sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Newsletter - mês de janeiro

Boletim Bibliográfico

Boletim Bibliográfico - janeiro (Miguel Torga)

Carta de uma leitora - Sara (10º H)

Cara Srª Claudia Gray,


Olá, sim, sou só mais uma fã dos seus livros, mas não se livra já de minha carta, pois eu não lhe escrevo para relatar desespero e loucura acerca do seu próximo expectante sucesso. Venho apenas por este meio partilhar a minha admiração para consigo.
Tornei-me admiradora das suas palavras há pouco tempo. Porém quando iniciei as minhas leituras, você conseguiu tocar-me na alma com descrições psicológicas exactas dos sentimentos das personagens. A perfeita complexidade das palavras em histórias fictícias que se tornam rapidamente em pura realidade no nosso pensamento, seja fértil ou não, tem uma enorme capacidade de inventar o impensável.
Sempre que escrevo os meus contos ou o meu interminável livro inspiro-me em si, na forma como escreve e transmite as emoções mais profundas.
Bem, com isto s+o pretendo demonstrar que a admiro muito enquanto escritora.Por favor, continue a fazer o magnífico trabalho que tem feito até hoje ao nos espantar em cada livro publicado e boa sorte no futuro!

Com grande admiração,

Sara de Melo Barreira Pinela (10ºH)

Gandhi - a consciência da humanidade

«Sempre foi para mim um mistério o facto de os homens se sentirem honrados com a humilhação dos seus semelhantes.» (1)

A trinta de Janeiro de 1948, despedia-se deste mundo físico um homem de uma imensa grandeza, que com simplicidade, determinação e beleza soube congregar em si a dimensão única da consciência da Humanidade. Fez da verdade e da justiça a sua causa de vida, enfrentou o Império britânico com a força do espírito, com a sua satyagraha, onde juntou a sua preocupação com os outros à ideia de não-violência.

Albert Einstein, disse dele, em 1948, «gerações vindouras dificilmente acreditarão, que um homem destes, de carne e osso, tenha alguma vez andado por este Planeta». Relembramos, hoje, os sessenta e seis anos de uma memória excepcional, Mahtama Gandh e lembrar os esquecidos ideais humanos, na medida em que essa memória representa a consciência da própria humanidade.

Falamos aqui de uma figura intemporal que lutou com energia, abnegação e inteligência por um mundo mais justo e mais igual entre todos. Com consciência lutou pela verdade nas relações humanas, mostrou-nos que a força do espírito, alimentado pela razão pode vencer impérios e que não existem deuses acima da Verdade, considerada como valores universais.

Lutou pela independência da Índia através da desobediência civil, através de marchas cívicas de protesto ordeiro, aceitando o sofrimento para justificar uma causa nobre e defendendo a verdade, mesmo que representada num só homem. Defendeu o trabalho manual, a reposição da dignidade entre todos, a recuperação da auto-estima dos mais humildes na sua construção individual do futuro. Conduziu a sua vida na conquista de um sonho, o mais elevado. Iluminar a Humanidade para um caminho de paz e harmonia. Deixou-nos elevados valores ligados à liberdade individual, condições para afirmar a liberdade política, a justiça social e a tolerância.

 Criou um pensamento que assentava em dois princípios: a Satyagraha (a força da verdade e do amor) e o Ahimsa (a não-violência). Todos os movimentos que no século XX lutaram contra a opressão dos impérios coloniais, ou contra a violência ou o racismo inspiraram-se nele. Todos os homens que aspiraram no século XX a um mundo melhor, livre da injustiça social, da guerra e da ditadura individual foram procurar motivação nas suas palavras.

De Martin Luther King a Nelson Mandela e a Aung San Suu Kyi na Birmânia, todos compreenderam que a força do seu exemplo e a nobreza da sua causa permitiram fazer evoluir o Homem. Da guerra do Vietname à praça de Tianamen, o seu exemplo deu força à coragem de alguns para se construir uma Humanidade mais fraterna. Este homem, vítima da intolerância, no seu próprio tempo, com as questões relacionadas com a separação da Índia e do Paquistão, após a saída dos Ingleses, guardou para nós o melhor de uma consciência mundial, disponível a todos.

              (1) Mahatma Gandhi, 1893, durante os protestos na África do Sul

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Mozart - A música dos anjos


Comentários ao conto "Tenório" - Profª Teresa Santos

A mensagem fortíssima que Miguel Torga pretende transmitir-nos é um “ataque” social para aqueles líderes mundiais que são, de certa forma, gananciosos e que querem ser eternos no poder/controlo de uma nação, com objetivos que só eles sabem. Esta importante mensagem serve para nos mostrar  e para mostrar aos líderes mundiais que, eventualmente, não obstante do quão importante o cargo é, irá sempre ser necessária uma substituição no “sistema”.

