sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - O Spleen de Paris (II)

"Transporta-me, vagão! conduz-me tu, fragata!
Pra longe! aqui a lama são os nossos choros." (1)

Charles Baudelaire nasceu em Paris, em 1821. Desde a infância sentiu o lar como um sítio estranho. Andou de colégio interno em colégio interno e sucessivamente expulso por mau comportamento. Como adulto, quando já tinha crescido não encontrou um lugar para si na sociedade burguesa de Oitocentos em França. Viveu com um sentido de solidão, uma existência desalinhada que o conduziu para uma ideia de viagem. Viu-a como um convite permanente. 

Na viagem encontrou um forma de ordem e beleza. Teve algumas experiências de viagens menos conseguidas, mas ficou sempre nele essa ideia que expressa em Spleen, "as nuvens, as nuvens". Para Baudelaire o importante não era o destino a realizar numa viagem. A verdadeira grandeza da viagem era partir, era ir embora e dizia-o enfaticamente: "Qualquer sítio! Qualquer sítio! Contando que seja fora deste mundo!"

Baudelaire definiu-se assim ele próprio como um "poeta"  inquieto, afirmando nas viagens contínuas capazes de dar um sentido na vida, onde a família e os outros pouco lhe diziam. Desenvolveu um gosto muito particular por portos, estações de comboios ou docas, nessa ideia de que esses locais eram mais a sua habitação, tal como os hotéis do que o seu ambiente doméstico. Baudelaire soube criar uma poesia que dava uma expressão de beleza aos lugares de passagem, aos meios de transporte do século XIX. Elliot disse dele que tinha inventado "a poesia das partidas, a poesia das salas de espera."

Numa das suas visitas a sua mãe escreverá "Estes grandes e belos navios que oscilam imperceptivelmente nas águas tranquilas, estes sólidos navios, de ar sonhador e ocioso, não parecem murmurar-nos na sua linguagem de silêncio: Quando partiremos rumo À felicidade?» Para Baudelaire a partida alimentava o seu sonho, mas ele também era feito de uma mecânica de movimento, no caso dos transatlânticos. Pensava essas grandes embarcações como uma "grande imensa, complicada, mas ágil criatura, um animal inoculado pelo espírito, que sofre e alimenta todas as nostalgias e ambições da humanidade". 

As nuvens e essa declaração de amor por elas no Spleen, "- amo as nuvens... as nuvens que passam... ao longe... a maravilha das nuvens!" Baudelaire via nelas o refúgio do mundo, de cidades decadentes como Paris, desse sítio onde terrores e lutos se fixam, obrigações e formalidades vãs se definem. A sua expressão "Pra longe! aqui a lama são os nossos choros!" é a construção de uma poética do lugar, da imaginação contínua da viagem, apenas por si, de fuga a um sentido de Ideal incapaz de se viver na cidade, justamente o Spleen.

(1) Charles Baudelaire. (1992). As Flores do Mal. Lisboa: Relógio D´Água.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Liberdade de Expressão e Redes Sociais (4ª edição)

A 4ª edição do concurso sobre Liberdade de Expressão e Redes Sociais, este ano é dedicada à Violência no Namoro. A SIC Esperança, em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares e com o apoio da Porto Editora, lança a 4.ª edição do projeto Liberdade de Expressão e Redes Sociais , o qual consiste num concurso nacional dirigido a estudantes com idade igual ou superior a 13 anos, que frequentem o 3.º ciclo do ensino básico ou o ensino secundário.
Para esta 4.ª edição os alunos são desafiados a trabalhar sobre o tema da Violência no Namoro, tendo em conta as dimensões da liberdade de expressão , das redes sociais e dos riscos e abusos que decorrem da sua utilização indevida ou transgressora, nomeadamente no âmbito das relações pessoais. 
Propõe-se como base para a reflexão e discussão d a temática, a abordagem ao problema feita pelo programa E se fosse consigo? Participa.
O prazo de candidatura e de entrega dos trabalhos na SIC Esperança é 20 de janeiro de 2017.  
Fonte: RBE

