sexta-feira, 20 de maio de 2016

Vinte anos de RBE - as Bibliotecas

(A RBE foi uma iniciativa de grande relevo para o papel das Bibliotecas nas escolas, para uma redefinição das estratégias colaborativas à volta do livro, das literacias e das aprendizagens. Quem conheceu as Bibliotecas antes dos anos noventa sabe como eram muitas vezes espaços desqualificados e sem capacidade para uma função integradora na escola.
Com a RBE nasceu uma ideia de partilha de competências e abordagens em rede e desenvolveu-se um conceito de Biblioteca como um espaço de afetos, onde todos cabem e onde os recursos permitem alimentar formas múltiplas de imaginação. Por esta ideia de Biblioteca criada pela RBE e alimentada por tantos passa essa formulação essencial de com a Escola formar pessoas mais informadas, o que significa pessoas mais livres. Deixamos em baixo a mensagem da atual coordenadora nacional da Rede de Bibliotecas Escolares , Manuela Pargana Silva).

Em 1996 foi lançada a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE). Vinte anos depois, 2016 é o ano que dedicamos a celebrar o percurso feito, mas também, e sobretudo, a refletir, a pensar em como podemos responder às exigências dos tempos que vivemos.  Tempos de grande aceleração, de crise de valores, de alterações profundas nos modos de perceber e de pensar. Como garantir que seremos abertos, flexíveis, adaptáveis e exigentes para garantir ao nosso público uma formação que lhes permita viver num mundo que ainda
não sabemos como será?

Tudo vai depender de como formos capazes de perspetivar o futuro.
Com o trabalho, o esforço e a inteligência de todos - professores bibliotecários, coordenadores interconcelhios, colaboradores do Gabinete RBE - chegámos até aqui com resultados de que nos podemos orgulhar.

Ao nosso lado temos parceiros próximos e valiosos que enriquecem o nosso programa, ao mesmo tempo que usufruem desta rede com créditos firmados.
Trabalhamos com professores, auxiliares, técnicos, mediadores de leitura, escritores e ilustradores, sempre concentrados no nosso público preferencial, os alunos, com quem também tanto temos aprendido.

A nossa forma de estar e de trabalhar é juntos e em rede e é assim que garantiremos que o que construímos nestes vinte anos não se torne passado ou ultrapassado. Conto com a energia de todos para concretizar o lema desta celebração: 20 anos RBE - uma história com futuro.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Amadeo - desenhar uma personalidade fascinante (III)

Não perguntem agora como lhe foi a vida, com que espécie de filamentos se manufacturou a tessitura da biografia a escrever. Quando a passagem é tão curta como esta, não será que tudo se reduz a um dia único, lavado e sem heroísmo assinalável, nele se degustando apenas o tegumento que não adormeceu? 

De Amadeo, como de outros, poderemos dizer que oscilou do apetite à renúncia. Nem lume nem gelo o tiranizaram alguma vez, porque incólumes de intempéries ficam os homens missionários. A sua deslocação por aqui, recorta um triunfo renascentista, desses em em que um carro possante e de rodas lavradas avança esmigalhando tudo em seu curso, a mancha festejada pelas esvoaçantes nereides que nele seguem.

A história pessoal que realiza, as pegadas que deixa no solo, até pelo anonimato a que por vezes parece remeter-se, consagram uma determinação que, nas cartas que ficaram, quase se diria da última vontade: "É preciso fazer todo o esforço pela ação artística", repetirá. De há muito que estou pronto e acho que é necessário desenvolver mais ação dirá ainda. "Cuido daquilo que aprendi e herdei", resumirá por fim.

Mário Cláudio. (2016). "Amadeo", in Triologia da Mão. Lisboa: D. Quixote, página 107.
Imagem -Copyright: Amadeo de Souza-Cardoso- Pintura (Paisagem)
Óleo s/tela: 50 x 73cm, c.1910
Doação de D. Lúcia de Souza-Cardoso
Museu Municipal Museu de Souza-Cardoso, Amarante

Semana das Artes (X) - Poema Gráfico

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
 Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
 Maieável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

Álvaro de Campos, "Ao Volante", in Poemas
Poesia gráfica de David Pereira, Oficina Multimédia, 12º A1


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Dia Internacional dos Museus


Amadeo - desenhar uma personalidade fascinante (II)

Na trama da relação que constituem a história, que o espírito dos seres homologa ou veta mas que jamais se livra em sua solidão sem paz, somos nós que nos buscamos ou é o encontro objectivo que se dá? De que adejar de antenas ou tremor de cílios se faz o fadário de cada um? 

Onde topámos com alguns dos que nos acompanham agora a peregrinação? Onde os reacharemos, quando se afastam cansados da partida? Essas naves sobrecarregadas de destinos diversos, agrupados em contingentes afins, que é no que consistem os bairros de Paris nos princípios do século, ora encalham nos bancos da morte ora zarpam rumo a um futuro de alguma eternidade. 

Poucas vezes se perderá Amadeo pelas conversas de rua. (...) A ganância da fama não lhe anulará a reflexão e, quando profetiza que haverão de disputar-lhe os trabalhos a preço de oiro, não o faz pela cegueira da ambição defraudada. É muito menos um vaticínio que o resultado de uma equação para que já dispunha dos termos necessários e suficientes. Pressente-se-lhe nas cartas um pensamento que preexiste a ação, o que é muito raro nos artistas. Na pintura, também, será a mesma natureza.

Digere quanto vê, rabisca ao canto do calendário ilações e memoranda, predispõe-se à aprendizagem sem mestres ungidos, vertiginosa ginástica de se ser e se perder. Não são assim os inspirados, arrebatados por uma águia que nem os arrasa nem os salva. Assim são, porém, os desbravadores de continentes, alguns atletas sem ideologia política. muitos artesãos que gravaram siglas na cantaria das catedrais. Ele não perpassa, fica. E na determinação de ficar palpita uma preocupação de burguês abastado, que ordena, a cinquenta anos de vista, a plantação de um carvalhal ou a vedação de uma jeira, para quando  for aberta a auto-estrada.

Ainda nisso radicará a monomania da poupança, sintetizada nos pincéis cuidadosamente perfilados em seu canjirão de Bisalhães, na mina de lápis que se aguça nem mais nem menos que o preciso, nos restos virgens de Whatman que para as contas se aproveitam ou para o rascunho de um bilhete.              
        
Mário Cláudio. (2016). "Amadeo", in Triologia da Mão. Lisboa: D. Quixote, págs. 48 - 50.
Imagens: Copyright - Biblioteca de arte - Fundação Calouste Gulbenkian

Semana das Artes (IX) - Poemas Gráficos


O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada — 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço... 


Álvaro de Campos, "O que há em mim é sobretudo cansaço", in Poemas.
Poesia gráfica de Marta Barata, Oficina Multimédia, 12º A1

Semana das Artes (VIII) - Poemas Gráficos

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!
Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra... 
Álvaro de Campos, "A minha alma partiu-se", in Poemas
Poesia gráfica de Carmo Matos, Oficina Multimédia, 12º A1