A mensagem que Miguel Torga nos quer transmitir é a lei natural da vida, Tenório substituíra um galo mais velho quando era pequeno e novo e quando já era velho foi substituído pelo seu filho. Não devemos também ser demasiado vaidosos, mas, principalmente, devemos aproveitar a vida e resignarmo-nos com o seu ciclo.

A mensagem que Miguel Torga pretende transmitir aos leitores através deste conto, é a contradição entre a vida e cultura de uma sociedade, utilizando animais com sentimentos e emoções humanas. Tenório representava a ambição de querer sempre mais, a cobiça e vaidade pois vivia numa constante luta para agradar… 

A mensagem que Miguel Torga quer passar  é que fazemos parte do mesmo presente temporal e, quer queiramos ou não, do mesmo futuro intemporal. Agora, sofremos as vicissitudes que o momento nos impõe, companheiros na premente realidade quotidiana. Mais tarde, seremos o pó da História, o exemplo promissor ou maldito, o pretérito que se cumpriu bem ou mal. Se eu hoje me esquecesse das tuas angústias , e tu das minhas, seríamos ambos traidores a uma solidariedade de berço…

Miguel Torga clarifica-nos o quão importante é a renovação. A renovação é uma medida necessária não só para acompanhar os tempos, mas também para proteção. A renovação é uma mudança para melhor e as pessoas que não o conseguem ver são vaidosas e valorizam-se demasiado.

Francisco Diniz /Inês Grosso / Sara de Melo Barreira / David Ferreira /Thomas Utca Machado - (10º E).

Os Bichos de Torga

(Na apresentação aos alunos do escritor Miguel Torga, foi proposto na Biblioteca a leitura do conto "Tenório", inserido no livro Os Bichos. Deixam-se algumas das imagens usadas para ilustrar o conto e com elas criar uma sessão de leitura e de diálogo sobre a ideia do conto. A leitura do conto foi precedida de uma breve apresentação de Torga e do seu reino maravilhoso. Do resultado de algumas questões colocadas publicaremos noutro post, o essencial do que foi produzido pelos alunos).

Esta é a história verdadeira de Tenório, o galo. Nascido duma ninhada que a senhora Maria Puga deitou amorosamente debaixo das asas chocas da Pedrês, em doze de janeiro, pelas três da tarde, quando a velhota o viu sair da casca, disse logo:

- É frango. 

E realmente. Aquela amostra de crista que trazia do ovo, poucas semanas depois, parecia já uma mitra. E ninguém mais duvidou de que era frango macho. Dos dois irmãos, muito tinhosos, sempre engeridos, desses é que a incerteza se manteve por largo tempo.
- Que te parece, António?
- Eu sei-te lá mulher!...
- O da dianteira está-se mesmo a ver. Aquelas três são pitas, com certeza.

Galo! Galo e duma maneira tal, que agora no quinteiro, mal franzia a testa, tremia tudo! E então lindo! A crista caía-lhe dobrada sobre o ouvido. Um rico brinco de cada lado. E em todo o lado. E em todo o peito, sobre o papo redondo, um avental de penas que pareciam de pavão! Sem falar nas asas, um primor de beleza, nos esporões que, de brancos, lembravam marfim, e naquela rica voz, legítimo orgulho da dona.
- Muito bem canta o seu galo, Ti Maria!
- Nem há...

Qual medo, qual pudor, qual nada! Era ou não era um galo a valer?! Ou não via como, em toda a capoeira alvoraçada, do espanto se passara a um rumor de pura admiração? Na capoeira e até lá dentro...
- Ouviste o frango, António?
- Ouvi.

É danado, o seu galo! Onde não chega, manda. (...)
Era a Júlia Pirraças a falar à dona. Ele ouvia com ar modesto. Por dentro, a babar-se, evidentemente. Quem é que não gosta que lhe louvem as valentias?...
Ah, se não fosse o espinho que começava a crescer-lhe no coração!...

O galo velho tem coisa...
Galo velho! Isto é que era uma vida!... Andava um homem sabe Deus como, roído por dentro, não lhe apetecia arreganhar os dentes, e logo uma sentença sem apelo: - galo velho!

- Mata-se e faz-se um bolo. O filho já dá conta do recado... Era o senhor menino, que começava a pôr as unhas de fora! Ah, mas saía-lhe cara a brincadeira! Oh, se saía! Garoto! (...).


