sexta-feira, 1 de julho de 2016

A dança das Palavras (III)

Despedida

O orvalho brilhante da manhã
Transformou-se em vidro seco e frio.
O ar congelou, sabe agora a solidão.
Já não se sente a alegria
Nem o toque da tua mão.

Já não se sentem os pés
E as estrelas do céu já sumiram.
Os meus olhos tu já não vês...
As minhas palavras há muito partiram.


Beatriz Carolina Ferreira Sanches (2016), 9º ano, Colégio Via Sacra, Viseu.
Imagem - Copyright : m-ban

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A dança das Palavras (II)

Viajante

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
Só esta incerteza com que enfrenta o caminho.
Ninguém sabe que alma encerra
Este viajante, que caminha sozinho
Pela estrada, no nevoeiro.

Anda sem rumo de terra em terra
E canta à noite, num tom baixinho.
Nem ele sabe que sonhos tem,
Nem o o que é mal, nem o que é bem,
Nem o que alcançará primeiro.

E pede às estrelas que o ajudem
A ser inteiro.

Ana Cristina Pereira. (2010). 12º ano, Escola Secundária Stuart Carvalhais
Imagem: Copyright - Tomoe Komukai

PINA – O sentido do movimento

Dos dias em que a maior forma de aprendizagem foram esses movimentos integrados em espaços contraditórios, para se achar um lugar no mundo. Foi com o corpo que na vida experimentámos uma pintura de espanto por toda a forma de respiração. Só o encantamento constrói o sonho e ele expressava-se de modo sublime pela graça. Nessas décadas de páginas em branco e palcos claros o corpo deu-nos mais que as palavras, pois sintetizavam uma coreografia perfeita, a da intimidade do que vivíamos. O corpo foi a sua graça, a sua sabedoria.

É preciso muita sabedoria, para encantar o corpo e fazê-lo na alegria espontânea do sorriso. É preciso muito encontro de voz, para formular formas vivas de desencanto, ainda como uma sabedoria do corpo, a identidade da alma viva. Foram dias encantados pelo corpo, pela dança, por uma forma de dança-teatro que ela trazia em sonhos de precariedade e suprema alegria. O corpo sempre foi a forma mais plena de eternidade. Os poetas sabem-no e por isso são óraculos do quase dito em flores de esquecimento.

Essa forma perpétua de nos olharmos de frente para os olhos, em construções do efémero, do possível feito de abraços eternos de flores, esses que permitem sintetizar o mundo e envolvê-los em passos largos e justos. Dança sobre o amor, os mitos Orfeu e Eurídice, Café Muller, A sagração da Primavera, Vollmond ou Lillies of the Valley, ou como nós experimentámos esses mitos em danças de carne e sangue. O teatro e a vida, o amor e a liberdade, a força e a piedade, a alegria e o desespero, o encontro e a beleza. E dela vimos e aprendemos o valor imaterial do movimento, as diferentes tonalidades de uma luz única, a que nos conjugava com os dançarinos do Thanztheater Wuppertal.
Chama-se Pina Bausch, deixou de nos encantar há alguns dias de saudade e disse-nos o que filosofias inteiras desconhecem, o mundo cria-se com os outros, com o corpo

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Os sonhos mais delicados - à memória de Saint-Exupéry

Olhamos para as suas palavras e parecem-nos oráculos de sabedoria. Verificamos a sua vida e encontramos os gestos permanentes da coragem. Medimos a sua respiração e é sempre um sonho feito de consciência. Medimos a sua respiração feita de solidariedade e empenho e encontramo-nos perante as mais evidente formas de beleza. Verificamos em cada um dos seus vôos uma queda vertical contra a tirania, essa forma absurda de existir contra os outros. Bebemos nas suas palavras linhas permanentes de consciência. Uma insistente forma pela viagem, a vinculação pela aventura, a geografia do poema em cada forma de possíveis, esses laços essenciais de que a raposa também conhecia. 
Ele foi o principezinho, um continente de procura e descoberta de planetas infindáveis de sonhos, mesmo aqueles que são habitados por pequenos homens, repositórios de doenças do espírito, a visão de uma cidade sem moral, sem a inteligência dos gestos do amor mais terno. Foi, é uma figura universal e aquilo que dele vimos é que foi quase um milagre que um homem destes por aqui tenha andado, de mãos dadas com a fantasia, a única forma de ver em dias de espuma sem espanto. Nasceu há um pouco mais de cem anos em Lyon, há justamente cento e quinze e foi um escritor, um ilustrador e deu a vida pelo combate por essa doença maior do espírito, o nazismo. 
Estudou mecânica, entre 1909 e 1914 no colégio de Notre-Dame, em Mans. A partir de 1914 muda-se para a Suiça, para a cidade de Friburgo. A partir de 921 integra 0 2º Regimento de Aviação de Estraburgo. Em 1926 começa a sua carreira na aviação civil fazendo a carreira entre Toulouse, Casablanca e Dacar. Tornou-se um piloto com grande experiência no deserto, do qual diria “este silêncio não é igual a nenhum silêncio.” Morreu sobre a costa de Marselha durante a 2ª guerra mundial. Deixou uma obra de grande valor humanista, ele que era maior que o Humanismo e onde encontramos os temas que lhe ocuparam a vida. Escreveu para diferentes jornais, onde reflectiu sobre esse desastre humanitário que foi a Guerra civil de Espanha, ou a ocupação alemã da França. Da sua obra destaca-se evidentemente O Principezinho, datado de 1943, que foi escrito durante o seu exílio nos Estados Unidos. Outras obras merecem referência, as publicadas em vida e as póstumas:
Em vida:
O aviador – 1926
Correio do Sul – 1929
Vôo Noturno – 1931
Terra dos Homens – 1939
Piloto de Guerra – 1942
O Principezinho – 1943
Carta a um refém – 1943/1944
Póstumas:
Cidadela – 1948
Cartas de juventude – 1953
Cadernos – 1953
Cartas à sua mãe – 1955
Escritos de guerra – 1982
Este homem extraordinário é uma memória viva do século XX e a demonstração de como somos sempre qualquer coisa que vive dos muitos que por nós passam. O questionamento que deixou no Principezinho e a releitura que nos propõe dos nossos julgamentos, das nossas precárias formas de sucesso são uma pérola de sabedoria. A criança que fomos, um ideal para olhar o mundo com  ternura antiga e esse valor de humanidade, essa constância de eternidade que cada vida pode ser. Chama-se Antoine de Saint-Exupéry e continua por aqui, para os que ainda saibam olhar o real e as cores universais da beleza.

