terça-feira, 19 de abril de 2016

O gueto de Varsóvia - a coragem

"Shuddering I shall cry:
what for and why
did my people die?"
 (Itzhak Katzenelson- I Had a Dream) - (1)

É uma história amarga, a maior delas. É uma narrativa impossível de explicar, pois não há nela nenhuma racionalidade, apenas a emoção que uma selvajaria animal ainda se faz transportar dentro de algo humano, uma humanidade clonada de formas sem espírito. Passou-se ao som de criações elevadas da capacidade de sublimar a vida, a música, a arte e a literatura. 

É uma história mil vezes repetida, mas nunca a percebemos verdadeiramente, nunca soubemos explicar porque a morte de milhões de pessoas pode ser uma alegria, uma sinfonia de vontades vitoriosas e na verdade nunca aprendemos do pouco que vemos, pois residem entre nós, nas coloridas televisões, nas radios de risos de plástico a construção por tózés do pensamento dizendo-nos que a memória é uma ocupação de falhados, não suporta o utiliatarismo que os novos iluminados habitam no conforto dos gadgets sem ideal humano.

Mas façamos um esforço, reconheçamos a esta meia dúzia de sonhadores o seu grito e o seu exemplo. O da palavra contra a violência, a explicação, o olhar que procura conhecer, o do testemunho para que se saiba se conheça, pela poesia, pela crónica, pelas imagens, pelas narrativas. E o seu grito final o de quem compreendeu que o impossível por ser humanamente inconcebível pode ser uma opção dos que vivem com os olhos na morte.

Após dois mil anos de sujeição, de incompreensão, alguns judeus perceberam que apenas lutando poderiam gritar o que sentiam, e tentar, apenas tentar mudar a sorte talhada nos campos de extermínio a que uma sociedade alemã, promessa de um desenvolvimento económico decidia encolher os ombros. Não dizia Heiddeger, o filósofo da emanência do ser que "as mãos de Hitler eram de uma beleza insuperável"?

Lembremos pois esses poucos, que nos mostraram no gueto de Varsóvia que a luta é a melhor forma de defender o que somos, e que embora divididos como o estavam em grupos e movimentos souberam lutar, heroicamente,na Passover, por uma dignidade contra os que apenas os queriam aniquilar. 

Fazem hoje setenta e um anos sobre esse levantamento no gueto de Varsóvia e essa luta de grandeza pela dignidade humana. É possível conhecer esta luta e o que foi a vida no gueto de Varsóvia, naquilo que foi o trabalho desenvolvido pelo historiador Emmanuel Ringelblum e que permitirira mais tarde criar o Holocaust Research Project. Pela sua vertente pedagógica e informativa, também de grande relevo o United States Holocaust  Memorial Museum.     

Darwin e as Ciências - campos de alargamento

   

