segunda-feira, 16 de maio de 2016

Semana das Artes (VII) - Poemas Gráficos

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, in "A minha alma partiu-se", in Poemas

Poesia gráfica de Tânia Mota, 12º A1

Semana das Artes (VI) - Perspetivas, Cor e Movimento



Semana das Artes (V) - Ilustração

 

Manifesto da exposição de Amadeo na Liga Naval - 1916

Em Portugal existe uma única opinião sobre Arte e abrange uma tão colossal maioria que receio que ella impere por esmagamento. Essa opinião é a do Exmo. sr. dr. José de Figueiredo (gago do governo).
Não é porque este sr. Tenha opinião nem que este sr. seja da igualdade do resto de Portugal mas o resto de Portugal e este senhor em matéria de opinião são da mesma igualha. Um dia um senhor grisalho disse-me em meia-hora os seus conhecimentos sobre Arte.

Quando acabou a meia-hora descobri que os conhecimentos do senhor grisalho sobre Arte eram os mesmos que o Exmo .. senhor Dr. José de Figueiredo usava para me pedir um tostão (1): Pensa o leitor que faço a anedota? Antes fôsse: Mas a verdade é que estou muito triste com esta fúria de incompetência com que Portugal participa na Guerra Europeia. E que horrôr, caros compatriotas, deduzir experimentalmente que de todas as nossas Conquistas e Descobertas apenas tenha sobrevivido a Imbecilidade. E daqui a indiferença espartilhada da família portugueza a convalescer à beira-mar.
Algumas das raras energias mal comportadas que ainda assômam à tôna d'água pertencem alucinadamente a séculos que já não existem e quando Um Portuguez. genialmente do século XX, desce da Europa, condoído da pátria entrévada, para lhe dar o Parto da sua Inteligência, a indiferença espartilhada da família portugueza ainda não deslaça as mãos de cima da barriga. Pois, senhores, a Exposição de Amadeo de Souza Cardozo na Liga Naval de Lisboa é o documento conciso da Raça Portugueza no século XX.

A Raça Portugueza não precisa de rehabilitar-se, como pretendem pensar os tradicionalistas desprevenidos; precisa é de nascer pró século em que vive a Terra. A Descoberta do Caminho Marítimo prá Índia já não nos pertence porque não participamos d'este feito fisicamente e mais do que a Portugal este feito pertence ao século XV.
Nós, os futurístas, não sabemos História só conhecemos da Vida que passa por Nós. EIles teem a Cultura. Nós temos a Experiência ⎯ e não trocámos!
Mais do que isto ainda Amadeo de Souza-Cardozo pertence à Guarda Avançada nA MAIOR DAS LUCTAS que é o Pensamento Universal.

Amadeo de Souza Cardozo é a primeira Descoberta de Portugal na Europa no século XX. O limite da descoberta é infinito porque o sentido da Descoberta muda de substância e cresce em interesse ⎯ por isso que a Descoberta do Caminho Marítimo prá Índia é menos importante que a Exposição de Amadeo de Souza Cardozo na Liga Naval de Lisboa.
Felizmente pra ti, leitor, que eu não sou crítico, razão porque te não chateio com elucidaçães da Arte de que estás tão longinquamente desprevenido; mas amanhã, quando souberes que o valor de Amadeo de Souza-Cardozo é o que eu te digo aqui, terás remorsos de o não têres sabido hontem. Portanto, começa já hoje, vae à Exposição na Liga Naval de Lisboa, tápa os ouvidos, deixa correr os olhos e diz lá que a Vida não é assim?

Não esperes porém que os quadros venham ter comtigo, não! EIles teem um prégo atraz a prendê-los. Tu é que irás ter com Elles. Isto leva 30 dias, 2 mezes, 1 anno, mas, se tem prazo, vale a pena sêres persistente porque depois saberás também onde está a Felicidade.
JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS
Poeta Futurista
Lisboa, 12 de Dez, de 1916.

(1) Rectifico: O Exmo. Sr. Dr. José de Figueiredo veio substituir no original um Exmo. Sr. que tem por hábito pedir-lhe tostões.

Descobrir Amadeo de Souza-Cardoso (IV) - Os livros

 
"Eu trago sempre comigo ilusões, uma juventude forte e inquieta [...] A vida deu-me um destino a cumprir."


Se a sua obra se tornou fascinante de cor e vida, redescoberta tardiamente no País, mas conhecida no seu tempo sobretudo em Paris, a sua personalidade e o seu percurso de vida são igualmente uma descoberta que nos pode encantar. Os seus momentos de angústia e ansiedade nessa luta entre o que não era capaz de atingir e os momentos grandiosos que revestiam pensamentos novos a sentimentos velhos, como ele dizia é uma eloquência da sua genialidade. 

Palavra muito gasta e que Amadeo revestiu de um cariz novo pelo empenho em encontrar uma linha para revelar essa energia vital que o conduzia pelas formas e pelas cores. Diálogo de Vanguardas permite conhecer o que foi a exposição na Fundação Calouste Gulbekian em 2006 e compreender a relação de Amadeo nas vanguardas do Modernismo europeu no início do século XX. Catálogo que nos explica a relação da pintura de Amadeo com Duchamp, Modigliani, Picasso, ou Sonia e Robert Delaunay.

Fotobiografia de Amadeo de Souza-Cardoso é um livro rico de informações sobre a vida de Amadeo revelando a correpondência com a família, diversos materiais e essencial para conhecer esse cometa que foi Amadeo, rápido e brilhante. Um livro para conhecer o percurso de uma das figuras essenciais do 1º Modernismo em Portugal.