As cidades do espírito

Pois eu tenho visto muitas vezes a piedade se perder. Mas nós que governamos os homens, temos que aprender a sondar com seus corações afim de não ministrarmos nossa solicitude senão como objecto digno de estima. Mas essa piedade, eu a recuso nas feridas que se exibem que comovem o coração das mulheres, como recuso aos agonizantes, e aos mortos. E sei porquê. (…) 
Morada dos homens, quem te fundaria sobre o raciocínio? Quem seria capaz, segundo a lógica, de te edificar? Existes e não existes. És e não és. És feita de materiais díspares, mas é preciso te inventar para te descobrir. De mesmo modo que aquele que destruiu a sua casa com a pretensão de conhecê-la, não consegue mais que um monte de pedras, tijolos e telhas, não encontra nem sombra nem silêncio nem intimidade para o que elas serviam, e nem sabe que serviço esperar desse monte de tijolos, pedras e telhas, pois falta-lhe invenção que os domine, a alma e o coração do arquiteto. Pois falta à pedra a alma e o coração do homem. (…)
Assim sobre a virtude. Meus generais, em sólida estupidez, vieram falar comigo sobre a virtude: ‘Vocês aí, disseram-me, que os costumes se corrompem. E é porque o império se decompõe. É preciso endurecer as leis e inventar sanções mais cruéis. E cortar as cabeças daqueles que fracassarem.’ 
Eu, pensava, comigo:
‘Talvez seja preciso cortar cabeças. Mas a virtude é, de início, consequência. A corrupção dos homens é antes de tudo a corrupção do império que determina os homens. Pois se estivesse ele vivo e são, ele exaltaria a nobreza dos homens.  
Aquele que vem até mim com sua linguagem para apreender e exprimir o homem na lógica de sua exposição, parece-me semelhante à criança que se instala ao pé do Atlas com seu balde e uma pá, e formula o projeto de pegar a montanha e a transportar para outro lugar. O homem é o que é, não o que se exprime. Certamente que o objetivo de toda consciência é se exprimir o que é, mas a expressão é obra difícil, lenta e tortuosa, – e o erro está em crer que não é isso que não pode primeiramente enunciar. Pois enunciar e conceber têm o mesmo sentido. Mas é frágil a parte do homem, naquilo que eu até hoje aprendi a conceber. Mas, isso que eu concebi um dia não existia menos no dia anterior, e eu me engano se eu imagino que isso que eu não pude exprimir do homem não é digno de ser considerado.

Pois assim eu não exprimo a montanha, mas a significo [dou significado a ela]. Mas eu confundo significar e apreender. Eu significo a quem já conheça, mas aquele que a ignora, como saberei lhe transmitir esta montanha com suas ravinas de pedras rolantes e seus flancos de odores e seu topo escarpado rumo às estrelas? E eu sei quando esta não é uma fortaleza arrasada ou um barco sem direção do qual se solta a corda do anel de ferro para deslocar para onde quiser – mas existência maravilhosa com as leis de sua gravitação interna e seus silêncios mais majestosos que o silêncio da maquinaria das estrelas.
Fragments (I), (III) e (XVI) e (XXX)

A dança das Palavras (I)

O fio
Lado  a lado iam juntos,
ao calor e ao frio,
de manhã e de noite,
sem que alguém se aproximasse,
iam juntos, separados por um fio.
Pensaram em abraçar-se,
tão forte era o frio,
mas apenas caminharam,
lado a lado, juntos,
separados por um fio.

Guilherme António Fonseca. (2012). 8º ano, Escola Secundária Braancamp Freire.
Imagem - Copyright: Painting

terça-feira, 21 de junho de 2016

Nas linhas do caminho

"- Os pássaros - assegurou-lhe - voam por convicção". (1)

Caminhamos, respiramos, viajamos entre espaços pelo pelo que somos, pelos mecanismos biológicos ou pelo espírito que nos anima? Somos pessoas porque voamos entre linhas desenhadas na imaginação, caminhamos fisicamente pelo que nos é dado ou é a convicção que nos alimenta o caminho?

No contínuo caminhar que fazemos reside o nosso empenho na forma como o fazemos, nas opções que colocamos no caminho, nos instrumentos que concebemos para o sonho. Ficamo-nos na crença cega do modo como andamos, ou estimamos as possibilidades de chegar ao crepúsculo da tarde?

Na viagem que construímos é o rio que corre em nós, que nos alimenta a definição do caminho, nos faz criar os instrumentos capazes de superar os limites físicos, operacionais do corpo, para conquistar esses momentos de superação, de uma epifania de vontade e determinação. Na errância com que nos vemos, são essas cores com que pintamos o real que embelezam a respiração das auroras amanhecidas na alegria da viagem, como elemento essencial do sonho vivido.

(1) - Jose´Eduardo Agualusa, "O quarto anjo", in A Educação Sentimantal dos Pássaros).