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Dia do Holocausto - Mostra bibliográfica


Durante este dia a Biblioteca com diversas turmas do 10º ano e com a disciplina de Filosofia desenvolveu uma atividade para honrar a memória de milhões de seres humanos que perderam a vida, no que ficou conhecido como a solução final, no regime nazi. Fez-se uma apresentação bibliográfica e fílmica, leram-se excertos de alguns livros e apresentou-se o Álbum de Auschewitz, criado no campo em 1945, aquando da sua libertação. Durante este dia nos intervalos, estiveram em visionamento os filmes a Lista de Shindler e O pianista. 

Dia do Holocausto - Atividades

Memória, cultura e cidadania - Aristides - Memórias do Holocausto

Na homenagem às vítimas do Holocausto merece referência um homem muito especial, Aristides de Sousa Mendes. Lembremo-lo como um homem imenso que também participou naquilo que foi a caminhada dos justos. Aristides é um exemplo a diversos níveis. Conhecer a sua vida, o enquadramento social, económico e cultural de outras figuras do País cinzento dos anos trinta e quarenta dá-nos uma real dimensão do seu valor. 

Aristides foi um homem que ensinou ao mundo e a este País como a nossa única obrigação é com a nossa consciência. Ignorado nos livros de História durante décadas deu-nos a honra de vincular este País a um verdadeiro heroísmo, o de contribuir para a civilização contemporânea de um modo construtivo, mas acima de tudo empenhado com a sua tradição humanista.

Um homem que provou na sua vida o que é a bondade, o que é estar preocupado com os outros, com o seu futuro, com o modo como vivem. Um homem que se preocupou com a vida dos outros e que fez por essa defesa mais do que um País inteiro, num tempo difícil. Quando se recomendava a cautela ele ousou contra os maiores perigos, desafiando os que proibiam, perseguiam e calavam os que queriam ter a possibilidade de dizer uma palavra, a da sua dignidade.

Um homem generoso, cristão de formação, diplomata de profissão salvou milhares de vidas, arriscou na sua consciência a sua própria família ensinando-nos o valor da partilha e da luta por uma convicção. Salvou um grande número de judeus pelos vistos que lhe foi consecutivamente atribuindo, de modo a que fosse possível salvar a vida de pessoas que apenas queriam existir.

Um homem que revelou nas dificuldades que sofreu, nas humilhações recebidas, mas essencialmente na luta abnegada pelo amor à vida a imensa, a infinita mediocridade dos caminhos estreitos e sem brilho que Salazar outorgava a um país, triste e sem grandeza.

Chamou-se Aristides de Sousa Mendes. O livro em cima, dá-nos uma ideia do valor da solidariedade e do papel da consciência do consul de Bordéus. Num País  em que é significativo a falta de figuras e instituições capazes de honrar a memória do País, ele é também para nós alguém que superou a memória do Holocausto. A história construída apenas para existir, sem grandeza é uma das limitações do presente e é com figuras inspiradoras que podemos voltar a ousar sobre a injustiça. É esse o grande papel de Aristides de Sousa Mendes.

Memória, cultura e cidadania - Testemunhos do Holocausto

"Nunca nenhum de nós se tinha encontrado numa situação tão perigosa como a da noite passada. Deus protegeu-nos. Imagina a Policia a remexer na estante da nossa porta giratória, iluminada pela luz acesa, sem dar connosco! Em caso de invasão, com bombardeamentos e tudo, cada um de nós pode responder por si próprio. Neste caso, porém, não se tratava só de nós, mas também dos nossos bondosos protectores.

Estamos salvos. Não nos abandones! É apenas isto que podemos suplicar.Este acontecimento trouxe consigo algumas modificações. O sr. Dussel já não trabalha à noite no escritório do Kraler mas sim no quarto de banho. Às oito e meia e às nove e meia o Peter faz a ronda pela casa. Já não pode abrir a janela durante a noite. Depois das nove e meia não podemos utilizar o autoclismo do W.C. Hoje à noite vem um carpinteiro reforçar as portas do armazém. Há discussões a tal respeito, há quem pense que não se devia mandar fazer isso.

O Kraler censurou a nossa imprudência e também o Henk disse que não devíamos em tais casos descer ao andar de baixo. Fizeram-nos ver bem que somos «mergulhados», judeus enclausurados, presos num sitio, sem direitos, mas carregados de milhares de deveres. Nós, judeus, não devemos deixar-nos arrastar pelos sentimentos, temos de ser corajosos e fortes e aceitar o nosso destino sem queixas, temos de cumprir tudo quanto possível e ter confiança em Deus. Há-de chegar o dia em que esta guerra medonha acabará, há-de chegar o dia em que também nós voltaremos a ser gente como os outros e não apenas judeus.

