançada para a época, o governo do seu país decidiu que deveria ser sepultado na Abadia de Westminster, honra máxima para um cidadão nacional.

Trabalhou praticamente até ao final da vida. Um dos trabalhos que mais gostou de escrever, já com bastante idade, dizia respeito a uma das flores que mais apreciava: a orquídea. De tudo isto fui tendo notícias, de muitas maneiras, na paz da minha vida australiana. Também tive notícias de duas guerras mundiais e de muitas outras que mataram mais seres humanos do que as maiores epidemias da História. E dei por mim a pensar que o mundo podia ter sido muito mais pacífico e tolerante se os seres humanos tivessem reflectido sobre o modo de fazerem o bem e não o mal. 

Ao longo dos anos, fui sempre tendo notícias de Charles Darwin, dos seus êxitos e também dos males que atormentavam a Humanidade, bem como de grandes descobertas científicas que permitiram prolongar e melhorar a qualidade de vida dos seres humanos. (...)
Como ninguém sabe o que se passa para além deste mundo terreno em que todas as espécies coabitam, é bem possível que Henriqueta e Charles Darwin já se tenham encontrado algures, entre nuvens, estrelas e cometas, e tenham dito um ao outro, numa linguagem de afectos que pode dispensar as palavras:
- Aqui estamos outra vez juntos, mas agora para a eternidade.
Se Darwin e a tartaruga Henriqueta alguma vez se encontraram nas andanças deste mundo, não é uma questão de verdade científica. É sim uma questão de imaginação, e essa imaginação pode não ter limites se tu assim o desejares. É também para isso que os escritores escrevem livros e os leitores lhes acrescentam vida enquanto os lêem e dão ao que neles encontram escrito todos os sentido e interpretações que muito bem entendem. É, afinal, essa a tua liberdade". (páginas 28 e 30).                      

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O tempo - esse grande escultor: Livro da semana

Título: O tempo - esse grande escultor 
Autor: Marguerite Yourcenar 
Edição: 1ª 
Páginas:220
Editor: Editorial Presença
ISBN: 972-29-0562-7 
CDU: 821.133.1-4"19

Sinopse: "Acordo. Que disseram os outros? Aurora que, cada manhã, reconstróis o mundo; integral nos braços nus que conténs o universo; juventude, aurora do homem. Que me importa o que outros disseram, o que acreditaram. Sou Febo del Poggio, um bobo. Os que falam de mim dizem que sou pobre de espírito; talvez nem tenha espírito. Existo como um fruto, como um copo de vinho, como uma árvore. Quando vem o Inverno, as pessoas afastam-se da árvore que não dá sombra; comido o fruto, deitam fora o caroço; vazio o copo, vão buscar outro. Eu aceito. Verão, água lustral da manhã sobre membros ágeis; ó alegria, orvalho do coração...
Acordo. Tenho diante, atrás de mim, a noite eterna Eu dormi milhões de idades; milhões de idades eu vou dormir... Só tenho uma hora. Havia de estragá-la com explicações e com máximas? Estendo-me ao sol, sobre o travesseiro do prazer, numa manhã que não voltará mais". (1931) - (1)

Há palavras e formas de descrever o que vivemos em tantos tempos do passado e em tantos sonhos do futuro que ficamos apenas deslumbrados, como quando observamos um pôr-do-sol ou a luz prateada da lua nas ondas nocturnas da praia. Marguerite Yourcenar é uma dessas vozes sem tempo, onde as palavras se fazem de inteligência, sabedoria e beleza. 
Em O Tempo, esse grande escultor, reúnem-se um conjunto de artigos que reflectem sobre arte, história, cristianismo, natureza, pintura, ou diversas reflexões sobre o Oriente. Textos publicados desde os anos trinta e os anos oitenta em diferentes publicações e que são aqui reunidos. Livro já com alguns anos, a que vale a pena voltar para redescobrir como o tempo molda tudo, as pessoas, os seus gestos, a sua compreensão e os próprios artefactos da matéria. 
Em O Tempo, esse grande escultor vemos os significados dos movimentos da natureza e o modo como os integramos numa vida cultural e social. Percebemos como as civilizações criam rituais de significado e como somos peças intermitentes de uma aventura. Aventura de humanidade que o tempo marca e que apenas podemos compreender e levantar como um sonho. Aquele que deixamos pela nossa passagem.

