Mostrar mensagens com a etiqueta Livros do mês - maio (2016). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros do mês - maio (2016). Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A menina dentro da cereja - Livro da semana

Título: A menina dentro da cereja
Autor: Álvaro ManuelRichard Bach
Edição: 2ª
Páginas: ...
Editor: Editorial Presença
ISBN: 978-972-23-5552-0
CDU: 821.134.3-31"19/20"
Sinopse: É verdade: no fundo, nunca se regressa a nada. Mas temos, muitas vezes, a ilusão de regressar. E agarramo-nos a essa ilusão desesperadamente, como se ela não fosse, de facto, uma ilusão, apenas isso. Agarramo-nos como náufragos no meio de um oceano em plena tempestade se agarram a uma tábua pensando salvar-se. Pura ilusão. (p. 69)

A menina dentro da cereja é um livro sobre uma família, sobre este país parado no tempo, uma sociedade bloqueada, sobre os sonhos de infância, essa geografia de liberdade, do vento do rosto e dos adultos, estranhos como o mundo. A menina dentro da cereja é um livro sobre a adolescência, sobre os fragmentos de verdade, a loucura imanente da vida social que desenham escolhas e opções e fazem naufragar os sorrisos breves e encantados dos sonhos. 

A menina dentro da cereja é sobre esse tempo em que a casa parece guardar os mais novos do furor do mundo e cuja ferocidade nos faz perder o encanto de manhãs em perfumes de inocência. A menina dentro da cereja é um livro sobre os adultos, as suas estranhas relações, os seus percursos dominados por referências sem tempo. A menina dentro da cereja podia ser o retrato de uma geração que tem dificuldade em ligar a sua respiração e a memória. É sem dúvida um livro sobre esse País esquecido de si, dominado por políticos tecnocratas, onde uma sociedade sem referências tenta sobreviver ao lado de movimentos individuais dos que tentaram nas suas memórias, padrões de referências, regressos a uma qualquer substância. 

A menina dentro da cereja é um livro sobre a nossa solidão, as estranhas figuras de um país velho, onde o amor poucas vezes pode esquecer um quotidiano burocrático. A menina dentro da cereja dá-nos os caminhos de desencontros de personagens que conhecemos. O Porto aristocrático e as suas brumas de mistério, onde uma família se desconhece com os fragmentos de episódios de vidas consumidas em excessos e em padrões aparentes de memória. O país da geração que estudou e não encontrou uma verdadeira oportunidade, onde, em caminhos desencontrados procurou um sentido para a sua existência. A menina dentro da cereja é um exemplo vivo e esclarecedor de como a Literatura tem mais ferramentas que a História, que as Ciências Sociais para desmontar estruturas mentais, processos políticos e quadros sociais. 

A crise real do país, é essa continuidade de um tempo longo, essa estagnação que tirou realismo à vida das pessoas, desligando gerações e fez em cada um passos solitários, alegrias breves. E sobretudo, essa ilusão de referências, de regresso ao que já não existe, a artefactos onde já só moram fantasmas e pó. É a partir destes que importa recomeçar, ou tão só continuar, sabendo que o caminho somos nós, ou formas descontinuadas de tristeza e esperança.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Quando fui outro - Livro da semana

Título: Quando fui outro
Autor: Luis Ruffato
Edição: 1ª
Páginas: 234
Editora: Alfaguara
ISBN: 978-989-672-042-1
CDU: 821.134.3-1"19"
Sinopse: Quando o lemos interrogamos o real continuamente e verificamos que parcela de identidade se nos compõe. Em cada leitura descobrimos palavras novas, significados diferenciados. Em cada página que ele nos dá pensamos nesse pedaço de eternidade que é o presente, ameaçado pela efemeridade dos instantes quase incandescentes e o futuro maravilhado em tantas linhas de horizonte. Em cada uma das suas páginas um exército de críticos e analistas enquadra-o em heterónimos, em possibilidades, em estados de espírito, em sensações múltiplas. As suas páginas são também a sua biografia. Ele concedeu-nos essa unidade desafiante que se confronta com o sentido que o real nos dá em oportunidades difusas e multicolores.

