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quarta-feira, 26 de abril de 2017

26 de Abril - a manhã seguinte


A caricatura é uma forma de olhar a vida. Pode-se respirar e pensar que tudo é grande e imenso, ou fingir que qualquer miniatura é uma forma de decência. Podemos lutar por uma representação de direito natural, pensar que a nobreza de carácter supera a elite de sonhos deformados, ou só olhar as gotas de chuva como uma dádiva do universo. 
A liberdade de ser, de definir no real, a substância imprevista de amarmos a vida, de a inscrevermos numa ideia de dignidade ou tão só circunscrever cada sonho, aos seus passos perdidos. Entre o esquecimento, do cansaço e a orquestra política, percebemos mal o movimento e a nossa oportunidade de inscrever a vida em algo sublime. Tem sido esse a nossa maior pobreza. 
Há três anos Ricardo Araújo Pereira escreveu, para os sábios oficiais, como a nossa paralisia é ainda uma forma de ser, como o país bloqueado é um testemunho de escolhas insignificantes para a consciência de ser livre. Vale a pena ouvir esta peça de inteligência e conhecimento sobre nós próprios. É dele que se pode partir para algo mais livre. Celebrar o 25 de Abril deve também servir para compreender o que falta num caminho muitas vezes feito de sombras. A ouvir, no link acima. 
Imagem - Ainda a matinal alegria da esperança: Copyright - Eduardo Gageiro

terça-feira, 25 de abril de 2017

25 de Abril - Os sons




Três momentos, dos muitos que fizeram um movimento de esperança e alegria. Carlos Paredes foi essa alegoria de um som capaz de transportar as vivências de um povo e de uma cultura. Paulo de Carvalho, E depois do adeus, a canção de uma despedida de um mundo para o nascimento difícil e só e o poema de José Fanha sobre essa tentativa de ilustrar o que é a portugalidade, entre o silêncio da noite e a esperança da manhã.

25 de Abril - As imagens e as palavras


"(...)Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
Para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que o poema faça um poeta de cada
Funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo  acorde no lusíada
A saudade de novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui".

Manuel Alegre, "Poearma", in Poemas de Abril

25 de Abril - a memória de uma alegria

O 25 de Abril é uma data incontornável do século XX português. Para as novas gerações essa data surge com a distância com que ouvem falar de outras que são objeto de estudo. O 25 de Abril surge como uma data tão próxima como a Revolução Francesa ou Americana. A sua proximidade não lhe traz mais possibilidades. O País hoje é outro e a memória não é muito exercitada. O tema aparece com sorte duas, três vezes entre o início do Básico e o fim do Secundário.

Esses foram dias de uma alegria muito viva, dias onde a manhã como disse Sophia parecia nascida de encontro a todas as possibilidades, a toda a criação nossa, "a substância do tempo."  Baptista-Bastos escreveu há anos um texto curto e que nos dá a ideia dessa alegria formadora de possibilidades. Desse dia a memória de um homem, dos mais raros que o País alguma vez teve e que tentou iluminar um caminho, como Sophia disse, "a partir da página em branco". O homem que ofereceu o seu gesto sem nada receber. Foi ele o herói de uma alegria. Salgueiro Maia foi esse homem do mais genuíno e puro que pode significar o amor aos outros. Abaixo, o texto de Baptista- Bastos.

Contarás de Abril, aos meus filhos, que os meus olhos ardidos, urbanos, ficaram cheios de um ofício de dizer coisas singelas, humildes: como amor, liberdade. Contarás de Abril os idos e os que voltaram, os que ficaram e ficam. Contarás de Abril pequenas pilhas de palavras, armazenadas numa necessidade que inventei; e as nossas almas ledas e limpas: e os braços que se estendem a outros abraços; e a cordialidade de anotarmos um nome, um número, uma flor: e os balaios sem reticências de mágoas, cheios de trissos de aves, de pássaros remotos de que ignorávamos a voz ou havíamos esquecido o toque e a fímbria. 
Contarás de Abril que na nossa terra já não apodrecem as raízes e que já não adiamos o coração; que já não nos dói a velhice e que os rios são todos nossos e íntimos e que já não perdemos a infância e que nascem crianças insubmissas e claras e livres. Contarás de Abril a espessura mágica, o punho reflexo, o dia de água, a lágrima, a vontade de sermos e de estarmos, o límpido grito, a forma inconsútil, o vermelho e a brisa, o livor das coisas, a maravilha discreta de assear a vida, o caminhar, os restos nesta dócil pausa e neste imenso perdão. 
Contarás de Abril as casas de mil sóis, a imponderável descoberta dos sussurros, a brancura inadiável da perseverança, o resplandecente varar dos dias, a feira alvoroçada das horas. Contarás de Abril as mãos dadas. Contarás de Abril o renascer da essencial frescura. 

Baptista-Bastos, "Contarás 25", in O Diário, 25-4-90
Para um conhecimento do que foi esse dia, um conjunto de materiais sobre o 25 de Abril, de modo a proteger a memória. Aqui.

25 de Abril - uma ideia de nascimento

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, “25 de Abril”, in O Nome das Coisas. Lisboa: Caminho.
Imagem -  Copyright: http://urbansketchers-portugal.blogspot.pt