terça-feira, 8 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - A cidade e as serras (I)

Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada colina - a sublime edificação dos Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do pó final. O que será então aos olhos de DEus?
E ante estes clamores, lançados com afável malícia para espicaçar o meu Príncipe, ele murmurou, pensativo: - sim, é talvez uma ilusão... E a Cidade a maior ilusão!

Tão facilmente vitorioso redobrei de facúndia. Certamente, meu Príncipe, uma ilusão! E a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda - esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão? Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, aturar, rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... 

A sua tranquilidade onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar - e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se desumanizam!

Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. (...)

Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas - ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha q multidão como um mostrengo numa feira. (...)

- Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão perversa!
Insisti logo, com abundância, puxando os punhos, saboreando o meu fácil filosofar. e se ao menos esta ilusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a mantêm... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem. (...) Mas quê, meu Jacinto! A tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá,nesta amarga desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a justa ração do caldo - não poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa porção de foie gras e túbaras que são o orgulho da Civilização.

Eça de Queiroz. (2009). A cidade e as Serras. Porto: Porto Editora, páginas 83 e 84.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lisbon & Estoril Film Festival (IV)

Destaque: Dia 7 (alguns dos filmes de Jean-Luc Godard)
Le Pont des Soupirs (Episódio de pontes de Sarajevo)
Ficha técnica:
Realizador: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard 
Eleno: Fabrice Aragno, Jean-Paul Battagia, Paul Grivas
Participação de Jean-Luc Godard num projeto de cinema que procurava compreender  o contributo artístico da cidade de Sarajevo durante o último século. Questão que se relaciona com a cultura e com a história europeia pela proximidade de civilizações e por aquilo que foi o cerco  à cidade, no mais grave conflito do século XX na Europa, após 1945.

Allemagne 90 Neuf Zéro / Solitudes, Un État et ses Variations
Ficha técnica:
Realizador: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard 
Fotografia: Cristophe Pollock, Andreas Erben, Stepan Benda
Produtora: Antenne 2 e Brainstorm Productions
Filme sobre a Alemanha, onde uma figura, Lemmy Caution, agente americano de serviço na Alemanha de Leste se defronta com a evolução da História. A  queda do Muro de Berlim coloca um fim na sua missão. O seu regresso a esse espaço fá-lo conhecer o passado e um conjunto de fantasmas que permanecem. Conduzido por uma preocupação para desconstruir as imagens ligadas à História, o filme coloca em discussão de um modo filosófico o bem, o mal, o feio nas sociedades, num período em que uma grande esperança se concretizou, tendo ela própria imensas contradições na vida quotidiana das pessoas. 

O soldado das sombras
Ficha técnica:
Realizador: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard 
Fotografia: Raoul Coutard 
Elenco: Michel Subor, Anna Karina, Henry-Jacques Huet,Jean-Luc Godard, Gilbert Edard, ...
Produtora: Société Nouvelle de Cinéma

Excerto (um diálogo; Um filme de 1960, entre o amor e a luta por ideais que marcaram uma geração, ainda que muitas vezes eram pequenas ilusões de algo por compreender).
«Há algo mais importante do que se ter um ideal. Mas o quê? É algo mais importante do que não se ser vencido. Queria saber o quê, exactamente. “Patético.” Quando andava no liceu, era uma palavra que eu admirava. Hoje, desprezo-a. “Taciturno.” Eis uma palavra belíssima, como Guillaume. Fico perdido se não fingir estar perdido. Acho que toda a gente tem um ideal. Portanto, há algo de mais importante que ninguém tem. Tenho a certeza de que Deus, por exemplo, não tem um ideal. Há uma frase lindíssima. De quem é? Creio que é do Lénine. “A ética é a estética do futuro.” Acho que é uma frase muito bela e também muito comovente. Reconcilia a Direita e a Esquerda. Em que pensam as pessoas da Direita e da esquerda? Hoje, por que se faz a revolução? Quando os reaccionários estão no poder, aplicam a política de Esquerda. E vice-versa. Eu ganho e perco, mas luto sozinho. Por volta de 1930, os jovens tinham a revolução. Malraux, Drieu la Rochelle, Aragon.

