segunda-feira, 30 de maio de 2016

Encontro com José Luís Peixoto


Encontro com o Drº António Gentil Martins

O Drº António Gentil Martins esteve na escola a falar com alunos do 9º 3ª sobre a sua experiência de vida como homem e como profissional ligado à medicina. Fez uma breve apresentação sobre o seu percurso escolar, os estudos realizados no país e no estrangeiro e o modo como fez as suas escolhas até construir a sua carreira de médico. 

Foram discutidos pontos tão interessantes como O Serviço nacional da saúde, a relação dos laboratórios com a investigação a novas soluções ou questões mais delicadas como a eutanásia. Foram colocadas algumas questões sobre os principais factores que influenciam uma vida saudável e a responsabilidade individual de cada um para construir um futuro mais feliz e mais conseguido do ponto de vista profissional. 

Foi um encontro sobre a experiência de uma vida de alguém de grande valor no campo da medicina e que deixou sugestões muito pertinentes sobre o valor do estudo, da curiosidade e do trabalho como elementos essenciais a qualquer sucesso profissional.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Amadeo - desenhar uma personalidade fascinante (V)

A morte leva-o em três dias. Um cobertor de trevas vem sufocar-lhe a fímbria das pestanas caídas, o peito regougando num tablado a rebentar. Na linha dos cabelos, uma coroa de água de contínuo lhe encharca a testa. Vibra de súbito uma laranja, um cobalto, aos nervos transmitindo o choque da febre. No horizonte os castelos se acomodam, em sua frescura de florestas imensas. Andam, sente o homem, pelas pranchas de câmara, em seu rosto despejando um olhar abismado.

Porque morre? Ele lançara, no período de trinta anos e onze meses e treze dias, a órbita completa da longa experiência. Explorar as vias que rasgara, numa disciplina fatal de burocrata, seria contradizer-se, homem que só inverno discernia os alicerces da natureza.  Também no amor, aquele olhar que jamais se aplacara na focagem de um objeto único, se alongava agora por promessas de perigo a que se julgava incapaz de resistir. Daí que o recebimento que concede à morte assuma o carácter de finitude, que assiste sempre a liquidação das contas de um ser com ele mesmo. (...)

E Amadeo, na incessante vertigem da produção, apenas se teria por predestinado enquanto libérrima criatura, cara a cara com o destino. Nesse vinte e sete de outubro de 1918, a vida que findara começava, como todas as que se extinguem, no reaver do palpitar definitivo de suas cores. Quanto às alamedas de Espinho, que no crepúsculo dos finais da estranhíssima guerra se tomavam despovoadas e varridas de areias, igualmente saberiam elas que a sua hora soara.

Mário Cláudio. (2016). "Amadeo", in Triologia da Mão. Lisboa: D. Quixote, página 106.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Amadeo - desenhar uma personalidade fascinante (IV)


Administrador do talento próprio, se nos arriscássemos a falar de tal essência a propósito de quem progressivamente escravizou meios de expressão e aparelhagens de domínio, jamais Amadeo se olvidará de si. Pessoas de tal nervo, só porque não podem dar-se ao luxo da ausência de si próprias, se não ausentam dos outros. 

Temos visto desses irmãos que erigiram o currículo à custa da obsidiante preocupação consigo mesmos, reflectida, como numa ilusão de espelhos, na solicitude para com o próximo e até para com os objectos. Assim foi Amadeo, assim o sofreram alguns que, agastados pela sua presença, incontinentemente o votaram à danação de que, afinal,investidor vocacionado que sempre entendeu de conveniências, viria a retirar os melhores dividendos. 

Ninguém, daqui para diante, o insultará de louco, reconhecendo-lhe todavia a malevolência capaz de converter um morno serão numa tarde de Carnaval. Só que a desordem do espírito é de muito mais que necessita, da aptidão para visionar e não só para resolver, da anulação absoluta de ser arte a ideia que o transponha. Se Amadeo atingisse qualquer forma de náusea, o que é duvidoso, alguma vez acontecesse, seria daqui que viria a crescer, desta sabença de que a rotação dos ponteiros é só para si impossível carreto de levar aos ombros.

Com a quotidianidade forçada às fronteiras que convencionara, experimentaria a agonia irritada dos que assistem à festa por detrás de um esconso guarda-vento, dos que vitoriam as  núpcias dos outros com a sabedoria acumulada e insubmissa de jamais nelas poderem participar. Imputar-lheao alguns a inacessibilidade, outros o mau gosto, não sendo de excluir os que, desentendidos de sinuosidades estéticas, apenas suspeitarão a rendibilidade do charlatanismo ou o modismo da mediocridade. 

