quarta-feira, 18 de maio de 2016

O 1º modernismo - Alberto Caeiro (I)

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver,
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isso com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da natureza
.
Alberto Caeiro, “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha Biografia.”
Alberto Caeiro, Poemas. (2006). Lisboa: Ática.
Imagem: © Fabien Bravin

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Amadeo - desenhar uma personalidade fascinante (I)


Aprendia a ser-se. De um toque de dedos derrubava o chapéu para a nuca, quedava-se inclinado sobre um quadril, ou então descia solidamente a escadaria de granito, estacava de pernas afastadas, farejando afrontas e risos, pronto a replicar. Deste modo se estabelecia numa certeza conjectural, se reunia forças para se ter íntegro e violento em seu inexaurível desejo de vida. E a paz vinha de se acreditar, num cenário que era ainda indecisa a autenticidade dos trabalhos inventados. A poeirada dessa quinta recôndita enchia-lhe por vezes os olhos, os arvoredos esbatiam-se num verde grosseiro e afogado. Mas não desertava do posto, timoneiro de si próprio como se confessava amiúde, acreditando nas mãos enfiadas até às profundas das algibeiras, guardião de confidências, abridor de sortes. Os rafeiros vinham devagar até ele, rondar-lhe a figura, deitavam-se-lhe aos pés. Um carro de bois insistia ronceiro em sua marcha, arrastando a paciência na estrada por detrás da casa.

Um dos tios de Amadeo iniciou a escrita de uma obra que seria a biografia de uma vida, justamente a de Amadeo de Souza-Cardoso. Mário Cláudio com conhecimentos na região pela sua própria origem nas terras entre Douro e Minho veio a ter acesso a esse texto inicial. A partir dele escreveu um texto belo e substantivo, narrativo e poético que tenta chegar a esse ponto inicial do homem antes do artista. Que tenta chegar ao desenho de uma vida. É um texto que nos confirma ou inicia a quem não conhece as formas desse brilho humano chamado Amadeo de Souza-Cardoso.

Mário Cláudio. (2016). "Amadeo", in Triologia da Mão. Lisboa: D. Quixote, página 26, 27

Imagem: Copyright - Biblioteca de Arte - Fundação Calouste Gulbenkian


Fantasmagorias - Livro da semana

Título: Fantasmagorias
Autor: Virginia Woolf 
Edição: 1ª 
Páginas: 67
Editora: Feitoria dos Livros
ISBN: 978-989-8775-73-3
CDU: 821.111-4"19"
Sinopse: Ela foi e é uma das grandes escritoras do século XX com a atribuição que isso tem de relativo, pois a sua escrita congelou comportamentos e formas de humano que ultrapassam muito o seu tempo. A sua vida foi um contraste de emoções, angústias e momentos de clarividência que deixou em livros como As Ondas, Mrs Dallowway ou Orlando. Londres foi matéria-prima da sua escrita e neste pequeno livro agora editado, a propósito de comprar um lápis é feita uma viagem pela cidade. Faz-se a descrição sobre o que a viagem nos pode trazer, mesmo em espaços próximos do local onde se habita. Recuperar as memórias de espaços com multidões, onde muitas histórias se perdem é a linha condutora deste pequeno livro de 1927, publicado agora através de uma nova editora, A Feitoria dos Livros. Livro ricamente ilustrado com fotografias do quotidiano de Virginia Woolf e dos espaços citadinos de Londres no final da década de vinte do século passado.
Nunca aconteceu, talvez, alguém sentir-se apaixonadamente distraído por um simples lápis. Mas há circunstâncias nas quais o desejo de possuir um se pode tornar absolutamente avassalador; momentos em que, sob pretexto de possuir um objecto, estamos a inventar uma desculpa para calcorrear metade de Londres entre a hora do chá e a hora do jantar. (...)
protegidos por este argumento nos pudéssemos entregar, em segurança, ao mar dos prazeres com que a vida citadina nos alicia durante o Inverno - deambular pelas ruas de Londres. Convém que a hora seja ao cair da tarde, e a estação o Inverno, pois no Inverno o brilho esfuziante do ar e a sociabilidade das ruas são compensadoras. Não nos sentimentos atormentados, como no Verão, pelo desejo de sombra, de isolamento e do ar suave dos campos de feno. E também porque o cair da tarde nos permite sentir a irresponsabilidade que a escuridão e a luz dos candeeiros concedem. Já não somos exactamente os mesmos.
Assim que pomos um pé fora de casa, entre as quatro e as seis horas de uma bela tarde, largamos o eu pelo qual os amigos nos conhecem, e tornamo-nos parte daquele vasto exército republicano de vagabundos anónimos cuja companhia é tão agradável, depois de termos estado no retiro daquele quarto só nosso. Porque neste permanecemos rodeados de objectos que expressam, de modo eterno, a singularidade dos nossos temperamentos e reforçam as memórias da nossa experiência.
             Virgina Woolf. (2016). Fantasmagorias. Lisboa: Feitoria dos Livros, pá. 29 e 31 

