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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Os sonhos mais delicados - à memória de Saint-Exupéry

Olhamos para as suas palavras e parecem-nos oráculos de sabedoria. Verificamos a sua vida e encontramos os gestos permanentes da coragem. Medimos a sua respiração e é sempre um sonho feito de consciência. Medimos a sua respiração feita de solidariedade e empenho e encontramo-nos perante as mais evidente formas de beleza. Verificamos em cada um dos seus vôos uma queda vertical contra a tirania, essa forma absurda de existir contra os outros. Bebemos nas suas palavras linhas permanentes de consciência. Uma insistente forma pela viagem, a vinculação pela aventura, a geografia do poema em cada forma de possíveis, esses laços essenciais de que a raposa também conhecia. 
Ele foi o principezinho, um continente de procura e descoberta de planetas infindáveis de sonhos, mesmo aqueles que são habitados por pequenos homens, repositórios de doenças do espírito, a visão de uma cidade sem moral, sem a inteligência dos gestos do amor mais terno. Foi, é uma figura universal e aquilo que dele vimos é que foi quase um milagre que um homem destes por aqui tenha andado, de mãos dadas com a fantasia, a única forma de ver em dias de espuma sem espanto. Nasceu há um pouco mais de cem anos em Lyon, há justamente cento e quinze e foi um escritor, um ilustrador e deu a vida pelo combate por essa doença maior do espírito, o nazismo. 
Estudou mecânica, entre 1909 e 1914 no colégio de Notre-Dame, em Mans. A partir de 1914 muda-se para a Suiça, para a cidade de Friburgo. A partir de 921 integra 0 2º Regimento de Aviação de Estraburgo. Em 1926 começa a sua carreira na aviação civil fazendo a carreira entre Toulouse, Casablanca e Dacar. Tornou-se um piloto com grande experiência no deserto, do qual diria “este silêncio não é igual a nenhum silêncio.” Morreu sobre a costa de Marselha durante a 2ª guerra mundial. Deixou uma obra de grande valor humanista, ele que era maior que o Humanismo e onde encontramos os temas que lhe ocuparam a vida. Escreveu para diferentes jornais, onde reflectiu sobre esse desastre humanitário que foi a Guerra civil de Espanha, ou a ocupação alemã da França. Da sua obra destaca-se evidentemente O Principezinho, datado de 1943, que foi escrito durante o seu exílio nos Estados Unidos. Outras obras merecem referência, as publicadas em vida e as póstumas:
Em vida:
O aviador – 1926
Correio do Sul – 1929
Vôo Noturno – 1931
Terra dos Homens – 1939
Piloto de Guerra – 1942
O Principezinho – 1943
Carta a um refém – 1943/1944
Póstumas:
Cidadela – 1948
Cartas de juventude – 1953
Cadernos – 1953
Cartas à sua mãe – 1955
Escritos de guerra – 1982
Este homem extraordinário é uma memória viva do século XX e a demonstração de como somos sempre qualquer coisa que vive dos muitos que por nós passam. O questionamento que deixou no Principezinho e a releitura que nos propõe dos nossos julgamentos, das nossas precárias formas de sucesso são uma pérola de sabedoria. A criança que fomos, um ideal para olhar o mundo com  ternura antiga e esse valor de humanidade, essa constância de eternidade que cada vida pode ser. Chama-se Antoine de Saint-Exupéry e continua por aqui, para os que ainda saibam olhar o real e as cores universais da beleza.

As cidades do espírito

Pois eu tenho visto muitas vezes a piedade se perder. Mas nós que governamos os homens, temos que aprender a sondar com seus corações afim de não ministrarmos nossa solicitude senão como objecto digno de estima. Mas essa piedade, eu a recuso nas feridas que se exibem que comovem o coração das mulheres, como recuso aos agonizantes, e aos mortos. E sei porquê. (…) 
Morada dos homens, quem te fundaria sobre o raciocínio? Quem seria capaz, segundo a lógica, de te edificar? Existes e não existes. És e não és. És feita de materiais díspares, mas é preciso te inventar para te descobrir. De mesmo modo que aquele que destruiu a sua casa com a pretensão de conhecê-la, não consegue mais que um monte de pedras, tijolos e telhas, não encontra nem sombra nem silêncio nem intimidade para o que elas serviam, e nem sabe que serviço esperar desse monte de tijolos, pedras e telhas, pois falta-lhe invenção que os domine, a alma e o coração do arquiteto. Pois falta à pedra a alma e o coração do homem. (…)
Assim sobre a virtude. Meus generais, em sólida estupidez, vieram falar comigo sobre a virtude: ‘Vocês aí, disseram-me, que os costumes se corrompem. E é porque o império se decompõe. É preciso endurecer as leis e inventar sanções mais cruéis. E cortar as cabeças daqueles que fracassarem.’ 
Eu, pensava, comigo:
‘Talvez seja preciso cortar cabeças. Mas a virtude é, de início, consequência. A corrupção dos homens é antes de tudo a corrupção do império que determina os homens. Pois se estivesse ele vivo e são, ele exaltaria a nobreza dos homens.  
Aquele que vem até mim com sua linguagem para apreender e exprimir o homem na lógica de sua exposição, parece-me semelhante à criança que se instala ao pé do Atlas com seu balde e uma pá, e formula o projeto de pegar a montanha e a transportar para outro lugar. O homem é o que é, não o que se exprime. Certamente que o objetivo de toda consciência é se exprimir o que é, mas a expressão é obra difícil, lenta e tortuosa, – e o erro está em crer que não é isso que não pode primeiramente enunciar. Pois enunciar e conceber têm o mesmo sentido. Mas é frágil a parte do homem, naquilo que eu até hoje aprendi a conceber. Mas, isso que eu concebi um dia não existia menos no dia anterior, e eu me engano se eu imagino que isso que eu não pude exprimir do homem não é digno de ser considerado.