(1) - Marguerite Yourcenar. (1984). O tempo, esse grande escultor. Lisboa: Difel, p.23.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A cidade e as palavras - Autor do mês - José Saramago

Tempo houve em que Lisboa não tinha nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147 depois de um cerco de três meses, os mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…
Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as coisas.
Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.
O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que freqüentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.
Talvez não seja possível falar de uma cidade sem criar umas quantas datas notáveis da sua resistência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o passado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de autocomplacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.
Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje. 
Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada, sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.
José Saramago, in O Caderno, Lisboa, Caminho, 2009
Imagem - Daqui

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Livro da semana - Emigrantes

Título: Os Emigrantes
Autor: W. G. Sebald
Edição: 1ª
Páginas: 137 p.
Editor: Quetzal
ISBN: 978-989-722-078-4
CDU: 821.112.2-34"19/20"

"I often come out here; it makes me feel that I am a long way away, though I never quite Know from where". (1)

Olho-os nas suas perguntas de silêncio, na atmosfera sépia com que interrogam o presente e vejo neles uma conquista à morte, às lágrimas com que entoaram as dúvidas e os receios, os sorrisos naufragados de esperança. Os seus passos preenchem os caminhos do azul que se encerra no vazio, como um esquecimento súbito, entre o desenho das ruas, o perfume das árvores e as cidades conquistadas à respiração de novas possibilidades.

Construíram a memória sobre os fragmentos da sua memória e encontraram nas manhãs frias, no céu cinzento, nas folhas caídas, nos mobiliários e nas arquitecturas que não conheciam, um caminho individual. O século XX criou a ilusão de uma vontade colectiva, a construção de um tempo global dominado por uma estética de agressão, de desvinculação das pessoas a uma comunidade, a uma cultura. Sebald reconquista para as luzes da memória esse esquecimento a que foram condenados, mas também a resistência que os seus fragmentos dão corpo.

Emigrantes de Sebald é no individual, a construção do desenraízamento de uma cegueira colectiva que a 1ª metade do século XX criou em muitos seres humanos. Nem sempre o vemos, poucas o compreendemos, mas as primeriras décadas do século XX foram acima da vitória de impérios, a formulação psicológica de uma decadência europeia. Emigrantes, construído em quatro contos, "Dr. Henry Selwyn", "Paul Bereyte", Ambros Adelwarth" e "Max Aurach" , reconquistam esse olhar que do tempo esquecido nos devolve os passos hesitantes das novas descobertas, do tempo construído, de uma energia que no crepúsculo ainda pretende viver.

Emigrantes presta um enorme contributo à Literatura, porque faz viver ficcionalmente na biografia humana, nos seus sentidos mais intimistas, nas maiores esperanças, no valor da criação individual pra formular possibilidades novas. A ideia de ficção como tempo vivido, conduz Emigrantes para o Tempo da História, o da dimensão pendular, do movimento que no indivíduo acompanhou a decadência de um mundo familiar, cultural e afectivo.

Sem a sua história individual, essa queda de onda que suspira sobre um movimento desafiante e opressivo, nunca perceberíamos que a tragédia e a grandeza das suas vidas são o essencial para entender as mutações sociais e civilizacionais. Devemos a estes Emigrantes a capacidade de entender como o real se constrói de processos individuais e como o esquecimento na respiração de cada um é uma porta aberta à tirania. 

Dos campos de lágrimas, de onde se ergueram, nas tardes de crepúsculo, os seus passos erguem uma memória que nos faz a nós ser parte do seu património. O de nos inscrevermos no mundo, no natural, onde a substância do tempo e a intemporalidade melhor se definem e melhor nos identificam. Um livro essencial, do qual Susan Sontag fundamentou como aquele que melhor revela a decadência da Europa, o seu fim como possibilidade de conduzir um mundo por caminhos sustentáveis e de desenvolvimento humano.