Quem foi que nos impôs este destino? quem decidiu excluir deste modo os judeus do convívio dos outros povos? quem nos fez sofrer tanto até agora? Foi Deus que nos trouxe o sofrimento e será Deus que nos libertará Se apesar de tudo isto que suportamos, ainda sobreviverem judeus, estes servirão a todos os condenados como exemplo. Quem sabe, talvez venha ainda o dia em que o Mundo se aperceba do bem através da nossa fé, e talvez seja por isso que temos de sofrer tanto. Nunca poderemos ser só holandeses, ingleses ou súbditos de qualquer outro pais. Seremos sempre, além disso, judeus. E queremos sê-lo.

Não percamos a coragem. Temos de ter consciência da nossa missão. Não nos queixemos, que o dia da nossa salvação há-de chegar. Nunca Deus abandonou o nosso povo. Através de todos os séculos os judeus sobreviveram. Através de todos os séculos houve sempre judeus a sofrer, mas através de todos os séculos se mantiveram fortes. Os fracos desaparecem mas os fortes sobrevivem e não morrerão!

Naquela noite pensei que ia morrer. Esperava pela Policia, estava preparada como os soldados no campo de batalha, prestes a sacrificar-me pela pátria. Agora que estou salva, o meu desejo é naturalizar-me holandesa depois da guerra. E Gosto dos holandeses, gosto desta terra e da sua língua. É aqui que gostava de trabalhar. E se for preciso escrever à própria rainha, não hei-de desistir enquanto não conseguir este meu fim.

Sinto-me cada vez mais independente dos meus pais. Embora seja muito nova ainda, sei, no entanto, que tenho mais coragem de viver e um sentido de justiça mais apurado, mais seguro do que a mãe. Sei o que quero, tenho uma finalidade, uma opinião, tenho fé e amor. Deixem-me ser eu mesma e estarei satisfeita. Tenho consciência de ser mulher, uma mulher com força interior e com muita coragem.

Se Deus me deixar viver, hei-de ir mais longe de que a mãe. Não quero ficar insignificante. quero conquistar o meu lugar no Mundo e trabalhar para a Humanidade.
O que sei é que a coragem e a alegria são os factores mais importantes na vida!"

(Excertos do diário de Anne Frank, um dos muitos testemunhos sobre a representação no quotidiano do Holocausto e da ameaça aos judeus).

Memória, cidadania e cultura - O Holocausto - Explicar o inexplicável

«As guerras podem ser causadas por indivíduos fracos ou cretinos do ponto de vista moral, mas são combatidas e suportadas por gente muito decente» (1)

Se a cultura é a acumulação de ideias e valores que organizam uma Nação, os padrões civilizacionais de um Povo, a da Alemanha foi na História Contemporânea das mais intensas da Europa. No país de Gothe, Einstein, Beethoven, de Kurt Weill o património acumulado nas artes, no pensamento, era simbólico para a cultura europeia. Neste sentido como explicamos essa doença maligna em que o espírito humano se quebrou perante os mais nefastos fantasmas, o Nazismo.

Aquele foi o regime onde se assistiu à maior regressão da história humana. O Nazismo foi a confirmação de uma sociedade sem princípios racionais, assente nos mais nefastos instintos, o culto irracional pelo ódio e pela morte. Foi a consagração de uma religião incompreensível da loucura, onde a perda da vida uma etapa banal na conquista do poder e da glória.

E no entanto, foi um regime com assinaláveis vagas de popularidade. Antes dos fantasmas emergirem da noite para a mais clara luz, o Fuhrer chegou a ser considerado pessoa muito respeitável. De aparência em aparência o regime conquistou adeptos. A verdade difícil, cruel, trágica é que milhões de alemães acreditaram na causa nazi e muitos, demasiados jovens morreram pelo seu Fuhrer. Houve opositores ao regime nazi? Sim, mas proporcionalmente foram poucos. Como explicar este dilema?

Todas as respostas serão insuficientes, ingratas, insatisfatórias, incompletas de sentido para explicar a emergência do Mal absoluto. As condições do tratado de Versalhes, a crise económica e social, o desemprego, a inflação, a crise monetária, a derrota alemã em 1918, a psicologia teutónica tudo é pouco para justificar esta contradição. Quando se comemora o dia do Holocausto é necessário refletir sobre esta esta enigmática e cruel realidade. É uma oprtunidade para analisar a genialidade do mal. Custa admiti-lo, mas o Mal também pode ser servido por génios. A História como disciplina ignora muitas vezes o papel do indivíduo, integrando-o em grandes movimentos. Este é um caso em que um indivíduo servido por uma  ideologia irreconhecível, uma máquina de propaganda, condições históricas particulares e uma psicologia e filosofias únicas soube criar a maldade extrema na sociedade humana.