Pois assim eu não exprimo a montanha, mas a significo [dou significado a ela]. Mas eu confundo significar e apreender. Eu significo a quem já conheça, mas aquele que a ignora, como saberei lhe transmitir esta montanha com suas ravinas de pedras rolantes e seus flancos de odores e seu topo escarpado rumo às estrelas? E eu sei quando esta não é uma fortaleza arrasada ou um barco sem direção do qual se solta a corda do anel de ferro para deslocar para onde quiser – mas existência maravilhosa com as leis de sua gravitação interna e seus silêncios mais majestosos que o silêncio da maquinaria das estrelas.
Fragments (I), (III) e (XVI) e (XXX)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Principezinho - Livro da semana

Uma vez, quando eu tinha seis anos, vi uma imagem magnífica num livro sobre a Floresta Virgem, chamado "Histórias Vividas". A gravura mostrava uma jibóia a engolia uma fera. Fiz-vos esta cópia.

O livro sizia que "a jibóia  engole a presa inteira, sem mastigar. Depois não se pode mexer e passa os seis meses de digestão a dorimir." 

Então, pensei e tornei a pensar nas aventuras da selva, peguei num lápis de cor e fiz o meu próprio desenho. O meu desenho número 1. Ficou assim:

Fui mostrar a minha obra-prima às pessoas crescidas. Perguntei-lhes se o meu desenho metia medo. As pessoas crescidas responderam-me: "Porque é que um chapéu havia de meter medo?"
O meu desenho não era um chapéu. O meu desenho era uma jibóia a fazer a digestão de um elefante. Para as pessoas crescidas entenderem porque as pessoas crescidas estão sempre a precisar de explicações, fui desenhar a parte de dentro da jibóia. O meu desenho número 2 ficou assim:

As pessoas crescidas disseram quer era preferível eu deixar-me de jibóias abertas e fechadas, e dedicar-me à geografia, à história, à matemática e à gramática. E assim abandonei, aos seis anos, uma magnífica carreira de pintor. Ficara completamente abalado com o insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas crescidas nunca entendem nada sozinhas e uma criança acaba por se cansar de lhes estar sempre a explicar tudo.
Escolhi, portanto, outra profissão e aprendi a pilotar. Conheci grande parte do mundo de avião. E, afinal, a geografia acabou por me prestar bons serviços. Saber distinguir a China do Arizona à primeira vista pode ser bastante útil depois de uma noite a voar sem rumo certo.
Com um trabalho deste género tive, evidentemente, uma data de contactos com muita gente importante. Vivi durante anos e anos no mundo das pessoas crescidas. Vi-as de bem perto. Não fiquei com muito melhor opinião delas. 

Mal encontrava uma com um ar um pouco lúcido, fazia-lhe a experiência do meu desenho número 1, que nunca deitei fora. Queria verificar se realmente era capaz de entender alguma coisa. Mas ouvia sempre a mesma resposta: "É um chapéu". Então, não me punha a falar de jibóias, de florestas virgens ou de estrelas. Punha-me ao seu nível. Falava de bridge, de golfe, de política e de gravatas. E a pessoa crescida ficava toda contente por ter conhecido um homem tão sensato.

Antoine de Saint-Exupery, O Principezinho. Editorial Presença. 32ª edição. 2009

segunda-feira, 9 de março de 2015

Voo Nocturno - Livro da semana

Título: Voo Noturno
Autor: Antoine de Saint-Exupéry
Edição: 1ª
Páginas: 215
Editor: Casa das Letras
ISBN: 978-972-46-2050-3
CDU: 821.131.1-93


Sinopse: Numa nova semana ainda sob o foco da cultura francesa e de um seus grandes nomes, justamente Antoine de Saint-Exupéry. Voo Nocturno dá-nos em livro, um autor maior da literatura universal. Nas suas páginas, revemos a nossa natureza exposta aos sonhos e aos desejos, de respirar com os outros novas dimensões de humanidade. Em Voo Noturno Saint-Exupéry dá-nos a descoberta dos grandes espaços, entre o mar e o deserto, na ousadia de superar as limitações do homem sobre a natureza. Um pouco auto-biográfico, Voo Noturno é um desenho de um Homem maior, aquele que enfrenta no ar todos os desafios ainda num tempo humano.