Permanecerá Amadeo aquém e além deles, nesse ubíqua condição em que se reverenciam os que foram e ficaram? Só os deuses, para quem a morte é jovem, pairam eternamente em regiões assim, o que será talvez conclusivo sinal da genialidade do servo que convocaram.

Mário Cláudio. (2016). "Amadeo", in Triologia da Mão. Lisboa: D. Quixote, página 107 e 108.
Imagem -Copyright: Amadeo de Souza-Cardoso- O muro na jenela
Óleo s/ tela, 28 x 21cm
c. 1916

Colecção Particular
Museu Municipal Museu de Souza-Cardoso, Amarante

Bioética - os seus campos de decisão


A civilização moderna encontra-se numa posição difícil, porque embora edificada para nós, não está ajustada à nossa medida. A nossa ideia de homem ainda não encontrou o seu lugar estranho e complexo, ela oscila entre a visão filosófica, que o erige no único sujeito num mundo de objetos, e a visão científica que tende a ignorar o espírito humano. Ainda não ajustámos a nossa visão do Homem ao Homem e do mundo ao mundo.

Recordamos aqui a célebre alegoria da caverna. As sombras projetadas no fundo da caverna são o mundo natural, aquele que percecionamos. Esses prisioneiros agrilhoados no seu lugar e aos quais uma gargantilha impede de voltar a cabeça “é connosco que se assemelham”. A fascinação que o jogo irrisório das silhuetas imprecisas exerce sobre esses infelizes revela o nosso estado, sentimo-nos perdidos: o meio elaborado pelo Homem não se ajusta à nossa estatura, nem à nossa natureza. Assim poder-nos-emos questionar se o Prometeu revestido pelo poder, desagrilhoado, na opinião de alguns, ou seja com o poder de intervir, de praticar o possível e mesmo o impossível, não o vai voltar a agrilhoar, se ele não olhar ao conveniente.

Vivemos num presente esmagado pelo peso do futuro. A nossa relação com o tempo é, antes do mais, uma relação extremamente dura e violenta com o futuro. Fala-se do futuro mas, paradoxalmente, nunca fomos tão responsabilizados pelo futuro que devemos deixar às gerações seguintes. Deveríamos, portanto, mudar radicalmente de atitude e romper com todo o tipo de utopismo. Quer o aceitemos ou não, estamos investidos de uma responsabilidade desconhecida, a de deixarmos às gerações futuras uma terra habitável e um mundo sustentável. Sem isto, os nossos descendentes não serão capazes de progredir, nem exercer as suas responsabilidades.

Necessitamos de uma reabilitação do ethos, dos valores morais que fundamentam as atitudes humanas; precisamos da ética, de teorias filosóficas sobre os valores e normas que devem nortear as nossas decisões e comportamentos. A atual crise deve ser entendida como uma oportunidade; importa encontrar uma resposta para os desafios do presente. Se o futuro não está escrito, é múltiplo. Assim todas as possibilidades, mesmo o impossível, são imagináveis. A questão da escolha é portanto essencial.

A Bioética, ética aplicada às ciências da vida, surge na interseção de uma crise de valores e de normas coletivas com o desenvolvimento do individualismo das pessoas e do pluralismo das sociedades. Estimula o debate público sobre as escolhas para o nosso futuro, promovendo uma alteração de consciência, incentivando a participação informada e responsável dos cidadãos. Como ciência transdisciplinar, começa a ser reconhecida como a componente indispensável da formação do cidadão empenhado na vida coletiva, tornando-se numa ética do cidadão, numa ética cívica, enquanto reflexão sobre a ação que se desencadeia, desenrola e se repercute na comunidade global. Tal como defende Victoria Camps (1998), a participação cívica deve ser encarada como a estrutura moral da democracia, onde a ética contribui de um modo determinante para a formação de uma consciência de deveres inerente à formação de direitos, o que faz com que funcione como um elemento de ponderação na educação para a cidadania.

É justamente pela sua especificidade que a Bioética, quando considerada sob o ponto de vista da educação para a deliberação, constitui uma oportunidade excecional para o desenvolvimento de competências reflexivas, críticas, de base plural e democrática. Ao mesmo tempo, permite desenvolver a consciência da responsabilidade e da necessidade da deliberação para a decisão, reconhecendo a posição do outro sem (pré)-conceitos, pressuposto indispensável para um qualquer debate ético.

Ana Sofia Carvalho, "A Bioética e a responsabilidade de deliberar para decidir", Observatório da Cultura, nº 21, in http://www.snpcultura.org/