No âmbito do laboratório sensorial, a realizar-se a 27 de março, integrado na Semana das Ciências Sociais e Humanas, divulgamos, de seguida, um texto sobre a temática do medo e da angústia existencial:

"Sobre o Medo (parte I): Uma perspetiva filosófica
Exploração filosófica de uma situação:
Onde moro atualmente, embora seja litoral,
jamais ouvi falar de um ataque de tubarões. Portanto, nenhum evento traumático
relacionado com esses animais jamais me ocorreu nem a qualquer pessoa próxima
de mim. Assim, se eu demonstrar este medo, ele aparecerá como um evento
aparentemente injustificável, e inclusivamente, por qualquer fator externo.
Naturalmente, esta questão pode ser um
ponto de partida para entender “o quê” e
as causas da fobia ou do medo. Esta reflexão, portanto, concentrar-se-á em
entender o que é o medo, por que o sentimos e como vencê-lo. E para tentar
entender o problema, recorri à literatura que me foi mais acessível, partindo
de uma perspetiva filosófica-teórica para uma visão psicológico-prática. Esta
reflexão, portanto, terá duas partes, sendo esta primeira dedicada a uma perspetiva
filosófica do assunto.
Pois bem, podemos dizer que o medo é uma
das nossas emoções mais básicas, estritamente associada ao nosso sentido de
autoproteção e sobrevivência. O corpo humano reage instintivamente ao perigo, à
aparência do perigo ou simplesmente à crença do perigo, levando-nos em direção
à fuga.
Fugir, afastar-se, correr para longe de
forma a esquecer o que nos perturba é a raíz de qualquer vivência profunda como
seja o medo
: “é especialmente daquilo de que foge
que a presença corre atrás” revelando o que se esconde de uma forma mais
profunda – que eu me sinto ameaçado, perdido ou desencontrado de mim mesmo.
Encontramos em Heidegger a reflexão mais
próxima sobre o modo fundamental como o medo se faz ver: na
ação.
Basearemos as ideias que se seguem tal
como se apresentam no capítulo sexto da sua obra Ser e Tempo.Sabe-se que a
preocupação mais profunda de Heidegger não se concentrou na existência em si,
mas no ser, mais especificamente no esquecimento do ser.
Para ele, o homem cotidiano (do século XX) mantém-se numa situação de encobrimento
do seu ser, por isso, não possui uma compreensão profunda da sua própria
existência. E essa tendência para o encobrimento, o equívoco, a banalidade que
este filósofo colocou pela primeira vez ligando-o ao problema do “esquecimento
de si e do ser”.
De
acordo com a análise que M. Heidegger faz, os gregos, dedicavam-se à questão do
ser, mas, ao longo do tempo, o homem foi-se afastando do ser para se fixar nos
entes. E isso levará Heidegger, não surpreendentemente, a encontrar na
superação ou mesmo na “destruição” da tradição filosófica clássica uma solução.
Todo o problema central , na visão
heideggeriana, gira em torno do conceito de Dasein (o ser-aí ou o ser-no-mundo). O Dasein,
normalmente traduzido para o português como “o ser- aí ou o aí do ser”, é
aquilo que confere ao mundo o caráter de mundo, e aqui o mundo tem uma
definição diferente da conceção moderna estabelecida em Descartes. Falar de
“ser-no-mundo” em Heidegger pressupõe vários graus: a quotidianeidade; o modo
impróprio de existir em contraponto com o ser autêntico e o cuidado bem como a
resolução a ser si mesmo. E é aqui que o medo e a angústia mostram a sua função
fundamental.
Ao concentrar-se
em explicar os aspetos existenciais que constituem o Dasein como
ser no mundo, Heidegger viu-se diante da questão existencial fundamental, - qual
é, afinal, o sentido da existência humana, o traço constitutivo da existência do Dasein no
qual residirá a totalidade do ser da existência humana, por outras palavras, a
própria essência humana. Ele encontrará esse traço totalizante que define a
essência do ser humano justamente no conceito de angústia, buscando
o nexo ontológico entre angústia e medo, admitindo que entre ambos existe um
parentesco de grau, por isso aparecem, na maior parte das vezes, inseparáveis
um do outro. No entanto, o medo é mais concreto e emocionalmente mais
identificável que a angústia.
Essa distinção que Heidegger faz entre angústia
e medo leva-nos à conclusão de que o meu medo de tubarões tem muito pouco a ver
com tubarões. Heidegger diz que, ao contrário do medo, a angústia não vê um
“aqui” e um “ali” determinados, de onde o ameaçador surge. É justamente quando o
ameaçador não se encontrar em lugar nenhum que se anuncia a
angústia. Ela não sabe o que é aquilo com que se angustia. No entanto, “em
lugar nenhum” não significa um nada meramente negativo: “o ameaçador dispõe
da possibilidade de não se aproximar a partir de uma direção determinada,
situada na proximidade, e isso porque ele já está sempre 'por aí', embora em
lugar nenhum. Está tão próximo que sufoca a respiração e, no entanto,
encontra-se em lugar nenhum”.
Podemos, portanto dizer, de uma forma
simples, que o medo parece mais concreto e determinável na sua origem ou causa
enquanto a angústia é indeterminável e coloca-nos perante o abissal nada.
No caso da psicologia, o medo e a angústia
terão uma carga traumática que, repetida, levará a uma defesa e fechamento do
ser humano que, numa atitude de fuga, não será capaz de lidar com esse trauma
sem ajuda.