É fundamental perceber isto. É decisivo compreender como a cultura e a história se relacionam e como o discurso da cultura muitas vezes já o é ao serviço de ideologias transformando-se apenas em propaganda. Aqui se compreende como a História como disciplina oferece possibilidades formativas para que a sociedade evolua em todos os sentidos, naquilo que é a dignidade humana.

A História não se repete nas formas, mas pode voltar noutras condições oferecer uma igual falta de dignidade para a Humanidade. Só discutindo o mal se pode estar atento e preparado. É essencial pensar nos mecanismos do poder, no controle feito sobre o indivíduo, na desvinculação social, nas respostas únicas. De Heidegger, a Sartre, quantos "bons" filósofos não estavam inconscientes, para com o mal absoluto, em tantos regimes do século XX, que não sabiam reconhecer o outro como pessoa.

(1) Testemunho de pilloto da Luftwaffe,
citado em A Vida Perdida de Eva Braun

Memória, cidadania e cultura

Ainda está por deslindar o essencial da história desta feliz coincidência entre a desumanidade mais sistemática e uma forma de simpatia ou de indiferença geradora de uma cultura tão elevada". (1)

A vinte sete Janeiro de 2005, a Assembleia-Geral dass Nações Unidas instituiu este dia, como o Dia do Holocausto, em memória das vítimas daquilo que o nazismo chamou a solução final. No mesmo dia, em 1945 era libertado um dos locais, onde a Humanidade perdeu a sua dignidade, os campos de concentração de Auschwitz-Birkenau. É um dia e um acontecimento que nos remete para o mais difícil de explicar na História da Humanidade. 

Alguns escritores e cineastas têm tentado explicar esta doença mais cruel do espirito humano, que foi o nazismo.  Deixamos alguns dos filmes que melhor deram conta desta incapacidade de como sociedade impedirmos o inaceitável. São muitos deles em grande medida documentos históricos sobre o Holocausto e o Nazismo.



 A Biblioteca passará ao longo do dia, uma dessas obras, O Pianista, de Roman Polanski e fará uma breve mostra de livros sobre o nazismo. Nos intervalos passarão excertos da Lista de Shindler. É importante e necessário nesta data pensar como a cultura, a educação, o conhecimento permite ou não estabelecer elementos essenciais na construção de sociedades evoluídas materialmente e como estas se podem conciliar com as mais tenebrosas formas de existência. 

Se em A Noite e o Nevoeiro, de Alain Resnais, tomamos contato com o foco onde as imagens de uma câmara de filmar projectam o fundo trágico do cenário inquietante e incompreensível da Soah, em O Ovo da Serpente, deIngmar Bergman, onde este nos dá a procura de uma resposta para que se visualize a origem desse mal e o modo como os fantasmas emergiram da noite para a luz. 

Em Saudade de Veronika Voss de Rainer Werner Fassbinder, reconstroem-se as memórias do nazismo, onde somos devolvidos à construção de vidas, de uma sociedade triunfante sobre os escombros de uma moralidade sem direitos humanos e onde a reconstrução do pós-guerra se torna impossível de concretizar, para os que no passado recente o tinham alcançado. Em A Vida Maravilhosa e Horrível de Leni Riefenstahl, de Ray Muller, temos acesso a um documento interessante para compreender como ocinema e a arte podem estar ao serviço da propaganda que condicionaou milhºoes nas suas vontades e opções de vida. 

Leni Riefenstahl, em O Triunfo da Vontade, filma todo o aparato das massas nos comícios do partido nazi em Nuremberga. Apesar de trágico, é um filme que nos mostra como o cinemapode criar líderes e influenciar multidões e como ele pode funcionar como documento da História e criador de ideologias. 

A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, dá-nos o retrato do que significa o Holocausto para milhões de judeus e o como estar vivo era apenas uma questão de sorte, a de alguém escolher para um trabalho que permitisse a sua sobrevivência. Oscar Shindler optou, como membro do partido, de usar a sua influência para salvar pessoas da morte. O Pianista de Roman Polanski, confirma-nos essa ideologia de morte, dos mais baixos níveis de indignidade humana, numa história verídica sobre um homem que viveu esse pesadelo e pôde sobreviver.

