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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Os níveis de vida - Livro da semana

Título: Os níveis de vida
Autor: Julian Barnes
 Edição: 1ª
 Páginas: ...
Editor: Quetzal
ISBN: ...
CDU: 821.111-31"19/20"

Perdemos o mundo por um olhar? Claro que sim. É para isso que o mundo existe: para se perder na altura certa." (1)


Um livro sobre nós, sobre os gestos que nos fazem juntar os objectos, os caminhos, na transformação do mundo, a  que acabamos por dar um contributo. Dos níveis de vida que de modo diferente vivemos. Nos sonhos dos espaços, onde a liberdade é maior que qualquer convenção ou poder político. 


Na descoberta por encontrar novas ideias, novos artefatos, novas formas de compreender o espaço que nos rodeia, novas possibilidades de nos vermos. Na normalidade dos hábitos, do que aspiramos, da levitação que ensaiamos chegar a pontos de eternidade efémera, seja no amor, na arte, na viagem.

Níveis de vida onde nos tentamos encontrar, redigir padrões, manter-mos a suspensão nas nuvens, mesmo quando a realidade é concretização da imaginação. Nesses pontos onde tentamos criar um mundo moral feito de verdade, de magia, de cintilação. E também de perda, dessa ausência incompreensível do rosto. E do universo, sempre e só na sua construção funcional.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Livro da semana - O mundo

Título: O mundo
Autor: Juan José Millás 
Edição: 1ª 
Páginas: 174
 Editor: Planeta
 ISBN: 978-989-657-003-3
CDU821.134.2-31"19/20"

"As tardes mortas, com a perspetiva que dá o tempo, acabaram por ser as mais vivas da minha existência. Foram elas, para o bem ou para o mal, que me fizeram; daquelas tardes por onde deambulei ocioso, como um fantasma, nasci. (...) 

E o que vi, sobretudo, foram as ligações invisíveis que uniam tudo, e eram tão sólidas, as ligações, que na realidade profunda tudo era a manifestação de uma vida. Aquela diversidade estava ao serviço da unidade, pois só havia uma coisa, a minha rua, quer dizer,a Rua, ou seja, o mundo." 

No dia mundial da criança, um livro sobre cada de um de nós e essa experiência da infância e de como ela molda a vida. Todos nós somos diferentes e vivemos experiências de infância particulares. De algum modo a infância torna-se uma rua, onde crescemos, onde vimos o mundo e a partir do qual construímos a nossa própria forma de ser. Juan José Millás escreveu um livro sobre a sua infância e também sobre o seu mundo.

Há livros assim. Livros que entram em nós como um vento, inundando todos os momentos por onde as palavras respiram o que viveram e o que construíram, entre o silêncio e o pavor de desencontros. A voz que se esquece de si no mundo que não se entende, nos milagres que não presenciamos, nos lugares que são pouco nossos. Há livros que aspiram a contar-nos as experiências de sal e lágrimas com que muitas vezes crescemos, na incompreensão de uma festa onde somos pouco acolhidos.

O mundo é um desses raros livros, onde a infância marca uma vida, o seu frio e o seu vento, e onde, entre o maior desconforto e a maior solidão, se procura construir vidas reais. Realidade forjada, a partir de uma ficção vivida, dos seus ciclos, de tudo o que não entendemos e que permanece em nós. Um livro sobre a infância, na Espanha do franquismo, sobre os adultos e a sua solidão feita de medos e sobre uma sociedade de pobreza, de carência, que renega a memória de cada um, a sua participação no real.

Um livro sobre a dificuldade de cada criança em ser aceite, do social como linha forçada de uma individualidade pouco compreendida e das feridas que da infância trazemos para os mundos irreais de onde tentamos renascer. Um livro que é uma memória de um tempo, de uma geração de um mundo que se fazia e criava na rua que nos fazia crescer. Ainda lá estamos, mesmo que já lá não vivamos, pois os seus cheiros e as suas cores ainda nos acordam em muitos momentos.