segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - O Spleen de Paris (I)

– De quem gostas mais homem solitário? De teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou irmão?
– Não tenho pai, nem mãe, nem irmãos.
– Dos teus amigos?
– É uma expressão de que não sei o sentido.
– Da tua pátria?
– Não sei onde está situada.
– Da beleza?
– Amá-la-ia se a conhecesse, e a sua imortalidade.
– Do oiro?
– Odeio – o tanto como vós a Deus.
– Então que amas tu, singular estrangeiro?
– Amo as nuvens… as nuvens que passam… lá longe… as maravilhosas nuvens! (1)



(1) – Charles Baudelaire. (2007). “O estrangeiro”,
 in O Spleen de Paris, pequenos poemas em prosa. Lisboa: Relógio d' Água.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - Os Maias (IIC)

"A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete".

"No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo de céu azul claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta escura, coroada pelo castelo da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro…” 

Num claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público pacato e frondoso - um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço cor de açúcar na vibração fina da luz de inverno: e os largos globos dos candeeiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar.”



“Pararam à porta do teatro da Trindade no momento em que, de uma tipóia de praça, se apeava um sujeito de barbas de apóstolo, todo de luto, com um chapéu de abas largas recurvas à moda de 1830”.
  
Diante deles, o hipódromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto com a sua relva já um pouco crestada pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. [...] Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição, erguiam-se as duas tribunas públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial duas tribunas públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial.”

A palavra e o mundo - Os Maias (IIB)

José Maria de Eça de Queiroz nasceu na Póvoa do Varzim em 1845. Estudou entre o colégio da Lapa, na cidade do Porto, e a Universidade de Coimbra, onde entrou no primeiro ano, em 1861. Aqui, ligou-se a uma geração académica, admiradora das ideias de Proudhon e de Comte. Travou conhecimento com Antero de Quental e iniciou a sua carreira literária, com a publicação de folhetins que mais tarde seriam agrupados nas Prosas Bárbaras (1905). Em 1866, formou-se em Direito e passou a viver em Lisboa, onde exerceu a profissão de advogado. Cimentou a sua ligação a Antero de Quental e ao grupo do Cenáculo (1868), após ter dirigido o Distrito de Évora (1867). 

Em 1869, viajou até ao Egito, para fazer a reportagem sobre a inauguração do Canal do Suez, de que resultará O Egipto, publicado apenas em 1926. Em 1871, participou nas Conferências do Casino Lisbonense. Entre 1869 e 1870, publicou diferentes obras, tais como Os Versos de Fradique Mendes, O Mistério da Estrada de Sintra, em parceria com Ramalho Ortigão e iniciou a publicação das Farpas. Em 1871, foi nomeado 1.º Cônsul nas Antilhas espanholas, transitando depois para Cuba, onde permaneceu dois anos. Entre 1883 e 1887, refez algumas das suas obras e publicou o Conde D’Abranhos e Alves & Companhia. Em 1874, passou a desempenhar a sua atividade em Inglaterra, foi em Newcastle que terminou O Crime do Padre Amaro (1875), ali ficando até 1878. Após esta data, foi para Paris, onde se dedicou à criação literária e onde faleceu em 1900. Em 1888, publicou a sua grande obra Os Maias e foi nomeado Cônsul em Paris. Continuou a escrever diferentes textos e obras, como A Ilustre Casa de Ramires ou a publicação na Revista Moderna, em Paris. 
Podemos ainda destacar da sua produção romanesca, entre outros, O Mistério da Estrada de Sintra (em colaboração com Ramalho Ortigão, (1871), O Primo Basílio (1878), O Mandarim (1879), A Relíquia (1887), A Ilustre Casa de Ramires (1900), A Correspondência de Fradique Mendes (1900), A Cidade e as Serras (1901), A Capital (1925), O Conde d'Abranhos 1925), Alves e Cia. (1925) e Contos (1902). Eça de Queiroz, tendo vivido na parte final do século XIX, soube, através da sua capacidade de analisar o quotidiano e a sociedade, traçar com humor algumas das características do nosso país. Fez o diagnóstico de uma classe política naufragada, onde os interesses particulares parecem não ser capazes de organizar institucionalmente o país. Vindo do século XIX, é um modernista na escrita e no pensamento que nos deixou. 

Eça é um dos maiores escritores de língua portuguesa, sendo em muitos aspetos uma figura que cria um mundo novo que alcança formas novas de exprimir um modernismo na escrita. É um dos escritores mais populares de língua portuguesa. A sua obra evoluiu de uma formulação inicial mais fantástica e influenciada por nomes como Baudelaire ou Heine, presente nos artigos e crónicas, para numa fase posterior se dedicar à crítica das instituições mais tradicionais, preocupando-se com a reforma social, dando-nos belos quadros de “crónicas de costumes.” Na última fase, encontramos uma escrita com mais esperança, com o culto da Natureza e de um certo regresso à simplicidade do homem, como se percebe em A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras ou a Correspondência de Fradique Mendes.