(1) George SteinerO silêncio dos livros

Sete milhões de outros

Em construção ...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Antologia de Torga - Livro da semana

Título: Antologia Poética
Autor: Miguel Torga
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: D. Quixote
ISBN: ...
CDU: 821.134.3-1"19"


Sinopse:
Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga, Diário XIII

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A respiração da cidadania...

"Toda a miséria, toda a brutalidade deveriam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade. Toda a iniquidade era uma nota falsa a evitar na harmonia das esferas. (...) Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a. A menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a

(...) alguns homens pensarão, trabalharão e sentirão como nós; ouso contar com esses continuadores colocados a intervalos irregulares ao longo dos séculos, com essa intermitente imortalidade. A vida é atroz, sabemos isso. Mas precisamente porque espero pouco da condição humana, os períodos de felicidade, os progressos parciais, os esforços de recomeço e de continuidade parecem-me outros tantos prodígios que compensam quase a massa enorme dos males, dos fracassos, da incúria e do erro. (...) As palavras liberdade, humanidade, justiça reencontrarão aqui e ali o sentido que temos tentado dar-lhe."(1) 

"Um pé na erudição, outro na magia, ou, mais exatamente e sem metáfora, nesta magia simpática que consiste em nos transportarmos em pensamento ao interior de alguém.(...) é somente por orgulho, por ignorância grosseira, por cobardia, que nos recusamos a ver, no presente, os lineamentos das épocas que hão-de-vir. Aqueles livres sábios do mundo antigo pensavam como nós em termos da física ou de filologia universal: encaravam o fim do homem e a morte do globo. Plutarco e Marco Aurélio não ignoravam que os deuses e as civilizações passam e morrem.(...) Este século II interessa-me porque foi, durante muito tempo, o dos últimos homens livres.

Nada mais frágil que o equilíbrio dos lugares belos. As nossas fantasias de interpretação deixam intatos os próprios textos, que sobrevivem aos nossos comentários; mas a menor restauração imprudente infligida às pedras, a menor estrada macadamizada cortando um campo onde a erva crescia em paz desde há séculos criam para sempre o irreparável. A beleza afasta-se, a autenticidade também.(2)

(Num tempo em que a Liberdade, a Fraternidade e a Humanidade, velha divisa do imperador Adriano [nas vésperas do seu nascimento] e da casa de Marco Aurélio estão em falência significativa, um livro essencial. Escrito por Marguerite Yourcenar durante duas décadas é um documento admirável, um expoente da literatura do século XX, onde desenhou com humildade e sabedoria o olhar sobre a vida do imperador Adriano. Livro que chega a esse plano tão difícil, às palmeiras da voz. Livro que nos chega de um tempo que já não é o nosso, mas ainda próximo pela descoberta íntima da voz, do sentido mais partilhado de uma vida. Ainda é o que procuramos em tempos carentes de Humanidade.). 

(1) - Marguerite Yourcenar, memórias de Adriano ( do corpo do livro)  
(2) - Marguerite Yourcenar, memórias de Adriano (do conjunto dos apontamentos das diversas edições da obra). 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Concurso Nacional de Leitura

Apresentamos em baixo os alunos que no básico e no secundário venceram a 1ª eliminatória do Concurso Nacional de Leitura, a partir das leituras realizadas. Justamente, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá / O Mundo em que viviAmor de Perdição / O retorno. Os resultados encontram-se afixados na biblioteca, mas aqui ficam para uma consulta mais acessível. 


Básico:
(1º lugar) - Catarina Alves Moreira de Albuquerque D' Orey - 8º 6ª;
(2º lugar) - Maria Carta Gaudich - 9º 4ª;
(3º lugar) - Sofia Spencer Salomão Isidoro - 9º 6ª; 

Secundário:
(1º lugar) - Maria Faria Sampaio Guerra Tavares - 11ºF;
(2º lugar) - Sandra Isabel Belchior Ferreira - 11º F;
(3º lugar) - Maria Madalena Maymone Martins Quintela - 11ºF ; 

(Deixamos as nossas felicitações a todos os alunos participantes e desejando que os que vão participar na fase distrital possam ter um bom desempenho.)

George Orwell - a construção da liberdade

"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário (1)".

Há figuras, personalidades que pensam os seus dias, dão-nos formas de desenhar a construção do quotidiano e lembram-nos como a nossa fragilidade, o nosso desamparo se apresenta como um molde por onde os mais desjustados à dignidade humana se confinam em páginas de indiferença. Fez ontem, sessenta e quatro anos que deixámos de visitar a presença física de um homem que compreendeu como poucos o que foi o século XX - Geoge Orwell.

