quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - O livro de Cesário Verde (IIA)

"José Joaquim Cesário Verde nasceu a 25 de fevereiro de 1855, num terceiro andar da Rua dos Fanqueiros, em Lisboa. Apesar da relativa estabilidade em que se vivia na altura, as chuvas anormais de primavera tinham provocado uma crise nos cereais, o que, num país sem caminhos-de-ferro, implicava literalmente a fome. 
Entre 1856 e 1857, devido às pestes – primeiro a de cólera e, depois, a da febre-amarela – Cesário passou uma longa temporada na quinta que a família possuía em Linda-a-Pastora. O pai era um lavrador dos arredores de Lisboa e o único proprietário da firma «J. A. Verde», uma loja de ferragens fundada em 1808.
A família Verde, oriunda de Génova, tinha emigrado para Portugal no século XVIII e pertencia aos sectores das classes médias atraídos pelos ventos revolucionários que vinham da Europa.

Aos dez anos, Cesário fez, com êxito, o exame de instrução primária. Não se limitou a estudar o que lhe ensinavam na escola: lia tudo o que lhe ia parar às mãos. Em casa, ouvira falar de autores – Montesquieu, Balzac, Dickens, Byron, Baudelaire, Zola – que o deliciaram. O pai notou desde cedo que o primogénito se interessava pelas artes e deu-lhe uma grande margem de liberdade. Liberal em política, era tolerante em casa. A família era, aliás, singularmente culta.
O desgosto provocado pela morte da irmã, aos dezanove anos, coincidiu com o final da sua adolescência. Pouco depois era envolvido pelo pai nos negócios da família. Tudo indica que apreciava aquela vida regrada, a ponto de ter imaginado novos empreendimentos.

Em 1873, matriculou-se no Curso Superior de Letras, fundado, uns anos antes pelo rei D. Pedro V, mas não o concluiu.
Após um ciclo de poemas dedicado a mulheres gélidas, publica, no verão de 1877, a sua primeira obra-prima, «Num Bairro Moderno», uma deambulação pelo que se supõe ser o bairro da Lapa. Há um certo paralelismo entre os poemas Cesário e um quadro impressionista. Em 1880, a sua melhor poesia ainda estava para vir, mas o que publicara era já muito bom. Mais realista do que Eça, que ostentava frequentemente um olhar moral, pretendia apenas mostrar o que via. A sua melancolia era calma, o seu pensamento, claro, e não acreditava em Deus porque nunca o vira. Para ele, a realidade era apenas aquilo que tinha diante dos olhos.

Embora tido como um poeta da cidade, também falou, e muito, do campo. Na sua geração, foi mesmo o único capaz de se referir às «serras» sem bucolismo.
«O Sentimento dum Ocidental» foi publicado em 1880 numa revista do Porto, Jornal de Viagens, por ocasião dos festejos do tricentenário da morte de Camões. Numa carta enviada a um dos diretores da publicação, Cesário refere que Lisboa, «em relação ao seu glorioso passado, parece um cadáver de cidade.» A forma como a descreve – vista como uma urbe pacata e escura – é curiosa. Lisboa é retratada como se o poeta tivesse tido acesso não a material de escrita, mas a uma câmara de filmar. Na parte II, subimos pela Rua Nova do Almada, até ao Largo das Duas Igrejas, onde, alguns anos antes, Eça colocara o padre Amaro a conversar com o cónego Dias.

Cesário é o autor daquele que é considerado o mais perfeito poema do século XIX, mas a reação do público não foi a que ele esperava e não estava preparado para o silêncio que se seguiu.
Em 1884, apercebeu-se de que estava doente. Nos dois anos seguintes, a sua atividade literária sofreu uma forte redução. Em 1886, foi viver para casa de um amigo da família, situada no Paço do Lumiar, onde morreu a 19 de julho de 1886. Os obituários, os poucos que apareceram na imprensa, foram todos de circunstância.
Cesário não precisou de ser um «poeta maldito» para escrever a poesia mais revolucionária da sua época. Disse o que tinha a dizer sem uma palavra a mais ou a menos. Não foram os temas que fizeram dele um génio, mas a sua imaginação, liberta como estava de todas as convenções".

Maria Filomena Mónica. (2007). Cesário Verde: um génio ignorado. Lx: Alêtheia Editores.


A palavra e o mundo - A cidade e as serras (II)

Manuscrito revisto pelo seu autor em apenas algumas das suas páginas, Eça de Queiroz deu-nos em A cidade e as serras, um livro marcante da literatura contemporânea. Ele revela-nos a universalidade de Eça e desmistifica algumas das ideias feitas sobre o autor de Os Maias.