A sua biografia é uma impressão, um gesto de uma genialidade complexa e universal. Foi com ele que atingimos a universalidade dentro de um particular de pouca grandeza, onde sabemos distinguir a palavra, a dúvida e o sonho. Inventou, num mar de aparente solidão, uma nova forma de apresentar as palavras, de desenhar ideias de futuro, construindo uma língua, uma literatura.
Ele somos todos nós. Aqueles que ele inventou nos quotidianos onde tantos seres particulares ganham a sua originalidade, a sua universal humanidade. Se há poeta, se há escritor, se há literatura, ele é tudo isso. É a demonstração de que um país é a sua cultura, a sua língua, as suas pessoas, a sua individualidade. Luis Ruffato olhou para esta universalidade e deu-nos um livro que seleciona os poemas dos principais heterónimos, sem os enquadrar nesse sentido, antes, organizando a poesia de Fernando Pessoa em temáticas que o permitem compreender. 

Da estranheza da alma, à ideia de renúncia do pensamento, ao sofrimento de cada um, num mundo sem referências, do cansaço como um barco numa praia deserta, às convenções sociais e às sua infelizes consequências nas realidades naturais, o amor que nos desafia belo e inútil, que não se revela numa vida breve. Luiz Ruffato tentou compreender a unidade de Pessoa e entender na sua obra literária o que ele próprio foi.

Descobriu aquilo que torna Pessoa universal, a ligação profunda entre arte e vida, procurando ultrapassar as sombras que nos cercam e encontrar "essa outra coisa linda", que somos nós próprios. Com esta antologia vemos melhor a grande dádiva que Pessoa deu à língua, forma de expressão e renovação de quem com ela quiser nascer. Ainda e sempre a grande função da literatura, inventar mundos, ou a esperança de sobressair sobre esse desamparo da vida, esse tempo longo, de vidas breves, como as nossas.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Fantasmagorias - Livro da semana

Título: Fantasmagorias
Autor: Virginia Woolf 
Edição: 1ª 
Páginas: 67
Editora: Feitoria dos Livros
ISBN: 978-989-8775-73-3
CDU: 821.111-4"19"
Sinopse: Ela foi e é uma das grandes escritoras do século XX com a atribuição que isso tem de relativo, pois a sua escrita congelou comportamentos e formas de humano que ultrapassam muito o seu tempo. A sua vida foi um contraste de emoções, angústias e momentos de clarividência que deixou em livros como As Ondas, Mrs Dallowway ou Orlando. Londres foi matéria-prima da sua escrita e neste pequeno livro agora editado, a propósito de comprar um lápis é feita uma viagem pela cidade. Faz-se a descrição sobre o que a viagem nos pode trazer, mesmo em espaços próximos do local onde se habita. Recuperar as memórias de espaços com multidões, onde muitas histórias se perdem é a linha condutora deste pequeno livro de 1927, publicado agora através de uma nova editora, A Feitoria dos Livros. Livro ricamente ilustrado com fotografias do quotidiano de Virginia Woolf e dos espaços citadinos de Londres no final da década de vinte do século passado.
Nunca aconteceu, talvez, alguém sentir-se apaixonadamente distraído por um simples lápis. Mas há circunstâncias nas quais o desejo de possuir um se pode tornar absolutamente avassalador; momentos em que, sob pretexto de possuir um objecto, estamos a inventar uma desculpa para calcorrear metade de Londres entre a hora do chá e a hora do jantar. (...)
protegidos por este argumento nos pudéssemos entregar, em segurança, ao mar dos prazeres com que a vida citadina nos alicia durante o Inverno - deambular pelas ruas de Londres. Convém que a hora seja ao cair da tarde, e a estação o Inverno, pois no Inverno o brilho esfuziante do ar e a sociabilidade das ruas são compensadoras. Não nos sentimentos atormentados, como no Verão, pelo desejo de sombra, de isolamento e do ar suave dos campos de feno. E também porque o cair da tarde nos permite sentir a irresponsabilidade que a escuridão e a luz dos candeeiros concedem. Já não somos exactamente os mesmos.
Assim que pomos um pé fora de casa, entre as quatro e as seis horas de uma bela tarde, largamos o eu pelo qual os amigos nos conhecem, e tornamo-nos parte daquele vasto exército republicano de vagabundos anónimos cuja companhia é tão agradável, depois de termos estado no retiro daquele quarto só nosso. Porque neste permanecemos rodeados de objectos que expressam, de modo eterno, a singularidade dos nossos temperamentos e reforçam as memórias da nossa experiência.
             Virgina Woolf. (2016). Fantasmagorias. Lisboa: Feitoria dos Livros, pá. 29 e 31 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Flores - Livro da semana