Nós já não temos nada. Eles tinham a guerra de Espanha. Nós nem temos uma guerra nossa. Além de nós mesmos, do nosso rosto e da nossa voz, não temos nada. Talvez o importante seja conseguir reconhecer o som da sua própria voz e a forma do seu rosto. Por dentro, ele é assim… E, quando o vejo, ele é assim. Ou seja, olham para mim e não sabem o que penso. E jamais saberão! Agora, uma floresta na Alemanha, um passeio de bicicleta… Acabou-se. Agora… uma esplanada em Barcelona. Agora… já acabou. Tento delimitar o meu próprio pensamento. E a palavra? De onde vem a palavra? Talvez as pessoas falem sem cessar, como os prospectores de ouro… para encontrarem a verdade. Em vez de revolverem o leito do rio, revolvem o leito do seu pensamento. Eliminam todas as palavas que não têm valor. E acabam por encontrar uma, sozinha. Ora uma única palavra sozinha… já é silêncio.Porque me ama?
– Não sei. Porque sou tonta

Lisbon & Estoril Film Festival (III)

Destaque - ao longo do festival: Jean-Luc Godard

Jean-Luc Godard é indiscutivelmente o cineasta vivo cujo pensamento e obra fílmica mais influências exerceram (e mais análise teórica e crítica suscitaram, sendo que o seu efeito incalculável se prolonga) sobre o cinema moderno e outros domínios artísticos.

Com um percurso feito em vários andamentos – dos princípios defendidos nos tempos de crítico nos Cahiers du Cinéma, passados ao acto na estética da Nouvelle Vague, de que foi figura de proa (com o seminal À Bout de Souffle a abrir um conjunto de títulos igualmente marcantes, como Viver a sua Vida, O Desprezo, Pedro, o Louco, Made in U.S.A. ou o cáustico Week-End, onde se declara o fim do próprio cinema), aos experimentais filmes-ensaio recentes (Filme Socialismo e Adeus à Linguagem), passando pelo período mais radical (o do Grupo Dziga Vertov), estética e politicamente – Godard ergueu um corpo de trabalho imenso e desafiador.

A sua obra, profundamente reflexiva, plena de citações, referências ou alusões de várias origens (cinematográficas, literárias, musicais, filosóficas, científicas, de teoria política), capaz de fundir ‘alta’ e ‘baixa’ cultura, trabalhando de forma inovadora as imagens de arquivo, o vídeo (toda a produção da SonImage, a companhia que fundou com Anne-Marie Miéville em 1972 é um pequeno mundo a descobrir) e o 3D, interpela a História (e a história do cinema, com um clímax no monumental História(s) do Cinema), os traumas do nosso tempo e a linguagem (e os seus limites) com que (não) comunicamos, sempre com uma assinatura absolutamente inconfundível.


É a este autor incontornável que o Lisbon & Estoril Film Festival presta homenagem na décima edição, com a retrospectiva integral da sua obra e um Simpósio Internacional, Godard vu par....

(do programa do festival)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - Curso intensivo de jardinagem (IIA)

Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós.


Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua agora,
encontraram a porta certa.


Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.


Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como as mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.


Escreve em vez de costurares.
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura os joelhos,
os cotovelos e as canelas
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.


Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.


Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.


Margarida Ferra. (2012). "Escreve sempre que precisares", in Sorte de Principiante. Etc.

A palavra e o mundo - Curso intensivo de jardinagem (II)

"Não podemos escrever sem a força do corpo." (Marguerite Duras)

 Margarida Ferra publicou há já alguns anos um livro de poesia, Curso intensivo de jardinagem que nos introduz numa temática que é a chave temática escolhida este ano, a palavra e o mundo e neste caso, como em outros, a viagem pela cidade. Nesta primeira abordagem à cidade a poesia de Margarida Ferra revela-nos como o quotidiano, os objetos são formas de criação de imagens, de referência na memória.