Formado em Direito, integrando uma carreira diplomática por diferentes países, compreendeu de uma forma profunda o que era substancialmente Portugal. Soube compreender a ondulação que fazia a onda maior, dando-nos páginas de análise dos costumes, dos hábitos e das instituições e de como estas formavam um País adiado de si próprio. Em As cidades e as serras, Eça dá-nos descrições naturalistas de grande significado, revelando-nos ter sido mais do que um crítico de costumes. Aqui revemos uma terra, uma cultura e uma memória em diálogo consigo própria.

A cidade e as serras propõe-nos um diálogo puramente atual que é o do Homem, o sentido que a sua vida poderá ter. Diálogo entre uma sociedade urbana, feita de conforto, onde a civilização se assume como um repositório de inovações técnicas e uma sociedade em comunhão com a Natureza. Diálogo entre a cidade, domínio de uma grandeza técnica, mas afastada do coração do Homem, da sua harmonia, pois é nela que a liberdade moral se perde e um campo que sublima os sentimentos humanos de uma forma genuína.

Era na cidade, que Jacinto no seu palácio de conforto e civilização vivia um mundo que o aborrecia. A cidade parece pois incapaz de conceber a felicidade humana - entre a dependência das modas, a pobreza dos rendimentos do trabalho e os rituais esquecidos. A cidade produtora de uma imensa indiferença, a maçada da vida. Com o campo Jacinto e nós descobrimos a natureza, a serra, uma das suas formas sublimes e nela um outro sentido para a vida - a comunhão com o Universo. A unicidade do Universo em formas múltiplas, leva-nos a compreender o homem, os animais, as plantas e os minerais.

É pois na Natureza que se descobre a diferença, o movimento animado de uma vontade que se expressa em formas de uma beleza rara. A que é feita de contemplação e de um silêncio que absorve a luz leve entre as folhas, onde nenhum pensamento outorga uma imanente felicidade. A cidade e as serras acaba por ser um manifesto naturalista, desenhando com um século de antecedência, "o mal" da cidade encerrada em si e nas ligações à exploração individual. Eça dá-nos já o que será a desumanização das relações sociais que na cidade se evidenciam.

É assim um livro de uma grande beleza, pelas suas descrições do Douro, das relações sociais no Portugal de oitocentos, do enquadramento temporal e pela oferta de uma possibilidade, que a cada dia mais carecemos. A Natureza como forma e expressão de satisfação e de encontro, com o mais importante - a beleza. É nela que desenhamos com harmonia a nossa respiração e a graça que nos envolve. É na Natureza que descobrimos o melhor de nós, as janelas que fazem nascer o sol com todas as possibilidades.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - O livro de Cesário Verde (IA)

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

    E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

    Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

    Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

    Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

Cesário Verde. (2007). O livro de Cesário Verde. Lisboa: Oficina do Livro.
O Sentimento dum Ocidental: I - Avé Maria"
Ilustração: Copyright - Pedro Sousa Pereira

Lisbon & Estoril Film Festival (VI)

Destaques: Dia 9
A Barreira
Ficha técnica:
Realizador: Jerzy Skolimowski
Argumento: Jerzy Skolimowski
Fotografia: Jan Laskowski 
Produtora: Zespol Filmowy “Kamera”
A Barreira é um filme de 1966 e que nos devolve o quotidiano da sociedade comunista na Polónia tentando discutir as aspirações dos jovens e o seu conflito entre sonhos, aspirações e realidade. Misturando fantasia e documentário o filem acaba por ser um bom documento para conhecer o que foram as sociedades comunistas, em concreto num dos seus países mais relevantes,a Polónia. A narrativa inspira-se nas técnicas fílmicas usadas em França, na década de sessenta pela chamada Nova Vaga.


Terre et Cendres
Ficha técnica:
Realizador: Atiq Rahimi
Argumento: Kambuzia Partovi, Atiq Rahimi 
Fotografia: Eric Guichard 
Produtora: Afghanfilm, Les Films du Lendemain, France 3 Cinéma
Terre et Cendres é um filme de 2004 rodado rodado na França e no Afeganistão e que nos dá a atmosfera de um país desolado pela guerra. Um  velho homem caminha com o seu neto por uma paisagem desolada, conduzido por uma enorme solidão e dividido entre os códigos de uma cultura e o seu remorso. Conduzindo a criança até um local onde o seu filho trabalha interroga-se sobre esse dilema da perda humana e da guerra que consome vidas.
 

