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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Conteúdos na rede (Uma leitora por dia) - (IV)


Uma leitora por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
A leitura também foi e talvez ainda possa ser considerada uma terapia. Gwen John foi uma importante pintora do princípio do século XX, natural de Inglaterra e que pintou por diversas vezes o mesmo motivo, uma mulher em convalescença e a ler. A imagem de jovens mulheres cansadas, debilitadas e em grande esforço de recuperação é um sinal desse início de século que também provocava hipersensibilidade e doenças nervosas. A arte revelaria este estado vivido pelas pessoas. Marcel Proust considerava que a leitura poderia recuperar pessoas desse estado, sem necessidade de médico. A leitura seria para Proust um "remédio" que cada ser nesse estado conduziria em autonomia. A leitura era pois a suprema forma de uma cura de uma sociedade cada vez mais industrializada e massificada. Atualmente em países onde as bibliotecas são pioneiras de apoio a comunidades discute-se a importância de uma biblioteca de pessoas, uma biblioterapia. Pessoalmente penso que as Bibliotecas devem evoluir para esse conceito e deixarem de ser sobretudo repositórios de informação. É uma ideia que nos leva a Gwen John e ao seu quadro de 123-24.
Gwen John, A Convalescente, 1923-24
Fitzwilliam Museum, Universidade de Cambridge
‪#‎Umaleitorapordia‬

Conteúdos na rede (Uma obra de arte por dia) - (IV)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real!
A terminar o mês, ainda Amadeo de Souza-Cardoso!
A Imagem Irradiante parece-nos um foco de luz que ele próprio descreveu em palavras, essa iluminação da alma oculta. Amadeo foi mais que um pintor, foi uma figura fascinante que importa conhecer melhor, pela correspondência que deixou e que aqui se deixa um exemplo:
"Ontem falei no espelho, o que me sugere
hoje a ideia de falar na imagem.
Mas não é a imagem reflectida que
eu quero acentuar, é a imagem
irradiante, aquela que poderei
comparar ao disco do sol que ilumina e aquece.
A imagem do espelho
é aparente, exterior nunca
por ela pode decifrar um
só traço daquilo
a que eu chamo a minha
alma oculta.
Ao passo que a imagem
irradiante é a que como
o sol se infunde
para nos iluminar a tal
alma oculta".
Amadeo de Souza-Cardoso (2008). Catálogo Raisonné. Lisboa: Assírio& Alvim, p. 37
Pintura – Guitarra, Cera s/ tela, 35 x 29cm, c.1916
Doação de D. Lúcia de Souza-Cardoso
‪#‎Umaobradeartepordia‬

Conteúdos na rede (Um poema por dia) - (IV)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
"Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos. (...)
Roga que tua rota seja longa,
que, múltiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatos, quantos puderes achar.

Ítacas, de Konstantinos Kaváfis.
#Umpoemapordia

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Conteúdos na rede (Uma leitora por dia) - (III)

Uma leitora por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
Na cultura medieval as representações da Anunciação eram pouco comuns. Foi durante o Renascimento, quando a sua representação já não era uma raridade que surgiu uma das mais emblemáticas. Trata-se da Anunciação pintada por Simone Martini, de 1333. A figura de Maria aparece numa imagem sobressaltada, quase a recusar o encontro com o anjo, aconchegando o manto ao peito e mantendo o livro aberto, no sítio onde a leitura tinha sido interrompida. Estamos perante um livro de Horas. Estes livros eram utilizados como objectos pessoais de devoção e também serviam para ensinar as crianças a ler. O quadro de Simone Martini é muito importante porque introduz algo novo - a ideia e o conceito que marcará o ambiente das mulheres culturas no fim da Idade Média. Justamente, a leitura em silêncio, a procura de palavras que sirvam um estudo que é solitário, mas que permite construir ideias próprias. O sobressalto de Maria é o sobressalto de interrupção da leitura. Nesse sentido é um quadro sobre a leitura e sobre uma nova forma de construir momentos de intimidade e assim também pensamentos.

Simone Martini, A Anunciação (1333) - Uffizi - Florença -
#Umaleitorapordia

Conteúdos na rede (Uma obra de arte por dia) - (III)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real!
Edgar Degas é em certo sentido um dos representantes do movimento Impressionista. Desenvolveu a sua atividade na segunda metade do século XVIII e primeiros anos do século XIX. Com Monet, Cézanne e Renoir, Degas e outros pintores procuraram apresentar as suas obras a público nascendo uma forma de representação que marcaria a pintura no século XIX. Embora o Impressionismo tenha cultivado a arte de pintar ao ar livre, a vida real observada Degas procurou mais a ficção nas suas representações pictóricas e a sua pintura foge às características tradicionais do Impressionismo. Participou em exposições do grupo, mas as suas cores e temáticas fugiam um pouco ao que os restantes elementos faziam e procurou desenvolver um sentido de vanguarda. Na sua pintura as personagens desenvolvem-se em atmosferas muito expressivas, de um realismo notável e com uma capacidade de nos comunicar emoções de forma brilhante.

Edgar Degas, Bailarina no palco, 1878
Musée d'Orsay, Paris
#Umaobradeartepordia

Conteúdos na rede (Um poema por dia) - (III)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
E pode
No entanto escutar-se, no entanto
Reler-se, no entanto caminhar

Em direcção diversa, magoar
Novamente os joelhos na jornada?
Como os velozes mensageiros de hoje,
Os que, com Íris e Hermes, esvoaçam
Pelo éter, não há-de reunir-se
Um exército novo, uma razão
Em forma de cenário, aquela estranha
Ardência do improvável
.

