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quarta-feira, 15 de março de 2017

Em Roma sê Romano - Leitura

"Então o homem soltou o pano branco, que flutuou ao sabor do vento. 
Aquele era o sinal de partida, as quadrigas dispararam lado a lado e foram ganhando velocidade até à primeira curva, onde a branca e a azul se distanciaram das outras duas. Mas logo adiante voltaram a ficar lado a lado e os gritos da multidão redobraram. 
Ana hesitava entre arregalar os olhos para ver melhor o irmão ou tapá-los para não ver nada. 
Tinha medo de que ele caísse tinha medo de que se magoasse, tinha quase a certeza de que ia perder e tinha pena de o ver perder. "Para que é que ele se meteu nisto!", pensou...

(A turma do 7.º 4.ª leu o título Em Roma sê Romano, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, como proposta de leitura autónoma. Os alunos exploraram a obra em Português e História tendo realizado uma ficha de leitura de análise da obra. Neste dia, na Biblioteca foi feita uma apresentação da obra a alguns alunos de outras turmas do 7.º ano de modo a que estes conhecessem um livro que introduz os leitores de um modo lúdico e acessível, no universo da civilização romana.)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Leituras na Biblioteca - Pessoa (os Heterónimos)

Ser pessoa é amar o que se vê, é sentir o "ser", é não haver limites para a grandeza, é ser feliz na tristeza e perceber o que somos. Ser pessoa é querer mais do que se tem, é querer ser livre, beber a inocência e viver a presença do real. Ser pessoa é amar o ridículo, é escrever o sentimento e sentir o que vê, desenhando paisagens. É ser insignificante como o pó, mas ao mesmo tempo presentem no vento, é ser harmonia ministrada pelo maestro e seguir as regras. Ser pessoa é ser espontâneo nas decisões da vida e ter ideias que suportem os sonhos.
| Natália Brito| 10º A|  

Todos nós, cada um de nós somos uma multiplicidade de pessoas, um mundo de personalidades. É vago e raro definirmo-nos. Não somos um conjunto fechado, mas sim aberto, não somos nada apenas apresentamos traços de qualquer coisa. Somos um conceito em constante mudança e evolução. 
| Carolina Mateus| 10º A|

Ser pessoa é antes de mais existir. É em termos filosóficos uma incógnita. Ser pessoa é mais do que ser sensível, é ser racional, do ponto de vista intelectual e moral. É ser um sol que  ilumina o seu próprio mundo. É ser um dicionário que só é composto por sentimentos.
| ....| 10º A|

Imagem - O menino que era muitos poetas. Pato Lógico/ICNM.2014

(Alguns dos textos construídos numa sessão com alunos do 10º Ano sobre a Heteronímia  de Pessoa). 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Leituras na Biblioteca - O poema do menino Jesus (II)

Deus, dizem que é omnipresente.
Mas eu sou aquele que ainda não o sente, pelo menos a cem por cento.
Mesmo não sendo o maior cristão, sabendo que não há certeza, procuro a razão.
Vivendo, eu acredito e entendo.
Sem Ele, tudo é impossível, mas confesso que é difícil acreditar não vendo.
Por mais que o tempo passe, aquilo que vai crescendo são as dúvidas no meu pensamento.
Como não há certezas, vivo com o que entendo. O mundo é fruto de Deus, é assim que o compreendo.
Francisco Gouveia, 10º A.