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Visita de estudo - 12ºs anos: Tapada de Mafra

No dia 10 de novembro deste ano letivo, três professores e duas turmas do 12º ano realizaram uma visita de estudo a Mafra no âmbito do património natural e das atividades económicas desta região. Assim, foi feita uma visita à tapada de Mafra e nesta foram realizadas diferentes atividades:
  1. Visita de comboio através da tapada e dos seus 21 kms, onde foi possível conhecer as diferentes espécies vegetais. A Tapada de Mafra foi construída na década 40 do século XVIII por iniciativa do rei D. João V e servia como espaço ligada à caça para a família real e como modo de recolher lenha para aquecer o convento de Mafra. A variedade vegetal é riquíssima  e nela pode ainda ser vista o pavilhão de caça do rei D. Carlos e outras construções mais recentes.
  2. Ainda na Tapada foi feita uma atividade dinamizada por um apicultor que abordou toda a questão da produção de mel e pólen, assim como esclareceu algumas dúvidas ligadas às abelhas e ao seu modo de vida nos cortiços.
  3. A terminar a visita à Tapada de Mafra foi feita um atividade dinamizada por um falcoeiro que fez demonstrações com aves de rapina. Deu informações muito interessantes sobre a sua importância na Natureza e todos ficaram mais conhecedores dos hábitos e modos de vida em "cativeiro" das aves de rapina.



De seguida a visita de estudo concentrou-se na visita a uma empresa de panificação, tendo os alunos tomado conhecimento com as diferentes fases do modo de produção. A visita terminou com uma deslocação a uma conhecida "aldeia" perto de Mafra. Esta "aldeia" foi construída durante várias décadas por um oleiro e que representa em ponto pequeno, muita da arquitetura portuguesa, do imaginário do País, das suas tradições, ocupações e grupos sociais. A visita de estudo foi avaliada pelos alunos como muito satisfatória e dela resultará um guia de exploração das particularidades económicas e turísticas de Mafra

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - O Spleen de Paris (I)

– De quem gostas mais homem solitário? De teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou irmão?
– Não tenho pai, nem mãe, nem irmãos.
– Dos teus amigos?
– É uma expressão de que não sei o sentido.
– Da tua pátria?
– Não sei onde está situada.
– Da beleza?
– Amá-la-ia se a conhecesse, e a sua imortalidade.
– Do oiro?
– Odeio – o tanto como vós a Deus.
– Então que amas tu, singular estrangeiro?
– Amo as nuvens… as nuvens que passam… lá longe… as maravilhosas nuvens! (1)



(1) – Charles Baudelaire. (2007). “O estrangeiro”,
 in O Spleen de Paris, pequenos poemas em prosa. Lisboa: Relógio d' Água.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - Os Maias (IIC)

"A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete".

"No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo de céu azul claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta escura, coroada pelo castelo da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro…” 

Num claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público pacato e frondoso - um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço cor de açúcar na vibração fina da luz de inverno: e os largos globos dos candeeiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar.”



“Pararam à porta do teatro da Trindade no momento em que, de uma tipóia de praça, se apeava um sujeito de barbas de apóstolo, todo de luto, com um chapéu de abas largas recurvas à moda de 1830”.
  
Diante deles, o hipódromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto com a sua relva já um pouco crestada pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. [...] Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição, erguiam-se as duas tribunas públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial duas tribunas públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial.”

A palavra e o mundo - Os Maias (IIB)

José Maria de Eça de Queiroz nasceu na Póvoa do Varzim em 1845. Estudou entre o colégio da Lapa, na cidade do Porto, e a Universidade de Coimbra, onde entrou no primeiro ano, em 1861. Aqui, ligou-se a uma geração académica, admiradora das ideias de Proudhon e de Comte. Travou conhecimento com Antero de Quental e iniciou a sua carreira literária, com a publicação de folhetins que mais tarde seriam agrupados nas Prosas Bárbaras (1905). Em 1866, formou-se em Direito e passou a viver em Lisboa, onde exerceu a profissão de advogado. Cimentou a sua ligação a Antero de Quental e ao grupo do Cenáculo (1868), após ter dirigido o Distrito de Évora (1867). 