O livro divide-se em quatro partes e há nele uma constância. A ideia de que o corpo é uma forma de conhecimento. Nosso e do que nos rodeia. E igualmente a ligação entre a jardinagem e o acto de escrever poesia. Ainda com esta ligação em mente deparamos com a tentativa de uma prática, de uma aprendizagem feita de energia, de brevidade pela observação, de rapidez na descrição e de utilização de recursos estilísticos mínimos. A poesia que encontramos explora locais, espaços, vivências, desencontros. Ela apresenta-se como uma exploração de procura que aposta na simplicidade do que encontra.

A epígrafe de entrada do livro de Marguerite Duras envolve-nos nessa observação que carece de uma energia. A que importa para as plantas e também para os versos, pois a beleza que se quer redescobrir e ver no quotidiano exige um esforço, uma atenção. Curso intensivo de jardinagem é um livro de poesia sobre o essencial, sobre o que vemos, sobre o que escolhemos ver. Acrescenta de uma forma muito luminosa imagens fotográficas dessa exploração do quotidiano.

 O sentido do corpo para a construção da poesia é verificável pela utilização da visão, ou do olfacto, ou ainda pelo som, ou pelo paladar. Existem muitos versos a confirmar esta forma de exploração do quotidiano. É na primeira parte do livro que este tipo de registo mais se apresenta. O quotidiano e os seus diversos gestos. Na segunda parte é a casa que é o centro do olhar da poesia. Lugar de acolhimento, mas também de desconforto. Há no entanto a procura de uma ligação entre os espaços numa observação dominada pela sensibilidade.

Nas últimas duas partes do livro os poemas caracterizam-se por serem breves. Ainda encontramos o corpo que percorre os espaços, que explora e observa em pequenas observações e nos dá ainda com um sentido de grande sensibilidade a sua transformação na poesia, na palavra, na capacidade de criar um corpo de memória. 
 
Imagem: Copyright - 半夏生の朝に - あたりまえの暮らしを護っていかれるのだろうか。

Lisbon & Estoril Film Festival (II)

Destaque: Dia 4

O herói de Hacksaw Ridge
Ficha técnica:
Realizador: Mel Gibson
Argumento: Robert Schenkkan, Randall Wallace, Andrew Knight 
Fotografia: Simon Duggan 
Produtora: Hacksaw Ridge Production, Argent Pictures, Cross Creek Pictures, ...

O herói de Hacksaw Ridge reconstitui uma extarordinária história verídica de Desmond Doss que, em Okinawa, numa das batlahas mais difíceis da 2ª Guerra Mundial, salvou 75 homens sem disparar ou transportar uma arma. Foi o único soldado norte-americano a lutar na frente de combate sem arma, pois acreditava na justiça da guerra mas condenava o homicídio. Teve um papel humanitário extraordinário como médico na guerra, pois evacuou sozinho os feridos por detrás das linhas inimigas. Enfrentou essa difícil situação de guerra, ao mesmo tempo que cuidava dos soldados. Acabou por ser atingido e foi o primeiro objector de consciência agraciado com a Medalha de Honra do Congresso dos Estados Unidos da América.

Lisbon & Estoril Film Festival (I)

De 4 a 13 novembro, decorre um importante evento cultural no país, justamente a 10º edição do  Lisbon & Estoril Film Festival. Este evento que decorre em Lisboa e no Estoril durante a primeira quinzena de novembro irá apresentar uma mostra atualizada do que se produz na Sétima Arte, como também noutras áreas culturais, nomeadamente literatura, música e artes plásticas. É um evento muito relevante para a partir de criações culturais suscitar a discussão de assuntos muito pertinentes do mundo atual. Daremos algum destaque a alguns dos eventos, pois são recursos de discussão e informação de grande significado.