Espaço de partilha e divulgação das atividades da Biblioteca Escolar da Escola Secundária Rainha Dona Amélia
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Rui Chafes - O que move o mundo...
"The Forbidden Sea is Calling You" nos jardins da
Fundação Calouste Gulbenkian, durante a exposição "O Peso do Paraíso"
(2014)
quinta-feira, 5 de maio de 2016
quarta-feira, 4 de maio de 2016
Do tempo do desenho animado
Hoje é já um produto de museu, uma arqueologia de um tempo de poucas possibilidades, neste de desperdício de recursos pelo essencial, vivido sem necessidade de encantamento, nem de histórias e construído diariamente em televisões onde se leiloam espectáculos passageiros de nada significativo.
Há muito, muito tempo, quando o mundo parecia tão mais limitado nas oportunidades, os jovens puderam conviver com uma das formas de arte que na cultura anglo-saxónica se foi desenvolvendo , desde os anos trinta. A partir do fim do cinema mudo, dos anos vinte, Walt Disney criaria uma galeria de figuras que enterneceram sucessivas gerações e lhes deram horas de divertimento, num tempo e num País onde apenas o protótipo de um Sr. Silva parecia ter cabimento. Num mundo em conflito nada acontecia em Portugal.
Foi a partir do 25 de abril que o cinema de animação começou a ser mostrado na televisão. Figuras inesquecíveis como o Rato Mickey, O Pateta, o Gato Silvestre, ou mais tarde os Lonely Tunes e as Merrie Melodies trouxeram um conjunto de realizadores que em animação davam aos mais pequenos e maiores uma forma de distração, mas também de cultura. Mais tarde surgiriam ainda figuras tão interessantes, como fascinantes, como os Flintstones ou a Pantera.

O homem que em Portugal nos trouxe tantas dessas figuras, tendo contribuído para o desenvolvimento da banda desenhada e do cinema animado chamava-se Vasco Granja. Foi igualmente uma figura que lutou pela liberdade de expressão durante o Estado Novo, e esteve ligado à dinamização da saudosa revista Tintim.
Aqui fica uma singela evocação da memória de um tempo ainda próximo, mas já tão longínquo, na figura de um homem que trouxe até nós um mundo cheio de fantasia e encanto, e por isso a beleza de novas descobertas. Vale a pena descobri-lo num tempo que perdeu de vista o essencial.
Semana das Artes Visuais - Exposição de trabalhos
Convite
«Interessa-me uma arte que resista à interpretação e ao simbolismo, uma arte que nunca deixe de ser uma proposição poética. Não é só o que se vê, é sobretudo o que não se vê. Está lá tudo, atrás e dentro de nós, o visível e o invisível… e o Vazio, que é tudo o que temos. Uma obra de arte está sempre incompleta, estará sempre à nossa espera: são os nossos olhos que a completam, são os nossos olhos que formam e moldam as imagens. As obras realizam-se nos olhos de quem as vê, não apenas nas mãos de quem as faz. Ver uma obra de arte dá trabalho (ao contrário da passividade de ver televisão). Somos nós que construímos uma obra de arte, que lhe damos sentido e forma. Para além do trabalho do artista, é o nosso trabalho e esforço que constrói uma obra de arte. Ver e receber uma obra também é um trabalho.»
«Interessa-me uma arte que resista à interpretação e ao simbolismo, uma arte que nunca deixe de ser uma proposição poética. Não é só o que se vê, é sobretudo o que não se vê. Está lá tudo, atrás e dentro de nós, o visível e o invisível… e o Vazio, que é tudo o que temos. Uma obra de arte está sempre incompleta, estará sempre à nossa espera: são os nossos olhos que a completam, são os nossos olhos que formam e moldam as imagens. As obras realizam-se nos olhos de quem as vê, não apenas nas mãos de quem as faz. Ver uma obra de arte dá trabalho (ao contrário da passividade de ver televisão). Somos nós que construímos uma obra de arte, que lhe damos sentido e forma. Para além do trabalho do artista, é o nosso trabalho e esforço que constrói uma obra de arte. Ver e receber uma obra também é um trabalho.»
Rui Chafes
Prémio Pessoa 2015
Prémio Pessoa 2015
Há uma procura de transcendência na obra de Rui Chafes a que a utilização do ferro como matéria-prima não é alheia. O ferro vem das profundezas da terra e é um dos elementos mais abundantes no universo; dentro do corpo humano é o responsável pelo transporte de oxigénio no sangue. É desta forma que Chafes trabalha este material: como algo que vem do âmago e ao mesmo tempo permite uma tal leveza e delicadeza que consegue conter o ar.
Na sua exposição antológica no CAM da Fundação Calouste Gulbenkian, há peças de diferentes escalas, curvilíneas ou pontiagudas que saem das paredes para nos abraçar ou para nos cutucarem. Apetece sempre chegar mais perto e tocar. Não é comum que peças feitas de um material frio e rígido como o ferro suscitem a vontade do toque, mas estas dão. Talvez porque são moldadas com calor extremo e essa memória esteja impregnada nas obras.