Em 1869, viajou até ao Egito, para fazer a reportagem sobre a inauguração do Canal do Suez, de que resultará O Egipto, publicado apenas em 1926. Em 1871, participou nas Conferências do Casino Lisbonense. Entre 1869 e 1870, publicou diferentes obras, tais como Os Versos de Fradique Mendes, O Mistério da Estrada de Sintra, em parceria com Ramalho Ortigão e iniciou a publicação das Farpas. Em 1871, foi nomeado 1.º Cônsul nas Antilhas espanholas, transitando depois para Cuba, onde permaneceu dois anos. Entre 1883 e 1887, refez algumas das suas obras e publicou o Conde D’Abranhos e Alves & Companhia. Em 1874, passou a desempenhar a sua atividade em Inglaterra, foi em Newcastle que terminou O Crime do Padre Amaro (1875), ali ficando até 1878. Após esta data, foi para Paris, onde se dedicou à criação literária e onde faleceu em 1900. Em 1888, publicou a sua grande obra Os Maias e foi nomeado Cônsul em Paris. Continuou a escrever diferentes textos e obras, como A Ilustre Casa de Ramires ou a publicação na Revista Moderna, em Paris. 
Podemos ainda destacar da sua produção romanesca, entre outros, O Mistério da Estrada de Sintra (em colaboração com Ramalho Ortigão, (1871), O Primo Basílio (1878), O Mandarim (1879), A Relíquia (1887), A Ilustre Casa de Ramires (1900), A Correspondência de Fradique Mendes (1900), A Cidade e as Serras (1901), A Capital (1925), O Conde d'Abranhos 1925), Alves e Cia. (1925) e Contos (1902). Eça de Queiroz, tendo vivido na parte final do século XIX, soube, através da sua capacidade de analisar o quotidiano e a sociedade, traçar com humor algumas das características do nosso país. Fez o diagnóstico de uma classe política naufragada, onde os interesses particulares parecem não ser capazes de organizar institucionalmente o país. Vindo do século XIX, é um modernista na escrita e no pensamento que nos deixou. 

Eça é um dos maiores escritores de língua portuguesa, sendo em muitos aspetos uma figura que cria um mundo novo que alcança formas novas de exprimir um modernismo na escrita. É um dos escritores mais populares de língua portuguesa. A sua obra evoluiu de uma formulação inicial mais fantástica e influenciada por nomes como Baudelaire ou Heine, presente nos artigos e crónicas, para numa fase posterior se dedicar à crítica das instituições mais tradicionais, preocupando-se com a reforma social, dando-nos belos quadros de “crónicas de costumes.” Na última fase, encontramos uma escrita com mais esperança, com o culto da Natureza e de um certo regresso à simplicidade do homem, como se percebe em A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras ou a Correspondência de Fradique Mendes.

A palavra e o mundo - Os Maias (IB)

Subitamente, ega parou:
- Ora aí tens tu essa Avenida! Hem? Já não é mau!
Num claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público pacato e frondoso - um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço cor de açúcar na vibração fina da luz de Inverno: e os largos globos dos candeeiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar. 
Dos dois lados seguiam, em alturas desiguais, os pesados prédios, lisos e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde negrejavam piteiras de zinco, e pátios de pedra, quadrilhados a branco e preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aqueles dois hirtos renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as famílias que outrora se imobilizavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa "da uma", ouvindo a Banda, com casimiras e sedas, no catitismo domingueiro.
Todo o lajedo reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto encolhia, na aragem, a sua folhagem pálida e rara. E no fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato - que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo, com o fôlego curto, entre montões de cascalho.

Eça de Queiroz. (2013). Os Maias. Porto: Porto Editora, pág. 244