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quinta-feira, 4 de maio de 2017

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (II)

"Eu esperava ser tocado pela elegânica, não pela imortalidade. (...) É uma prova daquilo em que acredito; as pessoas podem viver juntas, mantendo intactos os seus próprios valores. Ver aqui esta quantidade  enorme de gente de vários países toca o meu lado humano, o meu lado intelectual."

A cidade como um território de conhecimento, o espaço físico, social e cultural onde cada um estabelece relações de proximidade e de quotidiano. A cidade como espaço individual, de conquista de sonhos, da ternura escondida nos olhos, na luz das estrelas que nos visitam entre a dança das nuvens.
A cidade como construção, entre a solidão dos passos conquistados ao tempo. Num território com tantos olhares, o que podemos concretizar de descoberta, de encontro em avenidas de luzes, onde cada solidão tenta respirar uma possibilidade. A cidade, os nossos passos no desejo de conhecimento e conquista dos sorrisos e abraços que nos envolvam nas esquinas que percorremos entre as luzes e a solidão.  

Cidade Aberta, no sentido de um espaço social e cultural que se deixa conhecer, onde uma multidão de pessoas de diferentes origens convivem, onde experimentam a vida, a sua continuidade entre os dias novos e os espaços da memória. Cidade Aberta reflecte sobre esse encontro, sobre a nossa presença no quotidiano, sobre o multiculturalismo e o que significa ser estrangeiro numa cultura, o que significa a individualidade numa sociedade de écrans. 
Cidade Aberta é sobre esse espaço cultural e humano intrigante que é Nova Iorque, como a poderíamos habitar, como a vemos, como a poderemos viver com a insegurança, o medo, a perda que significou ali estar após o onze de Setembro. Teju Cole, pela voz de um médico nigeriano, Julius tenta fazer esse caminho. Um caminho onde o sofrimento e a solidão se realiza entre as dúvidas e a esperança de descoberta em cada esquina, em cada rua. 

Cidade Aberta procura ver, mais que olhar e tentar encontrar-se na Big Apple com o outro, com a sua descoberta para a construção de uma identidade, embora saibamos que assim sendo cidade aberta não deveria ser esse território de solidão e tantas vezes abandono. A fragilidade de tantos indivíduos e o modo como num espaço de consumo material as diferenças podem ser questionados, dará à individualidade possibilidades de ser aceite? 
Pode a igualdade ser diluída num mar de ideias vazias para com a respiração de cada um? Um livro imenso sobre a cidade, e a incessante luta da liberdade para configurar as possibilidades humanas que uma solidão numa cidade pode esvaziar e limitar o discernimento para se encontrar com os outros. É neles, nos habitantes da cidade aberta que a sociedade como um cosmos se desenvolve e onde o valor individual se inscreve.

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (I)

Nunca imaginei que fosse possível vê-las, com a poluição de luz a envolver perpetuamente a cidade e numa noite em que estivera a chover. Mas a chuva tinha parado enquanto eu descia as escadas e tornara o ar límpido. (...) Estrelas maravilhosas, numa nuvem de pirilampos ao longe: mas eu sentia no meu corpo o que os meus olhos não podiam alcançar, ou seja, que a sua verdadeira natureza era o persistente eco visual de algo que pertencia já ao passado. (...) nos espaços escuros entre as estrelas mortas, a brilhar, havia outras estrelas que eu não podia ver, estrelas que ainda existiam e emitiam uma luz que ainda não tinha chegado até mim, estrelas vivas e a emitir luz, mas para mim apenas presentes enquanto interstícios vazios. A sua luz acabaria por chegar à Terra, muito depois de eu e a minha geração e a geração seguinte nos encontrarmos fora do tempo (...). Olhar para esses espaços escuros era como ter uma perspetiva direta do futuro.
Teju Cole. (2012). Cidade Aberta. Lisboa, Quetzal.