"No futuro distante, vejo campos abertos para pesquisas muito mais importantes. A psicologia será baseada num novo fundamento, baseado na necessária aquisição de cada poder e capacidade mental via gradação. Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história."
Charles Darwin, em A Origem das Espécies, 1859
Charles Darwin é possivelmente o maior pensador do século XIX, pois formulou uma teoria que mudaria o modo como vemos a vida, o universo dando grandes contributos para o alargamento da Ciência com o surgimento progressivo de nos campos do conhecimento. Publicado a vinte e quatro de novembro de 1859, Sobre a origem das Espécies através da selecção Natural, ou a Preservação das Raças favorecidas na luta pela Vida (o seu título completo) foi a mais importante publicação de Darwin. Teve um enorme sucesso imediato e criou uma significativa polémica no campo civil e religioso.
O livro deu um contributo extraordinário para o mundo cultural, pois trazia abordagens novas sustentadas por dados. As críticas ao livro fundamentavam-se na ideia de que todos os seres vivos tinham origem em processos inteiramente naturais. Neste sentido o livro abalava os fundamentos da sociedade, pois desafiava todas as concepções anteriores sobre os seres vivos e foi o embrião para as transformações culturais e sociais que ocorreram no Ocidente durante Oitocentos. Num certo sentido o sentido moral e ideia divina de séculos anteriores perder-se-iam às portas do século XX e nesse sentido é uma obra de referência.
As suas ideias acabaram por ser aceites pela comunidade científica e pelas pessoas de um modo geral. A teoria da selecção natural parecia encontrar na realidade formas de a aceitar. Na década de 30 do século XX a teoria estava já plenamente aceite. A partir dela nasceu a a teoria evolucionista. A Biologia ao explicar a diversidade da vida acaba por ser devedora das ideias de Darwin. A importância de Darwin foi ter permitido alargar outros campos do conhecimento. Além das Ciências Biológicas, áreas como a Antropologia ou a Psicologia. Abriu possibilidades de ver o Ambiente e a Terra como um espaço em evolução.
Alguns viram nas ideias de Darwin uma incapacidade de responder satisfazer a todas as questões que a Bioquímica trouxe. As complexas funções químicas e biológicas do Homem poderiam ser explicadas apenas a partir de um passado evolutivo? Michael Behe, em A caixa negra de Darwin acredita que não. Os criacionistas têm procurado mostrar algumas limitações da teoria da Evolução. É o campo de análise entre Ciência e Fé. É evidente, todavia que a selecção natural é um pilar da Biologia, pois a resistência das bactérias, ou a evolução das florestas a efeitos de aquecimento global estão presentes. O próprio sistema global da Terra, o seu clima de que Al Gore tem falado é um elemento de alargamento desta teoria. 
O nosso mundo económico vive igualmente das suas ideias, pois quando se protegem empresas de fechar não se está a contrariar a selecção natural e a diminuir a possibilidade de desenvolvimento da sociedade? 
A questão da evolução a partir de um ancestral comum parece evidente e confirmada pelos estudos de DNA. A pergunta que importa responder é a seguinte: estará a espécie humana ainda em evolução e será esta selecção natural integradora de características físicas do homem, ou incluirá também aspectos comportamentais? É uma pergunta para o futuro que nos conduz ao valor significativo da obra de Charles Darwin.

Memória de Darwin

Desde os Gregos que o Homem procura compreender a sua natureza, mas também o que o envolve, o meio natural. No fundo compreender o universo através de equações que possam ser sistematizadas pela razão. Entre os criadores e pensadores de diferentes tempos que contribuíram para o alargamento da Ciência, um tem especial destaque, Charles Darwin.

A 19 de abril de 1882 celebra-se a memória de Charles Darwin, um naturalista e biólogo inglês que revolucionou o modo como o século XX viria a ver o mundo. Desde cedo Darwin revelou um grande interesse pelos fenómenos naturais. Contactou com naturalistas e com as temáticas da Botânica e da Geologia quando estudou Teologia. A 27 de dezembro de 1831 participou numa expedição à volta do mundo realizado pelo navio de nome Beagle. Durante cinco anos observou fósseis e recolheu amostras da natureza em diferentes locais.

A partir da sua observação construiu uma nova teoria explicativa do mundo natural. A sua teoria ficou expressa no livro A Origem das Espécies, criando desde a sua publicação uma imensa polémica pelas respostas que apresentava. Seria, no entanto, o seu segundo livro, A Origem do Homem que Darwin iria concretizar melhor as suas ideias de que o Homem tinha realizado um processo de evolução a partir de um antepassado comum. Poucos homens influenciaram o conhecimento e a Ciência como Charles Darwin. 