Lion – A Longa estrada para casa
Ficha técnica:
Realizador: Garth Davis
Argumento: Luke Davies  

Fotografia: Greig Fraser 
Produtora: See-Saw Films, Aquarius Films, Screen Australia
A Longa Estrada para casa é um filme de 2016, rodado em diferentes países (Áustria, Reino Unido e Estados Unidos). Conta-nos a história de um rapaz indianao, Saroo que estando perdido na cidade de Calcutá é recebido num orfanato. É adoptado por um casal australiano. Ao tornar-se num jovem procura saber o que terá acontecido ao lar onde pertencia e à família de que ele gostava particularmente. Filme sobre os desenraizados e sobre a integração numa nova sociedade fala-nos sobre uma forma de solidão que se desenvolve em sociedades onde os indivíduos perdem o contacto com a sua origem cultural e social.


  

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lisbon & Estoril Film Festival (V)

Destaques - Dia 8:

Syngué Sabour, Pierre de Patience
Ficha técnica:
Realizador: Atiq Rahimi
Argumento: Jean-Claude Carrière, Atiq Rahimi
Fotografia: Thierry Arbogast 
Produtora: Razor Flm Produktion GmbH, Corniche Pictures
Filme de 2012, rodado em diferentes países (França, Alemanha e Afeganistão) fala-nos de um elemento da mitologia persa. Syngué Sabour é uma pedra negra que na na mitologia persa recebe as dores e lamentos dos peregrinos. Neste filme a pedra toma a forma de um homem já envelhecido e que está paralisado deviido a uma bala que se encontra no seu corpo. A sua jovem mulher cuida dele e ela nessa situação ganha coragem e conta-lhe o que manteve em silêncio durante os anos de casamento. Fala-lhe do seu sofrimento, dos seus sonhos, da sua solidão, da sua infância, dos seus desejos...

 

A vida é um milagre
Ficha técnica:
Realizador: Emir Kusturica
Argumento: Emir Kusturica, Ranko Bozic 
Fotografia: Michel Amathieu
Produtora: Les Films Alain Sarde, Rasta Films
Filme de 2004, rodado em diferentes países (Sérvia, França, Itália) cuja narrativa fílmica decorre na Bósnia no ano de 1992. Um engenheiro sérvio muda-se para uma aldeia remota com a sua família e nessa região planeia construir uma via férrea para aproveitar as potencialidades turísticas que ele imagina ser possível ali aproveitar. Isolado do mundo, não toma atenção às notícias e ignora a ameaça da guerra que se instala na Bósnia. A sua vida transforma-se de um modo sofrido, pois fica só, sem a sua família. Um filme sobre as esperanças de um homem e como o exterior pode destruir as ideias mais nobres.
Sara e sua Mãe
Ficha técnica:
Realizador: Teresa Villaverde
Argumento: Teresa Villaverde 
Fotografia: Rui Poças 
Produtora: Ukbar Filmes, Pandora Cunha Telles
Filme de 2014, rodado em Portugal e em que a narrativa nos conduz à guerra na Bósnia e à cidade de Sarajevo. O filme é um dos treze segmentos que compõem a longa-metragem Pontes de Sarajevo, e que integrou a seleção oficial do 67º Festival de Cannes, no ano de 2014. A narrativa leva-nos até 2014 e ao quotidiano de Sara, uma criança de seis anos que vive com a sua mãe em Sarajevo. As duas estão em processo de mudança de casa e ajudadas por uma criança vão desencaixotando as suas coisas. Nessa tarefa vão surgindo objetos com os quais vão lembrando memórias, afectos, realidades de que querem falar e outras nem tanto. Um filme sobre a memória, o desenraizamento e reconstrução da vida.
 

A palavra e o mundo - A cidade e as serras (I)

Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada colina - a sublime edificação dos Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do pó final. O que será então aos olhos de DEus?
E ante estes clamores, lançados com afável malícia para espicaçar o meu Príncipe, ele murmurou, pensativo: - sim, é talvez uma ilusão... E a Cidade a maior ilusão!

Tão facilmente vitorioso redobrei de facúndia. Certamente, meu Príncipe, uma ilusão! E a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda - esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão? Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, aturar, rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... 

A sua tranquilidade onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar - e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se desumanizam!

Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. (...)

Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas - ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha q multidão como um mostrengo numa feira. (...)

- Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão perversa!
Insisti logo, com abundância, puxando os punhos, saboreando o meu fácil filosofar. e se ao menos esta ilusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a mantêm... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem. (...) Mas quê, meu Jacinto! A tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá,nesta amarga desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a justa ração do caldo - não poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa porção de foie gras e túbaras que são o orgulho da Civilização.

Eça de Queiroz. (2009). A cidade e as Serras. Porto: Porto Editora, páginas 83 e 84.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lisbon & Estoril Film Festival (IV)

Destaque: Dia 7 (alguns dos filmes de Jean-Luc Godard)
Le Pont des Soupirs (Episódio de pontes de Sarajevo)
Ficha técnica:
Realizador: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard 
Eleno: Fabrice Aragno, Jean-Paul Battagia, Paul Grivas
Participação de Jean-Luc Godard num projeto de cinema que procurava compreender  o contributo artístico da cidade de Sarajevo durante o último século. Questão que se relaciona com a cultura e com a história europeia pela proximidade de civilizações e por aquilo que foi o cerco  à cidade, no mais grave conflito do século XX na Europa, após 1945.

Allemagne 90 Neuf Zéro / Solitudes, Un État et ses Variations
Ficha técnica:
Realizador: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard 
Fotografia: Cristophe Pollock, Andreas Erben, Stepan Benda
Produtora: Antenne 2 e Brainstorm Productions
Filme sobre a Alemanha, onde uma figura, Lemmy Caution, agente americano de serviço na Alemanha de Leste se defronta com a evolução da História. A  queda do Muro de Berlim coloca um fim na sua missão. O seu regresso a esse espaço fá-lo conhecer o passado e um conjunto de fantasmas que permanecem. Conduzido por uma preocupação para desconstruir as imagens ligadas à História, o filme coloca em discussão de um modo filosófico o bem, o mal, o feio nas sociedades, num período em que uma grande esperança se concretizou, tendo ela própria imensas contradições na vida quotidiana das pessoas. 

O soldado das sombras
Ficha técnica:
Realizador: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard 
Fotografia: Raoul Coutard 
Elenco: Michel Subor, Anna Karina, Henry-Jacques Huet,Jean-Luc Godard, Gilbert Edard, ...
Produtora: Société Nouvelle de Cinéma

Excerto (um diálogo; Um filme de 1960, entre o amor e a luta por ideais que marcaram uma geração, ainda que muitas vezes eram pequenas ilusões de algo por compreender).
«Há algo mais importante do que se ter um ideal. Mas o quê? É algo mais importante do que não se ser vencido. Queria saber o quê, exactamente. “Patético.” Quando andava no liceu, era uma palavra que eu admirava. Hoje, desprezo-a. “Taciturno.” Eis uma palavra belíssima, como Guillaume. Fico perdido se não fingir estar perdido. Acho que toda a gente tem um ideal. Portanto, há algo de mais importante que ninguém tem. Tenho a certeza de que Deus, por exemplo, não tem um ideal. Há uma frase lindíssima. De quem é? Creio que é do Lénine. “A ética é a estética do futuro.” Acho que é uma frase muito bela e também muito comovente. Reconcilia a Direita e a Esquerda. Em que pensam as pessoas da Direita e da esquerda? Hoje, por que se faz a revolução? Quando os reaccionários estão no poder, aplicam a política de Esquerda. E vice-versa. Eu ganho e perco, mas luto sozinho. Por volta de 1930, os jovens tinham a revolução. Malraux, Drieu la Rochelle, Aragon.

Nós já não temos nada. Eles tinham a guerra de Espanha. Nós nem temos uma guerra nossa. Além de nós mesmos, do nosso rosto e da nossa voz, não temos nada. Talvez o importante seja conseguir reconhecer o som da sua própria voz e a forma do seu rosto. Por dentro, ele é assim… E, quando o vejo, ele é assim. Ou seja, olham para mim e não sabem o que penso. E jamais saberão! Agora, uma floresta na Alemanha, um passeio de bicicleta… Acabou-se. Agora… uma esplanada em Barcelona. Agora… já acabou. Tento delimitar o meu próprio pensamento. E a palavra? De onde vem a palavra? Talvez as pessoas falem sem cessar, como os prospectores de ouro… para encontrarem a verdade. Em vez de revolverem o leito do rio, revolvem o leito do seu pensamento. Eliminam todas as palavas que não têm valor. E acabam por encontrar uma, sozinha. Ora uma única palavra sozinha… já é silêncio.Porque me ama?
– Não sei. Porque sou tonta