Foi um dos escritores que mais influenciou o século XX. Deixou uma obra importante que soube diagnosticar a tragédia humana que representou o século XX em tantas geografias. De A Quinta dos Animais, entre nós,  Triunfo dos Porcos, a 1984, a sua obra traçou, como uma alegoria, os mecanismos do desprezo pela humanidade que marcaram significativamente o século passado.

Orwell, demonstrou com clareza, como o controle da informação, o apagamento da memória, a destruição de uma consciência humana, a ausência da individualidade, a anulação da espiritualidade construiram regimes inquietantes, feitos de angústia e sofrimento de dimensões indescritíveis. Revelou nas suas páginas, o que muitos respeitados intelectuais não souberam verificar, quando as marchas de paz no Mundo, eram a expressão armadilhada de uma doutrina de tirania.

O início do século prometia uma difusão de regimes democráticos, perto do que alguns consideraram a progressão da História. Vivemos a confirmação do regresso da História, onde a promessa de uma humanidade «feliz», onde a dignidade seja respeitada continua, não só por construir, mas como regrediu a níveis preocupantes. Ao poder esmagador dos estados autoritários do século XX, assiste-se pela fragmentação dos poderes tradicionais à mesma limitada oportunidade que o indivíduo tem em garantir a sua voz de individualidade.

As transformações tecnológicas têm contribuído para isolar o indivíduo, pelo controle quase de ubiquidade que as máquinas permitem e pelo tempo desperdiçado na sua aprendizagem que nunca poderá ser de igual riqueza ao que se dispende a alimentar o conhecimento dos outros. Sendo o tempo uma realidade tão preciosa, a evolução económico-social tem garantido a liberdade humana, nas instituições que devem garantir a Democracia?

Tocqueville há dois séculos lembrou que para as sociedades democráticas, as que respeitam a identidade humana, o mais perigoso é que «no meio das pequenas ocupações incessantes da vida privada, a ambição perca o seu ímpeto e a sua grandeza (2)". Estamos pois de regresso às palavras de Orwell e essa é a sua grande "vitória", do tempo que o compreendeu muito limitadamente. 

(1) George OrwellSelected Writings, Penguin
(2) Alexis de TocquevilleDa Democracia na América
Imagens, in http://www.famousauthors.org/george-orwell

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Memória de Audrey

"Remember, if you ever need a helping hand, it's at the end of your arm, as you get older, remember you have another hand: The first is to help yourself, the second is to help others".

Vinte e dois anos sem a graça e a beleza de uma mulher e de uma actriz que faz parte da memória do cinema e das tardes encantadas quando o cinema era uma celebração e uma iniciação a mundos novos. Lembramo-la pelo seu  sorriso doce, de um tempo em que o cinema era ainda uma entrada artesanal no sonho e na aventura de descobrir. Evocação de fitas que acompanharam várias gerações. 

De Roman Holiday a Breakfast at Tiffany's, Guerra e Paz, até My Fair Lady, mas também a generosidade por causas nobres. Audrey Hepburn, quando o tempo ainda parecia domesticado pela doçura do sorriso. Um ícone, por onde a alegria e a a elegância se afirnaram como formas sublimes e sedutoras da beleza.

Fica a sua lembrança, na memória dos dias. O seu site além de muito material fílmico agrupa uma das suas causas, justamente, a das crianças desfavorecidas. Aos curiosos o acesso, aqui fica

...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

No nascimento de Eugénio


Nasceu neste dia no ano distante de 1923. Foi nosso autor do mês, mas a sua dimensão carece que dele falemos sempre um pouco mais, ele que nos guarda as palavras, as simples palavras. Um dos seus poemas, nessa procura da simplicidade maior, da luz solar, da água, da beleza dos gestos essenciais da vida.

Estive sempre sendo nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha coração
magoado (porque o0 amor, perdoa dizê-lo, 
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação). Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

Eugénio de AndradePoesia, Modo de Ler   

Concurso Nacional de Leitura

Realizaram-se hoje na Escola Secundária Rainha Dona Amélia as provas da 1ª eliminatória do Concurso Nacional de Leitura para o presente ano letivo. Hoje dia dezanove de janeiro, fizeram as provas os alunos do 3º Ciclo do Ensino Básico e os do Secundário. As provas tiveram como base a leitura dos livros: O gato malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado e O Mundo em que vivi de Ilse Losa para o Básico e O retorno de Dulce Maria Cardoso e Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco para o Secundário.
Amanhã divulgaremos os nomes dos alunos que passaram à 2ª eliminatória, que será de nível distrital.

