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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Escritor do mês - Mia Couto

Tudo o que tenho não tem posse:
o rio e suas ocultas fontes,
a nuvem grávida de Novembro,
o desaguar de um riso em tua boca.

Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.(1)

Mia Couto é um autor moçambicano que tem reinventado a língua portuguesa dando-nos territórios por onde se ligam a identidade de uma cultura, o património colectivo de uma comunidade, saltando fronteiras, dando força nova às possibilidades da Literatura. Há trinta anos a publicar títulos, recordamos Terra sonâmbula (1992), A Varanda de Frangipani (1996), A Chuva Pasmada (2004), O Beijo da palavrinha (2006), Pensageiro frequente (2010), Tradutor de Chuvas (2011), A Confissão da Leoa (2012) ou o mais recente Jerusalém

Mia Couto está imerso como pessoa na realidade de uma cultura de um país, ainda com restos de heranças coloniais, vivendo uma construção política e social com situações mal resolvidas vindas do processo de descolonização e que assim necessita de se olhar, de se pensar como conjunto humano. Tem sido esse o papel de Mia Couto e da sua literatura. Tem dado novas formas à linguagem integrando a riqueza humana e cultural de Moçambique, expondo a sua respiração, mas também falando sobre o medo e o que povoa o quotidiano de figuras quotidianas.

A literatura de Mia Couto constrói uma ligação entre o fundo africano e aquilo que pode ser uma "modernidade" no sentido de uma sociedade mais partilhada, mais coerente com os valores de uma matriz europeia. A sua literatura desmonta as lendas, os mitos tentando ligar o mundo rural e urbano, dando consistência a uma humanidade que se religa entre a realidade e um pensamento mágico. Mia Couto dá-nos um conjunto de valores de grande significado, pois ensina-nos que a memória e a cultura são factores de grande significado na identidade dos povos. É a mais nobre função da literatura.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Mar me quer - Livro da semana

  

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção de alma que nem chegou a falecer.
   - Levanta, ó dono das preguiças.
   E o mando da minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo
   - Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. 
   - Conversa de malandro...
   - Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, fora isso, eu só presto é para viver...
   Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
     - Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher...
     - Mulher, eu?
   - Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
     - Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
     Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
     - Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
     - A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestino sobre pensarmos Deus ou não-Deus..." (pág. 09).