Porque Chafes molda o ferro como se fosse papel. Como um corpo que fosse moldado com tempo e carinho. São peças que dialogam com o nosso corpo. Sempre. Obrigam o corpo a relacionar-se com elas, a reagir, a afastar-se, rodear, espreitar. São elas próprias corpos. É a presença do divino. No início do percurso expositivo temos uma das obras mais surpreendentes: “Lições de Trevas“ é uma malha de 24 colunas padronizadas. Todas têm os mesmos elementos que se repetem em locais e de formas diferentes em cada coluna. O visitante passeia por entre as colunas como se estivesse a passear por entre soldados em formatura, pois há algo de profundamente humano na especificidade de cada uma delas. Para Oscar Niemeyer o importante não são as colunas mas o espaço entre elas. Embora estas colunas não sejam arquitectónicas mas sim puramente escultóricas, o espaço entre elas é fundamental, pois o visitante tem que se posicionar bem perto da coluna para poder percepcionar os seus detalhes, o que transforma este mesmo espaço em algo palpável e geométrico, um local de circulação e paragem.
Logo a seguir temos uma sala com uma obra composta por um filme de Pedro Costa “Os Herdeiros” (2013) e “Vê Como Tremo” (2005) uma peça de Chafes que é uma peça de arquitectura efémera: uma estrutura metálica com subdivisões individuais contendo uma quadricula perfurada à altura dos olhos, por onde podemos ver o filme de Costa, como se estivéssemos num confessionário. Para uma experiência que é normalmente (ainda) colectiva, o cinema, Rui Chafes obriga-nos a uma fruição individual e intimista. Torna-nos uma espécie de voyeurs a tentar ver o Ventura. As duas obras complementam-se, são austeras e incomodativas. São notórias as afinidades que Chafes tem com Costa, assim como as que tem com Nozolino (também lá encontramos uma fotografia sua). São artistas do negro, mas quanto maior o negro maior também é o contraste e a luminosidade. É o escuro que nos desperta os medos irracionais, que estimula a imaginação. É de noite que dormimos e sonhamos ou temos pesadelos. De noite somos livres. Como considera Maria Filomena Molder, as esculturas de Chafes são guardiãs da noite.
Para Molder as exposições de Rui Chafes ressuscitam a tragédia como lugar de representação e efectivamente ao entrarmos na sala aberta do CAM parece que estamos na presença de várias divas que se confrontam entre si com majestática dignidade. Cada uma delas é soberba e paira sobre nós de forma por vezes ameaçadora, por vezes condescendente numa “forma precisa, austera e cuidadosa de vertigem”. [1]
Já numa anterior recensão tínhamos comentado o valor aurático das obras de Chafes. Essa qualidade que não é palpável e dificilmente é definível mas que é uma espécie de intangível. No CAM podemos ver que é uma qualidade intrínseca a todas as obras do artista. Mesmo as obras menos características dele como “Vertigem II” (1989-90), “Estrada de Sonho” (1997) ou “ Não Quando os Outros Olham” (1996), tem essa qualidade aurática que torna as suas esculturas intocáveis, mesmo que sejam uns sapatos expostos no chão.
Uma obra que não sendo das mais características do artista é uma obra essencial nesta exposição, pois liga as obras de interior com as que estão expostas no jardim é “A História da Minha Alma” (2004). Consiste em duas filas paralelas de bancos em ferro, todos eles com um rasgão. Estes bancos percorrem a sala até uma janela e multiplicam-se no exterior como se a janela não tivesse vidro. Todas as obras de Rui Chafes parecem estar a deixar este mundo, numa atitude de abandono, de caminho em direcção ao divino. Esta peça é a mais óbvia emissária deste desabitar pois parece querer negar-nos a sua presença ao mesmo tempo que nos obriga a olhar para outro lado: o jardim.
Inevitavelmente a obra constituída por “Burning in the Forbidden Sea” (2011) de Rui Chafes e “Filling Egg Shells” (2011) de Orla Barry, teria que estar presente numa antológica do artista. Embora seja uma colaboração, o trabalho sonoro de Barry contribui para tornar mais notório o carácter quase xamânico das esculturas de Chafes pois esta peça transporta-nos para um apogeu ritualístico primitivo. A obra de Rui Chafes está imbuída de um valor de sagrado. Um sagrado que não está ligado a uma religião mas sim a tudo o que é primitivo, ao tempo antes das religiões. A um tempo em que morrer fazia parte da vida, assim como as guerras e lutas. Um corpo de obra viril, mas que é ao mesmo tempo de uma delicadeza quase feminina. “Dei-lhe tempo de vestir a voz. E a ferida”. [2] Faz muitos anos que Rui Chafes tem uma voz concisa e profunda que cura as nossas feridas.
Notas:
(1) - Maria Filomena Modeler, Matérias sensíveis, Lisboa, rel+ogio DÁgua, 1999, p. 89.
(2)Lygia Fagundes Telles, As Meninas. Lisboa: Livros do Brasil, s.s., p. 120
(In Arte Capital)
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