Na minha opinião cada pessoa tem a sua própria visão das coisas, neste caso do menino Jesus. Na minha opinião, eu posso criar a minha própria imagem e a personalidade dele, pois nunca o vi nem o conheci. Devemos respeitar a história e a opinião dos outros, bem como a cultura do País. Com a sua história, conhecemos uma forma de ser pessoa e isso implica pensarmos no interior e exterior de cada um.
Bruno, 10º A

Não  concordo com a visão que Fernando Pessoa, pela voz de Alberto Caeiro, dá do menino Jesus. Penso que Jesus foi alguém que veio ao mundo para se sacrificar por nós. Aceito a visão de Pessoa, mas não concordo com ele, nem acredito que possa ser verdade. Desde pequena, que tive uma vida católica muito ativa. Na minha opinião, Fernando Pessoa caracterizou o menino Jesus daquela maneira porque assim o achava. Fê-lo para demonstrar que muitas pessoas apenas pensam em Deus quando precisam de algo. O poema do menino Jesus foi uma forma que ele usou para revelar esse "pensamento" que muitas vezes as pessoas têm.
Mafalda / Marta, 10ºA

Leituras na Biblioteca - O poema do menino de Jesus (I)

(...) Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe. 

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão 
E olha devagar para elas.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.


Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro, "Poema do menino Jesus". Poemas de Alberto Caeiro. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Os Bichos de Torga

(Na apresentação aos alunos do escritor Miguel Torga, foi proposto na Biblioteca a leitura do conto "Tenório", inserido no livro Os Bichos. Deixam-se algumas das imagens usadas para ilustrar o conto e com elas criar uma sessão de leitura e de diálogo sobre a ideia do conto. A leitura do conto foi precedida de uma breve apresentação de Torga e do seu reino maravilhoso. Do resultado de algumas questões colocadas publicaremos noutro post, o essencial do que foi produzido pelos alunos).

Esta é a história verdadeira de Tenório, o galo. Nascido duma ninhada que a senhora Maria Puga deitou amorosamente debaixo das asas chocas da Pedrês, em doze de janeiro, pelas três da tarde, quando a velhota o viu sair da casca, disse logo:

- É frango. 

E realmente. Aquela amostra de crista que trazia do ovo, poucas semanas depois, parecia já uma mitra. E ninguém mais duvidou de que era frango macho. Dos dois irmãos, muito tinhosos, sempre engeridos, desses é que a incerteza se manteve por largo tempo.
- Que te parece, António?
- Eu sei-te lá mulher!...
- O da dianteira está-se mesmo a ver. Aquelas três são pitas, com certeza.

Galo! Galo e duma maneira tal, que agora no quinteiro, mal franzia a testa, tremia tudo! E então lindo! A crista caía-lhe dobrada sobre o ouvido. Um rico brinco de cada lado. E em todo o lado. E em todo o peito, sobre o papo redondo, um avental de penas que pareciam de pavão! Sem falar nas asas, um primor de beleza, nos esporões que, de brancos, lembravam marfim, e naquela rica voz, legítimo orgulho da dona.
- Muito bem canta o seu galo, Ti Maria!
- Nem há...

Qual medo, qual pudor, qual nada! Era ou não era um galo a valer?! Ou não via como, em toda a capoeira alvoraçada, do espanto se passara a um rumor de pura admiração? Na capoeira e até lá dentro...
- Ouviste o frango, António?
- Ouvi.

É danado, o seu galo! Onde não chega, manda. (...)
Era a Júlia Pirraças a falar à dona. Ele ouvia com ar modesto. Por dentro, a babar-se, evidentemente. Quem é que não gosta que lhe louvem as valentias?...
Ah, se não fosse o espinho que começava a crescer-lhe no coração!...

O galo velho tem coisa...
Galo velho! Isto é que era uma vida!... Andava um homem sabe Deus como, roído por dentro, não lhe apetecia arreganhar os dentes, e logo uma sentença sem apelo: - galo velho!

- Mata-se e faz-se um bolo. O filho já dá conta do recado... Era o senhor menino, que começava a pôr as unhas de fora! Ah, mas saía-lhe cara a brincadeira! Oh, se saía! Garoto! (...).


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Leituras ... Os livros e as palavras

Texto 2: " Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro preferido. (...)