Título: Flores 
Autor: Afonso Cruz 
Edição: 1ª 
Páginas:275
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-989-8775-73-3
CDU: 821.134.3-31"20"
Sinopse: Sou uma flor, daquelas que nascem nos cemitérios. Há uma veia que atravessa os séculos e que nos transforma em mitos. Guardo essa espécie de doença como uma gravidez, a esperança de que o amor me desenterre, me salve da morte, que abra a terra e do seu ventre tire uma nova vida, plena. Talvez ninguém se lembre de que somos todos mais antigos do que achamos. A nossa vida não começa no hospital ou nas mãos de uma parteira, mas sim na História, nos outros, nas vidas que nos precederam. Nascemos no mesmo dia em que o Universo nasceu, na mesma explosão. Eu, evidentemente, não sou excepção.O meu cartão de cidadão não tem o nome Inês de Castro, mas eu sou a Inês de Castro. Serei levantada do chão, porão uma coroa na minha cabeça. A vida eterna depende do amor dos outros, são eles que escavam a terra com as suas unhas e nos salvam do lugar frio e amorfo a que todos fomos condenados. Os nossos acidentes são diferentes, mas a essência, o osso do que somos é o mesmo. O tempo não nos separa, somos no presente uma face do passado, um novo ângulo do que já aconteceu.
(...)

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Esta distante proximidade - Livro da semana

Título: Esta distante proximidade 
Autor: Rebecca Solnit 
Edição: 1ª 
Páginas:291
Editora: Quetzal
ISBN: 978-989-722-221-4 
CDU: 821.111(73)-34"20"
Sinopse: É um dos grandes livros publicados no último ano. Teve o National Book Award nos estados Unidos e é um livro sobre os livros, sobre a vida, sobre as histórias que se entrelaçam dentro de nós. As histórias do quotidiano, tão simples como os damascos que amadurecem, a memória das pessoas que passaram na nossa vida, a sua lembrança, ou ainda as linhas vermelhas como sangue que nos unem aos outros, mas também pela generosidade e imaginação ao que ouvimos e lemos.

"Qual É A NOSSA HISTÓRIA? Tudo está no contar. As histórias são bússolas e arquitectura; navegamos por elas, construímos os nossos santuários e as nossas prisões com elas, e não ter uma história é estarmos perdidos na vastidão do mundo que se espalha em todas as direções como a tundra ártica ou o mar de gelo. Amar alguém é pormo-nos no seu lugar, dizemos, que é pormo-nos na sua história, ou descobrirmos como contar a nós próprios a sua história.
O que significa que um lugar é uma história, e as histórias são geografias, e empatia é antes de mais nada um ato de imaginação, uma arte de contar histórias, e ainda um modo de viajar de um lugar para outro.  (...)

Contamos histórias a nós próprios a fim de vivermos, ou justificarmos tirar vidas, mesmo a nossa, pela violência ou indiferença e a incapacidade para viver; contamo-nos histórias que nos salvam e histórias que são areias movediças onde esbracejamos  e o poço onde nos afogamos, histórias de justificação, de maldição, de sorte e de amores infortunados, ou versões envoltas em cinismo que por vezes é uma roupagem bastante elegante. Por vezes a história desmorona-se e exige-nos reconhecer que fomos confusos, ou péssimos ou ridículos ou simplesmente que emperrámos; às vezes a mudança surge como uma ambulância ou um lançamento de ajuda em paraquedas. Não são poucas as histórias que são barcos que se afundam, e muitos de nós afundam-se juntamente com estes barcos memso quando os salva-vidas vogam à nossa volta. (...)

Pensamos que somos nós a dizer as histórias, mas muitas vezes são as histórias que nos dizem, dizem-nos para amar ou para odiar, para ver ou para sermos cegos. Muitas vezes, demasiadas vezes, as histórias põem-nos uma sela, cavalgam-nos, incitam-nos com uma chicotada, dizem-nos o que temos de fazer e nós fazemo-lo sem mais perguntas. A tarefa de aprender a ser livre exige aprendermos a ouvi-las, a fazer pausas e a ouvir o silêncio, a saber o seu nome, e depois tornarmo-nos contadores de histórias. Por vezes a chave chega-nos muito antes da fechadura. Por vezes há um história que nos cai no regaço." 

Rebecca Solnit, Esta Distante proximidade. (2015). Lisboa: Quetzal, páginas, 12.- 15.