Hélia Correia (2012). A Terceira Miséria. Relógio D’ Água, p. 37.
Imagem: © – Hemingway, Colette. “Retrospective Styles in Greek and Roman Sculpture”. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000–. http://www.metmuseum.org/toah/hd/grsc/hd_grsc.htm (July 2007)
#Umpoemapordia

terça-feira, 7 de junho de 2016

Conteúdos na rede (Uma leitora por dia) - (II)

Uma leitora por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!


Sibila de Cumas de Miguel Ângelo é um dos quadros que no Renascimento procurou dar nova vida às histórias e figuras da mitologia. Miguel Ângelo nos frescos da Capela Sistina juntou figuras do Antigo Testamento (profetas) com Sibilas de natureza pagã. As Sibilas eram profetisas da Antiguidade Clássica que sabiam prever acontecimentos trágicos. O nome que as acompanhava derivava do sítio onde estavam. Sibila de Cumas referia-se a uma Sibila da região da Campânia. Neste fresco a Sibila é-nos oferecida numa fase ainda não final de vida, pois os braços ainda revelam muito vigor. A Sibila de Cumas de Miguel Ângelo aparece no seu conjunto como uma figura meio humana, meio fantástica e o livro surge como algo que saberá ler o futuro. Apesar das páginas do livro estarem em branco ele surge aqui retratado no seu aspeto mais simbólico de conservação de algum conhecimento, os poderes da Sibila no universo mitológico próprio da Antiguidade Clássica que o renascimento reinventou com novos significados.
Miguel Ângelo, A Sibila de Cumas (1510)
Capela Sistina - Roma
#Umaleitorapordia

Conteúdos na rede (Uma obra de arte por dia) - (II)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real!

A Primavera, quadro de 14470/80 de Sandro Botticelli é uma das referências da Arte do Renascimento. Quadro de extrema beleza, onde vemos as Três Graças e Flora com o seu vestido florido. É um quadro de memória da escola de Florença, das atmosferas delicadas. O quadro tem um significado filosófico relacionado com a simbologia da Primavera. Botticelli na fase final da sua vida abandonou este tipo de pintura, por influência de Savoranola, e embora perdesse popularidade por esses anos finais (início do século XVI) foi recuperado no século XIX como um pintor de grande nível.

SAndro Botticelli, A Primavera (1470/80) 
Galleria degli Uffizi - Florença
#Umaobradeartepordia

Conteúdos na rede (Um poema por dia) - (II)


Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me
.


Leonard Cohen, "Gift", in Pocket Poems
#Umpoemapordia

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Conteúdos na rede (Uma leitora por dia) - (I)

Uma leitora por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!

Rembrandt pintou durante toda a sua vida quadros ligados à velhice, pois interessou-se pelos traços de fragilidade ligados à última fase da vida. No quadro vemos o corpo coberto com um material sumptuoso e apenas descortinamos a mão e o rosto enrugado. O livro (O velho testamento) parece emitir uma luz própria, enquanto a senhora idosa com a mão espalmada em página aberta lê atentamente o texto. É um quadro sobre uma leitura com mais dificuldade pela idade, mas também revela atenção, um cuidado entre a leitora e a obra. Embora o Renascimento tenha recuperado os valores da Antiguidade Clássica, neste domínio da velhice o quadro de Rembrandt recupera uma dignidade da velhice e dá ao texto uma autoridade que supera esse património. Há no quadro uma autoridade que vem da leitura e um isolamento do mundo que lhe confere substância e liberdade.

A Profetisa Ana (Mãe de Rembrandt), 1631
Rijksmuseum, Amesterdão

Conteúdos na rede (Uma obra de arte por dia) - (I)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real!


As estátuas são formas humanas onde fazemos repousar um sentido de perfeição, uma pureza de linhas capaz de guardar no tempo os nossos ideias de beleza, a revelação de emoções que queremos exprimir em dias mais sucessivos que a vida que nos é dada viver. Ter sido é a referência da posteridade, essa incapacidade de admirar o exposto sem se saber realmente como se foi, o quanto se foi. Mas isso pouco importa para os admiradores do futuro, os que vierem de séculos por nascer. Por agora vive numa eternidade, este nu brilhante desenhado na pedra como uma carícia continuada de mãos e pó deslizando em formas construídas. A estátua é um momento de solidão, o contorno das emoções desenhadas na pedra, a perfeição de um sentido vivo, imaginado, pensado. A estátua oferece-se à eternidade como a plenitude de um momento sagrado, quando a beleza apenas existia. Quando a vida se aproximava só, ainda sem tentações de tempo. A estátua tem múltiplas vidas, desde que se vai formando pela mão do escultor que compreende o seu material, o formaliza em conceitos de substância até que ela própria ilumina o real e a vida dos que a contemplam. A estátua estará exposta ao ruído do mundo, às tentativas devoradoras do tempo e como a vida de qualquer humano sofrerá adoração, admiração ou indiferença.
Estátua de David (1504) – Miguel Ângelo, Galleria dell’Accademia, Florença.
#Umaobradeartepordia

Conteúdos na rede (Um poema por dia) - (I)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

Percorria ao anoitecer os jardins
da cidade à procura das flores
oficiais - sobem amparadas
e perfumam com a memória

do chá as ruas irregulares.
Levava uma tesoura de unhas,
insuficiente e desnecessária porque
não colhia nada que fosse vivo.
Restavam-me frases livres,
páginas dobradas, cadeiras desiguais
e os pratos vazios deixados
aos gatos.
O primeiro poema encontrei-o
numa dessas buscas
debaixo da árvore maior,
no ferro que sustenta a copa,
preso com uma mola da roupa
.

"Nome comum: Jasmim-dos-Poetas" - Margarida Ferra.

#Umpoemapordia