terça-feira, 26 de abril de 2016

A declaração universal dos direitos humanos


The Universal Declaration of Human Rights


Os Refugiados...

Contos de cães e maus lobos - Livro da semana

Título: Contos de cães e maus lobos
Autor: Valter Hugo Mãe
Edição: 1ª
Páginas: 30 p.
Editor: Texto Editora
ISBN: ...
CDU: ...

Fui ver a minha nova estante logo pela manhã.
Era um bocado de espaço arranjado entre tralhas meio esquecidas. Fiquei ofendido. Os livros não esquecem nada. Eles são sempre a mesma memória admirável. Esquecer livros é uma agressão à sua própria natureza. Embora, na verdade, eles nem se devem importar, porque podem esperar eternamente. (...)
As histórias podem comer muitas palavras.
Pensei: os meus queridos livros. Era o que eu pensava e sentia: os meus queridos livros. Olhava-os como se estivessem vivos e pudessem sofrer. Como se pudessem também entristecer.

Gostei de colocar a hipótese de os livros serem como bichos. Isso faz deles o que sempre suspeitei: os livros são objectos cardíacos. Pulsam, mudam, têm intenções, prestam atenção. Lidos profundamente, eles estão incrivelmente vivos. Escolhem leitores e entregam mais a uns do que a outros. Têm uma preferência. São inteligentes e reconhecem a inteligência. 
Os livros estão esbugalhados a olhar para nós. Quando os seguramos, páginas abertas, eles também estão esbugalhados a olhar para nós. (...)

A primeira vez que vi um livro, que me lembre, era um que estava aberto, pousado sobre a mesa, com as folhas em leque como se fossem uma colorida flor contente. (...) Depois, compreendi, era o modo silencioso das conversas. Todos os livros são conversas que os escritores nos deixam. Podemos conversar com Camões, Shakespeare ou Machado de Assis, mesmo que tenham morrido há tantos anos.
A morte não importa muito para os livros.

Mais tarde, aprendi que os livros acontecem dentro de nós. Claro que eles podem ser bonitos de ver, mas são sobretudo incríveis de pensar. Eu disse ler é como caminhar dentro de mim mesmo. E é verdade. Quando lemos estamos a percorrer o nosso próprio interior.
Uma menina do colégio perguntava-me sempre se eu queria brincar às coisas bonitas. Brincar de beleza, dizia assim. Era igual a ficarmos cheios de delicadezas a fazer de conta que adorávamos tudo: os puxadores velhos das portas, os livros de álgebra, as meias rendadas da professora, a sopa de beterraba à hora do jantar no refeitório ou o cão zangado do guarda nocturno. Servia de maneira divertida para fazermos de conta que o mundo era maravilhoso e, subitamente, o mundo inteirinho parecia mesmo maravilhoso. Isso era tão bom de sentir.

Valter Hugo Mãe. (2015). "O rapaz que habitava os livros". Porto: Porto Editora. 93-94.
Imagem: Copyright - Festival au fort d'aubervilliers.

Saramago - A substância da palavra

José Saramago é um autor marcante das últimas décadas do século XX, tendo tido um papel de destaque na focalização da literatura portuguesa, dando-lhe palcos relevantes em diferentes continentes. 

José Saramago foi um escritor invulgar por diferentes motivos. Definiu uma escrita em moldes muito próprios, diversas vezes narrando como se o discurso fosse do nível oral e propondo uma longa conversa. As suas frases longas, as suas polémicas, o seu posicionamento político, as suas afirmações sobre a espuma dos dias deu-lhe um carisma que atraiu fãs do mundo inteiro e afastou muitos outros, por desconhecimento do seu real valor como criador de ideias. Forjaram-se assim alguns equívocos que importa ultrapassar para que mais pessoas cheguem ao valor intrínseco da sua escrita.

O primeiro equívoco é pensá-lo como um escritor de romances históricos, situação surgida pelo seu primeiro êxito - Memorial do Convento. José Saramago não escreveu romances históricos, no sentido de devolver a respiração de uma sociedade, de um conjunto social e cultural. Memorial do Convento é uma obra de fição sobre um tempo específico do passado, dando-lhe o autor uma perspetiva do seu próprio conhecimento e da sua análise do presente. Memorial do Convento é uma oportunidade para conhecer o que pensa Saramago sobre como as sociedades se transformam e neste caso a da 1ª metade do século XVIII. Em José Saramago, a História não é apreendida como uma certeza credível, sendo muitas vezes considerada como uma fantasia, na medida em que ela muda conforme as dimensões do tempo e na perspetiva das ações concretizadas por diferentes pessoas.

Em O ano da morte de Ricardo Reis não volta a escrever um romance histórico e medita entre um fascínio sobre a racionalidade deste heterónimo de Pessoa e um certo desconforto por esta ideia de satisfação pelo espetáculo do mundo. Neste sentido, coloca o ano de 1936 como pano de fundo e procura interrogar-nos sobre a crise das consciências e o nascimento dos autoritarismos na Europa. É uma convocação para nos interrogar, tendo como cenário, a desordem humanitária dos fascismos europeus. É uma interrogação, a de verificar, se ainda seria possível escrever odes sobre as quais nos sentimos sábios. 

Com A História do Cerco de Lisboa, o livro onde foi mais longe na interrogação do espelho da História, e onde cruzou espaços temporais diferenciados, o século XII e o século XX. Nele, discute os limites da “verdade histórica”, numa narrativa que nos devolve o homem comum, o que muitas vezes não se ouve nas narrativas da História. Com A História do Cerco de Lisboa, José Saramago procurou dar-nos a discussão da possibilidade de se escrever a História do Tempo Longo e essa é uma das suas marcas como escritor. Apresenta, num tempo conjuntural, a discussão do que é permanente nas sociedades, e de como o que vivemos e construímos vive desta combinação, de atitudes e valores de diferentes figuras.

Aquilo que José Saramago considerou ser o âmago da pedra, a carne e o sangue por que lutamos em si, fê-lo evoluir para um tipo de literatura que colocou questões sobre valores importantes, interrogando-nos sobre o que somos, que valores e preconceitos veiculamos e porque o fazemos. A abordagem de temas que tocavam crenças de muitas pessoas criaram-lhe dificuldades. São romances desta fase, O Evangelho segundo Jesus Cristo, O Ensaio sobre a Cegueira ou Todos os Nomes. No Livro das Tentações, ou No Homem Duplicado, revemos a restauração da ideia que nos devolve à pedra essencial de que somos feitos em estreita ligação ao mundo material e à nossa memória.