Sonhos azuis pelas esquinas: livro da semana

Título: Sonhos azuis pelas esquinas
Autor: Ondjaki 

Edição: -...ª 
Páginas:1...
Editor: Caminho 
ISBN:... 
CDU: 821.134.3-31"19/20" 


aperta, e as sombras e os panos e as tranças nas meninas que passam - crianças que olham o mar com a simplicidade das pedras, aqui onde todas as varandas penduram ausências de gentes por regressar. os pássaros voam parados, suspensos e próximos, dando sombra às árvores e graças ao céu azul.  

sobre as pedras e pedras sobre a ilha, mas o chão respira uma frescura humana, os panos vestem as pessoas e as pessoas buscam negócios de regateio. chega um barco cheio de palavras caladas. (...) mais tarde a noite dará voz às sombras, as sombras serão calmaria e escuridão. as árvores beijarão os pássaros. os dedos hão de alcançar um torpor de mansidão. (...)

(Os lugares que habitamos nem sempre são o que queremos ser e vamos por cidades onde queremos ser mais perto de nós, ver a luz distante em cada porto e os sonhos azuis, na cor imensa que faz recordar as possibilidades de todas as histórias. Uma viagem por cidades e por aquilo que mais precisamos, estar dentro de nós com o sonho na respiração).

Ondjaki, "Gorée", in Sonhos azuis pelas esquinas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Luther King - A memória da Humanidade

A "civilização" americana em muitos dos seus fundamentos deu-nos figuras universais, que modelaram a forma mais sublime da consciência humana. Martin Luther King foi um dos mais elevados exemplos de humanidade, feito de determinação, coragem e visão de um mundo mais justo. 

Luther King, nasceu em Atlanta, na Geórgia, formou-se no Morehouse College, tendo sido ordenado pastor da Igreja Baptista aos dezoito anos. Estudou na Universidade de Boston, onde foi influenciado pelas ideias pacifistas de outro imenso ser humano, Mohandas Gandhi. Martin Luther King conduziu a sua vida pela defesa dos direitos cívicos dos americanos, em especial dos que eram profundamente discriminados. Procurou defender com energia e coragem os direitos das minorias, em especial os negros que eram vítimas de segregação racial. Lutou por estes ideais através de protestos e marchas pacíficas e discursos de grande determinação e inspiração.

Participou na fundação do CLCS (Conferência de Liderança Cristã do Sul) que organizou os protestos não-violentos, especialmente contra a situação de segregação racial dos negros nos Estados do Sul. Situação que limitava o direito de voto, discriminava as pessoas nos seus direitos mais básicos apenas pela cor da sua pele. As manifestações de protesto em Alabany em 1961 e 1962, em Birmingham em 1963, em St Augustine em 1964 e em Selma reafirmaram o seu protesto e a luta pelos direitos cívicos na América.

Em 1964, recebeu o Prémio Nobel da Paz, como reconhecimento da sua luta não violenta contra os preconceitos raciais. Em 1965 conseguiu concretizar a marcha entre o Alabama e Selma e a partir de 1968, ano em que foi assassinado em Memphis, organizou uma campanha de luta contra a pobreza (A Campanha dos Pobres). A partir de 1986, os Estados Unidos celebram na 3ª segunda-feira do mês de Janeiro, um feriado designado - Dia de Martin Luther King.

Martin Luther King representa a consciência da humanidade pela defesa da dignidade humana e dos valores que devem organizar a sociedade - a igualdade de todos perante a Lei. As suas palavras e a sua luta são uma inspiração para continuar a procurar individualmente melhorar a construção de uma Humanidade inacabada e que esteja cada vez mais próxima do valor que cada um tem.

Mais do que estas palavras, o vídeo colocado no post anterior, com o seu inspirado discurso, «I Have a Dream», realizado em 1963 demonstra a grandeza deste homem, que abriu um caminho de esperança. Em momentos da nossa própria contemporaneidade, algumas das suas ideias encaminharam linhas de esperança para uma sociedade mais humana. "Yes we can" do presidente Obama foi beber muito a esta ideia de King, de que sim, é possível com determinação mudar a ferrugem instalada pela ignorância.

Luther King - As palavras e os gestos da coragem

"I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident; thal all men are created equal".

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today". (...)


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Construir a memória - Torga

«(...) É muito tarde para as lentas
narrativas do coração.
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal» 
 
 Eugénio de Andrade, «Nao Sei», in saldalingua.worpress.com
Imagem, entre as serranias do parque natural de Montesinho