Depois a última página era lida e o livro estava acabado. Era necessário deter a correria dos olhos e da voz que os seguia sem ruído, parando apenas para retomar o fôlego, num profundo suspiro. Então, a fim de dar aos tumultos há demasiado tempo desencadeados dentro de mim para conseguirem acalmar-se outros movimentos para executarem, punha-me de pé, começava a andar ao longo da minha cama, com os olhos ainda fixos num ponto qualquer que seria inútil procurar no quarto ou lá fora, pois se situava apenas à distância de uma alma, uma dessas distâncias que não se medem em metros e em léguas, como as outras, e que é aliás impossível confundir com elas quando se vê os olhos "distantes" de quem está a pensar "noutra coisa". Enrão, era isto? este livro, não passava disto? 

Aqueles seres a quem havíamos dedicado mais atenção e ternura do que às pessoas da vida, nem sempre ousando confessar a que ponto os amávamos, mesmo quando os nossos pais nos encontravam a ler e pareciam sorrir da nossa emoção, fechando o livro, com uma indiferença simulada ou um aborrecimento fingido; esses seres por quem havíamos tremido e soluçado, não voltaríamos a vê-los nunca mais, não viríamos a saber mais nada deles. (...)

A atmosfera desta pura amizade é o silêncio, mais do que a palavra. Porque nós falamos para os outros, mas calamo-nos muitas vezes para connosco mesmos. É por isso que o silêncio não traz consigo, como a palavra, a marca dos nossos defeitos, das nossas caretas. Ele é puro, é verdadeiramente uma atmosfera. (...) A própria linguagem do livro é pura (se o livro for digno desta palavra), tornada transparente pelo pensamento do autor que dele retirou tudo quanto não fosse ele próprio, até o transformar na sua imagem fiel".

Proust, Marcel. (2011). O Prazer da Leitura. Alfragide: Teorema.

(Juntamente com um excerto do livro de Jacques Bonnet, Bibliotecas cheias de fantasmas, tem-se estado a apresentar a Biblioteca aos alunos do décimo ano, tentando discutir com eles, que valor têm os livros, que significado tem a leitura, o que ela nos pode dar, introduzindo as suas ideias numa aplicação digital. Alguns dos mais interessantes serão publicados de seguida.)

Leituras... As Bibliotecas

Texto 1: "A biblioteca protege da hostilidade exterior, filtra os ruídos do mundo, atenua o frio que reina em volta, mas confere, igualmente, uma sensação de omnipotência. Porque a Biblioteca faz recuar as pobres capacidades humanas: ela é um concentrado de tempo e de espaço. Reúne nas suas prateleiras todos os estratos do passado. Ali estão os séculos que nos precederam. ("A escrita (...) grande, muito grande ao permitir-nos conversar com os mortos, com os ausentes, com aqueles que não chegaram a nascer, através de todas as distâncias do tempo e do espaço", Abraham Lincoln). 

O passado assombra as bibliotecas, não apenas nos testemunhos de época, mas também nos estudos eruditos, nas reconstituições literárias e nas imagens de todos os tipos. Mas a minha biblioteca é também uma concentração de espaços. Reúnem-se ali todas as regiões da Terra, os cinco continentes com as suas paisagens, os seus climas, a sua maneira de viver. (...) Posso deslocar-me para qualquer um destes sítios num segundo, saltar de um para o outro e até ficar em dois deles ao mesmo tempo. 

Há nisto qualquer coisa de divino, e eis sem dúvida a razão por que, quando se fala de bibliotecas, é tão tentador utilizar uma linguagem religiosa. Borges disse-o: "A Biblioteca é uma esfera cujo verdadeiro centro é um hexágono algures, e cuja circunferência está inacessível." E Umberto Eco a enunciar a ideia bizarra: "Se Deus existisse, seria uma biblioteca." Uma ideia que terá que ver com a capacidade de dominar, em certa medida, tanto o tempo como o espaço." 

Bonnet, Jacques. (2010). Bibliotecas cheias de fantasmas. Lisboa: Quetzal.