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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Patagónia Express - Livro da semana

Título: Patagónia Express
Autor: Luís Sepúlveda
Edição: 1ª
Páginas: 149
Editor:Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04369-6
CDU: 821.134.2(83)-992"19/20"

Sinopse: Os índios da Patagónia mantiveram uma longa relação com a quila e não só pela bondade da sua utilização como igualmente pelas suas virtudes de trágico e infalível oráculo. Sempre que floresceu a quila advieram tempos de dor e desolação. A sua flor é de uma intensa e premonitória cor vermelha, e os Tehuelches calculavam a sua idade consoante o número de vezes que a tinham visto florescer. Os que foram testemunhos daquele portenho mais de duas vezes tinham certamente muito que contar ao calor das fogueiras.
    Hoje restam poucos Tehuelches e Mapuches na Patagónia. São sobreviventes que, agarrados à sua dignidade, decidiram não ser maisum simpático pormenor étnico para diversão dos turistas, e vivem e excercem uma espantosa cultura de resistência e de memória de ambos os alados da cordilheira dos Andes. As restantes etnias sucumbiram perante as regras de um processo cujos frutos ninguém é capaz de definir, e delas mal persistem as recordações ou testemunhos reunidos por alguns estudiosos que realizam o seu trabalho vigiados pelos preconceitos e a suspeita. É muito difícil escrever a história dos vencidos, mas a quila continua lá, crescendo nos desfiladeiros, unida pelos invernos ao errante destino dos gaúchos pobres.
    Quando o mês de março encurta os dias, as abetardas cruzam o céu fugindo aos rigores invernais e o vento amontoa as nuvens nos vales, então os gaúchos reúnem os rebanhos de reses e empreendem a subida em direcção à cordilheira, para a estação do inverno. Não são muitos os bovinos nessa terra débil onde primeiro pastaram os guanacos e que mais tarde foi pisada por milhões de ovelhas na época dourada da lã. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Luís Sepúlveda

Luís Sepúlveda é com Garrett o escritor do mês na Biblioteca. O escritor chileno tem feito da sua experiência de vida um conhecimento que o faz refletir sobre o mundo. Reflexão onde se deve destacar esse edifício que procura levantar em palavras e gestos um testemunho de solidariedade pelas vozes esquecidas das culturas e povos da América do Sul. 

Luís Sepúlveda nasceu em 1949, em Ovalle, no Chile. De estudante do Maio chileno de 69, a companheiro e guarda pessoal de Salvador Allende, a guerrilheiro na Nicarágua, a preso político, a ativista da Amnistia Internacional, o escritor tem tido uma vida cheia de experiências, emoções e recordações. Memórias de um tempo histórico violento, mas rico em vivências. A sua obra é um testemunho de uma estética que procura na vida real construir uma ética sobre os valores humanos e sobre os sonhos de minorias.  

Com ele descobrimos a tradição da oralidade, o valor das histórias contadas em múltiplas aldeias, uma respiração própria, na autenticidade que o centro globalizado muitas vezes desconhece e ignora. Com ele descemos aos povoados solitários da Patagónia, aos caminhos de vento, aos abetardos, ou às gaivotas de tom cinzento que se lançam nesse puro frio que já se anuncia nas proximidades do estreito de Magalhães.

Os seus livros são a tradução de um imaginário, de uma memória e de uma cidadania, em defesa dos mais fracos, dos ausentes; eles são a confirmação de que a literatura também é uma inspiração para a vida e com ela. Na próxima semana, deixaremos um boletim bibliográfico com destaque para as suas principais obras.