Semana das Artes (VII) - Poemas Gráficos

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, in "A minha alma partiu-se", in Poemas

Poesia gráfica de Tânia Mota, 12º A1

Semana das Artes (VI) - Perspetivas, Cor e Movimento



Semana das Artes (V) - Ilustração

 

Manifesto da exposição de Amadeo na Liga Naval - 1916

Em Portugal existe uma única opinião sobre Arte e abrange uma tão colossal maioria que receio que ella impere por esmagamento. Essa opinião é a do Exmo. sr. dr. José de Figueiredo (gago do governo).
Não é porque este sr. Tenha opinião nem que este sr. seja da igualdade do resto de Portugal mas o resto de Portugal e este senhor em matéria de opinião são da mesma igualha. Um dia um senhor grisalho disse-me em meia-hora os seus conhecimentos sobre Arte.

Quando acabou a meia-hora descobri que os conhecimentos do senhor grisalho sobre Arte eram os mesmos que o Exmo .. senhor Dr. José de Figueiredo usava para me pedir um tostão (1): Pensa o leitor que faço a anedota? Antes fôsse: Mas a verdade é que estou muito triste com esta fúria de incompetência com que Portugal participa na Guerra Europeia. E que horrôr, caros compatriotas, deduzir experimentalmente que de todas as nossas Conquistas e Descobertas apenas tenha sobrevivido a Imbecilidade. E daqui a indiferença espartilhada da família portugueza a convalescer à beira-mar.
Algumas das raras energias mal comportadas que ainda assômam à tôna d'água pertencem alucinadamente a séculos que já não existem e quando Um Portuguez. genialmente do século XX, desce da Europa, condoído da pátria entrévada, para lhe dar o Parto da sua Inteligência, a indiferença espartilhada da família portugueza ainda não deslaça as mãos de cima da barriga. Pois, senhores, a Exposição de Amadeo de Souza Cardozo na Liga Naval de Lisboa é o documento conciso da Raça Portugueza no século XX.

A Raça Portugueza não precisa de rehabilitar-se, como pretendem pensar os tradicionalistas desprevenidos; precisa é de nascer pró século em que vive a Terra. A Descoberta do Caminho Marítimo prá Índia já não nos pertence porque não participamos d'este feito fisicamente e mais do que a Portugal este feito pertence ao século XV.
Nós, os futurístas, não sabemos História só conhecemos da Vida que passa por Nós. EIles teem a Cultura. Nós temos a Experiência ⎯ e não trocámos!
Mais do que isto ainda Amadeo de Souza-Cardozo pertence à Guarda Avançada nA MAIOR DAS LUCTAS que é o Pensamento Universal.

Amadeo de Souza Cardozo é a primeira Descoberta de Portugal na Europa no século XX. O limite da descoberta é infinito porque o sentido da Descoberta muda de substância e cresce em interesse ⎯ por isso que a Descoberta do Caminho Marítimo prá Índia é menos importante que a Exposição de Amadeo de Souza Cardozo na Liga Naval de Lisboa.
Felizmente pra ti, leitor, que eu não sou crítico, razão porque te não chateio com elucidaçães da Arte de que estás tão longinquamente desprevenido; mas amanhã, quando souberes que o valor de Amadeo de Souza-Cardozo é o que eu te digo aqui, terás remorsos de o não têres sabido hontem. Portanto, começa já hoje, vae à Exposição na Liga Naval de Lisboa, tápa os ouvidos, deixa correr os olhos e diz lá que a Vida não é assim?

Não esperes porém que os quadros venham ter comtigo, não! EIles teem um prégo atraz a prendê-los. Tu é que irás ter com Elles. Isto leva 30 dias, 2 mezes, 1 anno, mas, se tem prazo, vale a pena sêres persistente porque depois saberás também onde está a Felicidade.
JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS
Poeta Futurista
Lisboa, 12 de Dez, de 1916.

(1) Rectifico: O Exmo. Sr. Dr. José de Figueiredo veio substituir no original um Exmo. Sr. que tem por hábito pedir-lhe tostões.