Aliás, Heidegger, trabalhando e dando
Seminários a psiquiatras (ver Seminários de Zollicon), discutirá as formas como
o medo e a angústia podem levar o ser humano a perder-se da sua essência, sendo
“ o CUIDADO” a categoria existencial que restituirá o sentido à totalidade do
seu “ser-no-mundo”.
O que Heidegger explicita é que o medo vai
muito além da situação em que uma pessoa teme ser atacada por tubarões, ou
morrer afogada, ou viajar de avião; é um estado diante do mundo ou um modo
de lidar com o mundo, perante o qual os tubarões, a água e os
aviões estariam aí, senão como figuras quase irrelevantes, sobretudo, como
representação/sinal daquilo que se verdadeiramente se teme.
Aquilo de que se tem medo é sempre um ente
intramundano que, advindo de determinada região, torna-se, de maneira
ameaçadora, cada vez mais próximo, diz o autor alemão. Medo é a angústia imprópria,
entregue à decadência do “mundo” e, como tal, a angústia em si mesma, está
ainda velada. Na angústia, o ser aí como existente sente-se no “estranho”.
Estranheza significa “não se sentir em casa”, não estar “familiarizado
com...”. O não sentir-se em casa deve ser compreendido aqui, essencialmente
e ontologicamente, como o fenómeno mais originário, que nos afasta do nosso ser
e do ser enquanto tal.
A angústia, para Heidegger, em comum
acordo com Kierkegaard, tem um quê existencial essencialmente humano. Ela é
mais que um fenómeno psicológico e ôntico; ela tem uma dimensão ontológica,
pois remete-nos para totalidade da existência como ser-no-mundo. Só o homem se
angustia, só o homem existe e só o homem pode ter uma compreensão do ser.
Kierkegaard dirá que o desespero e a angústia revelam a nudez do ser humano a
si mesmo. A diferença entre os dois autores vai residir no fato de que, em
Kierkegaard, a angústia revela o nosso ser finito, o nada de nossa existência
diante da infinitude de Deus, do caráter eterno de Deus, enquanto que, em Heidegger, a angústia revela-nos o sentido
existencial da finitude do homem – põe-nos diante do NADA.
“É na angústia que a liberdade de ser para
o poder-ser mais próprio do Dasein se mostra numa dimensão originária e
fundamental.” ( Ser e Tempo)
O filósofo alemão descreve, igualmente, o
sentimento de apavoramento de que falava Pascal com o sentimento de angústia, e
sugere que a angústia é fundamental para que se alcance a verdade. A busca da
verdade não deve ser estática, passiva, contemplativa, mas movimentada pela
ação; a ação de ir vivenciar o Nada, o desconhecido, o medo. O medo, assim,
impele o homem a abandonar a passividade e abrir-se para o desconhecido e abissal,
lutando contra os seus instintos mais elementares.
Para Heidegger, o medo não é algo a ser
evitado, mas faz parte do nosso ser mais profundo. O obscuro, o desconhecido, o
temido, é onde propriamente encontramos a nossa essência como seres humanos.
Somente abrindo-nos em direção ao medo, e enfrentando-o, conseguiremos, de facto,
conhecer-nos e superar-nos a nós mesmos. Esta pode ser, talvez, uma
diferenciação própria do Dasein, uma capacidade do ser que reside
não apenas em estar no mundo, mas de ser-no-mundo, de estar
envolvido no mundo, compreendido no mundo. E o medo da morte encontra aqui uma
posição especial, pois coloca-nos em face, ou com a eternidade, ou com a total
falta de sentido, o que foi, por sua vez, brilhantemente, comentado por Pascal.
Uma pausa para observar uma coisa
interessante: parece que essa diferença entre Heidegger e Kierkegaard e entre
Heidegger e Pascal, que parte justamente do fato de que Kierkegaard e Pascal
buscam explicar a angústia a partir da eternidade, do caráter eterno de Deus,
ao passo que Heidegger busca uma explicação mais fenomenológica da “disposição
existencial”, como vulgarmente designamos “o sentir-se” explica. É difícil
encontrar, uma abordagem filosófica sobre o medo, fora de pressupostos
teológicos, senão em Heidegger. A impressão é que, para a maioria dos
estudiosos sobre o assunto, Heidegger conserva o pensamento estritamente
filosófico, “puro”, enquanto os autores que o influenciaram, como Kierkegaard e
Pascal, “se afastam” da filosofia para encontrar refúgio na “teologia”, o que
representa uma espécie de retrocesso filosófico.
Heidegger considera que o pensamento
Onto-teológico, que esteve na base da Metafísica tradicional, foi incapaz de se
abrir em direção à eternidade e ao Ser, ocultando o pensamento do homem que o limitou
na sua existência a este mundo, aparente, banal e orientado para o “ruído”, “ a
conversa banal” ou “ a rotina do hábito”.
Notas:
Para obter uma compreensão melhor da visão
de Kierkegaard sobre a angústia, recomendamos a leitura da sua obra “O Conceito de Angústia”, lembrando, claro, que
também temos uma lista
de leitura do autor. Sabendo que a maioria das questões que preocupam as pessoas
estão na maioria relacionadas ao "medo da morte", faremos esta
reflexão não mais em duas, mas em quatro partes. A segunda
parte trará a visão de Pascal sobre a importância de se “antecipar a morte” e
de se investigar a natureza mortal ou imortal da alma; na terceira parte
traremos conceitos e conselhos práticos sobre o medo e como dominá-lo,
inspirados numa abordagem menos analítica e mais psicológica sobre o tema; e na
quarta falaremos de medos relacionados com a infância que podem influenciar na
vida adulta."
A continuar...
Texto da Profª Isabel Nunes de Sousa (Filosofia)
A Profª Bibliotecária: Ana Cristina Tavares