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quarta-feira, 24 de maio de 2017

A palavra e o mundo - Mozart (II)

«Aquele que possui em si a plenitude da virtude
É como uma criança acabada de nascer» (1)

Mozart e a sua família viajaram por diferentes cortes. Nelas, o jovem Mozart tentou revelar os seus excelentes dotes musicais. As cartas, por ele deixadas e escritas à sua família, quando já era adulto revela-nos um compositor habitado por elevados valores humanos. Revela-nos que as suas dificuldades financeiras foram muito devidas à sua ingenuidade, a essa ideia de que o génio, a capacidade de fazer será sempre reconhecida pelos outros. No século XVII os serviçais da Corte ainda valiam mais que um músico, mesmo do valor de Wolfgang Amadeus Mozart.
Mozart é um dos mais elevados marcos da música universal e do pensamento. Criança prodígio na execução dos sons, compositor de centenas de obras musicais tentou por sua conta e risco mostrar o seu talento sem a sombra de patronos. Tendo sido um dos maiores compositores universais onde a complexidade nos é transmitida de forma simples, morreu jovem. Homem otimista, esforçado nas suas tentativas para ser livre, viu postumamente o seu génio ser reconhecido. Músico brilhante nunca quis abdicar da sua honra e da sua consciência, mesmo perante os mais poderosos.

Mozart é igualmente um marco na história do pensamento porque representou um esforço para libertar a sociedade humana do controle realizado por aquilo que foi chamado A Cidade de Deus. No século XVII a Europa Continental ainda estava longe de tolerar diferenças religiosas. Algumas das óperas de Mozart, procuraram mostrar que no serviço a Deus existiam diferentes caminhos. A tolerância e a procura do próprio conhecimento é um direito do Homem. Don Giovanni representa a tentativa de procurar esse caminho novo, ao encontro de uma liberdade que seja acessível ao género humano.

A condenação final que ouvimos em Don Giovani é ainda a confirmação de uma sociedade velha onde o controle apertado da religião sobre os indivíduos é manifesta. De uma forma geral, pelos sons que criou Mozart, perto dos finais do século XVII, ajudou a construir esse trajeto que levaria à liberdade individual do Homem «e à possibilidade de este criar o seu próprio caminho. Naturalmente pela vida que teve e pelo património que deixou, podemos concluir com Zhu Xiao - Mei «Mozart é uma criança (...) que tudo conheceu. Uma criança que teve a profundidade de um velho sábio».

(1) Zhu Xiao-Mei. (2007). O Rio e o seu Segredo. Lisboa: Guerra e Paz.
Imagem - As viagens entre as Cortes da Europa
Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A palavra e o mundo - Mozart (I)

A vida de Mozart foi também uma viagem que ele retratou em palavras e sons. Foi igualmente uma viagem feita de um génio humano, de determinação, vontade, mas sempre preenchida pela consciência da sua voz. As suas cartas é o livro em destaque nestes últimos apontamentos de #A palavra e o mundo.

"Ainda estou vivo, e muito bem disposto (...) temos a honra de conviver com um certo dominicano, que é considerado santo. Eu não acredito (...)" - 21 de Agosto de 1770

"(...) no aposento do imperador se toca música que afugenta os cães." - 13 de Novembro de 1777

"(...) outros, que de mim não sabem nada, observam-me com olhos grandes, igualmente risíveis. Pensam que, por eu ser pequeno e jovem, não poderá haver em mim nada de grande e adulto (...) - 31 de Outubro de 1777

"Dêem-me o melhor piano da Europa, mas com uma audiência que nada percebe, ou que nada quer perceber, e que não sente comigo aquilo que toco, e perderei todo o prazer (...) Pois também aqui tenho os meus inimigos, mas onde é que os não tive? No fim de conta, é sempre um bom sinal (...)  Se houvesse aqui um sitio onde as pessoas tivessem ouvidos, um coração para sentir e percebessem apenas um pouco de musique, e tivessem gusto, então rir-me-ia destas coisas de todo o coração, mas assim encontro-me entre meros brutos e bestas (no que diz respeito à música)" - Paris, 1 de Maio de 1778

"(...) vejo por aqui tantos medíocres que fazem carreira, e eu com o meu talento não deveria ser capaz?31 de Julho de 1778 

"(...) infelizmente acredita mais no falatório e rabiscos de outras pessoas que em mim (...) permanecerei o mesmo homem honrado de sempre (...) [falando do pai e da incapacidade deste em compreender o sentido de liberdade e consciência]" - 5 de Setembro de 1781

"(...) a minha honra está para mim (...) acima de tudo. - 19 de Maio de 1781                          

  Wolfgang Amadeus Mozart. (2006). Mozart - Uma vida secreta - Seleção Epistolar. Lisboa: Cavalo de ferro.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Mozart: uma vida secreta - livro da semana

Título: Mozart, uma vida secreta
Autor: Wolfgang Amadeus Mozart
Edição: 1ª
Páginas: 155
Editor: Cavalo de ferro
ISBN: 989-623-020-X
CDU: 82-6

Sinopse: 

Conhecemo-lo pela genialidade da sua música. Foi sem dúvida um expoente de uma expressão cultural, a perfeição pela simplicidade daquela forma de composição. 

Mas foi mais do que isso. Representou uma ruptura no caminho difícil de permitir ao Homem construir o seu conhecimento do Mundo, formulando um caminho. Incompreendido, lutou sempre usando a liberdade e a convição. 

Se a música o eternizou nessa perfeição de quem canta com os anjos, a sua atitude, a sua rebeldia de se afirmar pelo seu talento, acima dos protocolos da corte e da mediocridade de tantos foi um exemplo inspirador. No século XVII um cozinheiro, um funcionário da corte ainda vale mais do que um músico, mesmo que ele se chame Mozart e encante os anjos. Foi esse o seu erro, a ingenuidade de quem acredita sempre no valor do belo acima de qualquer outra dimensão. Nesta Vida Secreta, as suas cartas à família denunciam os seus valores essenciais que a sua música sempre exprimiu. Alguns excertos:

"Dêem-me o melhor piano da Europa, mas com uma audiência que nada percebe, ou que nada quer perceber, e que não sente comigo aquilo que toco, e perderei todo o prazer. (...) mas sabia também que não podia agir de forma diferente sem faltar à minha consciência e à minha honra. (...) 

Se podemos chamar divertimento livrarmo-nos de um príncipe que não nos paga e abusa de nós até à morte, então é verdade, estou divertido, (...)" Bem", disse ele, "parece-me que aqui dificilmente conseguirá fazer um bom trabalho", "Porquê?" Vejo por aqui tantos medíocres que fazem carreira, e eu com o meu talento não deveria ser capaz? (...) Pois também aqui tenho os meus inimigos, mas onde é que não os tive? No fim de contas, é sempre bom sinal".