Em 1872 publicaria o seu último livro, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, onde procurou mostrar que o corpo e também a mente sofreram um longo processo de evolução. Darwin reformulou, ou podemos mesmo dizer reinventou a Natureza, no sentido em que abriu campos novos. O Evolucionismo, teria grande impacto na formulação de outras Ciências. Da Biologia, à Medicina e à Antropologia ele fez avançar a Ciência, que mais não é que a procura racional de compreender o mundo e os seus fenómenos. O campo científico contemporâneo é-lhe devedor na formulação do seu próprio pensamento. 

As suas ideias levantaram um coro de protestos na sociedade vitoriana. Os fundamentos da sociedade burguesa pareciam levar aqui mais um forte choque. A Igreja foi especialmente dura, pois como séculos antes com Galileu, a abertura de novos horizontes ameaçava a segurança do que se conhecia, do que estava estabelecido. Os primeiros anos do século XX e o seus conflitos mortais evidenciaram a natureza humana de uma forma que as ideias de Darwin e de outros, como Freud, viriam a confirmar da pior maneira.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

José Saramago - Retrato

Encontro - "As ondas gravitacionais"

 
 


Há momentos que não se descrevem. Experimentam-se, absorvem-se e ficam como uma experiência de quase epifania. Foi o que aconteceu hoje na sala de audiovisuais com três elementos do Departamento de Física do Instituto Superior Técnico. 
Um professor e dois alunos (um mestrando e um doutorando) apresentaram uma palestra sobre as ondas gravitacionais. Souberam falar com extrema simplicidade de um assunto complexo. Deram aos presentes a motivação para olhar para o Universo, tentar ouvir os seus sinais, de modo a que cada vez mais nós o possamos compreender. 
De um modo simples os presentes compreenderam o que são ondas gravitacionais. Perceberam que são essencialmente deformações no tecido espaço-tempo, que Einstein tinha já previsto na Teoria da Relatividade Geral. A geometria do universo pode ser distorcida por uma grande massa, sendo que essa curva construída seria a própria gravidade. Foram revelados testes feitos nos Estados Unidos ao nível da exploração das partículas que de um modo experimental comprova a teoria de Einstein. Foi um momento brilhante, com uma boa participação dos alunos.

Memória de uma estrela cintilante

"...faço também parte de uma geração que, na Europa, na América, e noutras partes do mundo, quis levar a ciência para a rua, levar a experimentação para a escola, trazer a argumentação científica para dentro dos debates de sociedade e para a decisão política democrática. " (Análise social, 2011)                                                                                                                                              
José Mariano Gago, foi um exemplo. José Mariano Gago foi um cientista que nos deu a ciência como suporte de formação no nosso quotidiano, o das escolas e o das pessoas. José Mariano Gago foi um ser humano acima das pequenas palavras, que desbravou formas de estimular a Ciência como forma de conhecer o mundo e as pessoas. Nessa atitude de desbravamento ousou criar possibilidades entre as  barreiras dos pequenos espíritos.

José Mariano Gago é uma daquelas raras pessoas que a "política" tem em milénios de uso. José Mariano Gago estudava a ciência como forma de todos podermos participar como comunidade. José Mariano Gago superou em galáxias de distância os pequenos gestos que vemos em tantos dias em políticas de marginal grandeza. 

José Mariano Gago foi o canto de cisne de uma cultura democrática perdida tantas vezes em palavras sem substância. Ele foi um exemplo do que poderíamos ser, se percebêssemos o valor da educação e do conhecimento para construir futuros. Foi, como disse o Miguel Esteves Cardoso, um herói, um homem bom. Um cientista que chegou à governação para dar um contributo positivo à ciência e foi por isso um benfeitor. A política neste País não é servida por exemplos destes. Vejamos nele alguém que nos ensinou o essencial.  

Aguardemos e lutemos para que a intervalos intermitentes, o seu espírito desça a vontades dignas de uma comunidade que se sabe pensar e existir em decência e grandeza de espírito. Partiu há um ano e é uma memória da nossa melhor forma de ousar pela imaginação novas fronteiras a descobrir. Obrigado José!

Partir com uma mochila (Francês - I)