A palavra e o mundo - Os Maias (IB)

Subitamente, ega parou:
- Ora aí tens tu essa Avenida! Hem? Já não é mau!
Num claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público pacato e frondoso - um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço cor de açúcar na vibração fina da luz de Inverno: e os largos globos dos candeeiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar. 
Dos dois lados seguiam, em alturas desiguais, os pesados prédios, lisos e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde negrejavam piteiras de zinco, e pátios de pedra, quadrilhados a branco e preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aqueles dois hirtos renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as famílias que outrora se imobilizavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa "da uma", ouvindo a Banda, com casimiras e sedas, no catitismo domingueiro.
Todo o lajedo reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto encolhia, na aragem, a sua folhagem pálida e rara. E no fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato - que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo, com o fôlego curto, entre montões de cascalho.

Eça de Queiroz. (2013). Os Maias. Porto: Porto Editora, pág. 244

So long, Leonard

Leonard ...


Leonard Cohen
(Just listen.) 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - O livro de Cesário Verde (IIA)

"José Joaquim Cesário Verde nasceu a 25 de fevereiro de 1855, num terceiro andar da Rua dos Fanqueiros, em Lisboa. Apesar da relativa estabilidade em que se vivia na altura, as chuvas anormais de primavera tinham provocado uma crise nos cereais, o que, num país sem caminhos-de-ferro, implicava literalmente a fome. 
Entre 1856 e 1857, devido às pestes – primeiro a de cólera e, depois, a da febre-amarela – Cesário passou uma longa temporada na quinta que a família possuía em Linda-a-Pastora. O pai era um lavrador dos arredores de Lisboa e o único proprietário da firma «J. A. Verde», uma loja de ferragens fundada em 1808.
A família Verde, oriunda de Génova, tinha emigrado para Portugal no século XVIII e pertencia aos sectores das classes médias atraídos pelos ventos revolucionários que vinham da Europa.

Aos dez anos, Cesário fez, com êxito, o exame de instrução primária. Não se limitou a estudar o que lhe ensinavam na escola: lia tudo o que lhe ia parar às mãos. Em casa, ouvira falar de autores – Montesquieu, Balzac, Dickens, Byron, Baudelaire, Zola – que o deliciaram. O pai notou desde cedo que o primogénito se interessava pelas artes e deu-lhe uma grande margem de liberdade. Liberal em política, era tolerante em casa. A família era, aliás, singularmente culta.
O desgosto provocado pela morte da irmã, aos dezanove anos, coincidiu com o final da sua adolescência. Pouco depois era envolvido pelo pai nos negócios da família. Tudo indica que apreciava aquela vida regrada, a ponto de ter imaginado novos empreendimentos.

Em 1873, matriculou-se no Curso Superior de Letras, fundado, uns anos antes pelo rei D. Pedro V, mas não o concluiu.
Após um ciclo de poemas dedicado a mulheres gélidas, publica, no verão de 1877, a sua primeira obra-prima, «Num Bairro Moderno», uma deambulação pelo que se supõe ser o bairro da Lapa. Há um certo paralelismo entre os poemas Cesário e um quadro impressionista. Em 1880, a sua melhor poesia ainda estava para vir, mas o que publicara era já muito bom. Mais realista do que Eça, que ostentava frequentemente um olhar moral, pretendia apenas mostrar o que via. A sua melancolia era calma, o seu pensamento, claro, e não acreditava em Deus porque nunca o vira. Para ele, a realidade era apenas aquilo que tinha diante dos olhos.

Embora tido como um poeta da cidade, também falou, e muito, do campo. Na sua geração, foi mesmo o único capaz de se referir às «serras» sem bucolismo.
«O Sentimento dum Ocidental» foi publicado em 1880 numa revista do Porto, Jornal de Viagens, por ocasião dos festejos do tricentenário da morte de Camões. Numa carta enviada a um dos diretores da publicação, Cesário refere que Lisboa, «em relação ao seu glorioso passado, parece um cadáver de cidade.» A forma como a descreve – vista como uma urbe pacata e escura – é curiosa. Lisboa é retratada como se o poeta tivesse tido acesso não a material de escrita, mas a uma câmara de filmar. Na parte II, subimos pela Rua Nova do Almada, até ao Largo das Duas Igrejas, onde, alguns anos antes, Eça colocara o padre Amaro a conversar com o cónego Dias.

Cesário é o autor daquele que é considerado o mais perfeito poema do século XIX, mas a reação do público não foi a que ele esperava e não estava preparado para o silêncio que se seguiu.
Em 1884, apercebeu-se de que estava doente. Nos dois anos seguintes, a sua atividade literária sofreu uma forte redução. Em 1886, foi viver para casa de um amigo da família, situada no Paço do Lumiar, onde morreu a 19 de julho de 1886. Os obituários, os poucos que apareceram na imprensa, foram todos de circunstância.
Cesário não precisou de ser um «poeta maldito» para escrever a poesia mais revolucionária da sua época. Disse o que tinha a dizer sem uma palavra a mais ou a menos. Não foram os temas que fizeram dele um génio, mas a sua imaginação, liberta como estava de todas as convenções".

Maria Filomena Mónica. (2007). Cesário Verde: um génio ignorado. Lx: Alêtheia Editores.