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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A palavra e o mundo - em nome da terra - (II)

O teu corpo. O amor do teu corpo e tudo o que é possível acumular para uma vida, esse resgate permanente da tua juventude, da tua perfeição que é a nossa identificação para pronunciar Terra ou Universo ou Deuses. É contigo, com a tua expressão de amor que em átomos de energia e sorrisos, de pele branca que nos encontramos na mais desnudada imaginação.
É a construção da nossa mortalidade, mas é mais do que apenas material. É feita de deslumbramento, de mistério e de impossível, pois a ternura só se formula nessa criação de doçura. Uma doçura capaz de em momentos de tempo mais lento permitir a nossa criação, entre a tua agilidade, o teu riso de nuvem, os teus cabelos soltos em caracóis, as tuas mãos de chuva, a tua vitalidade de mármore feita corpo transbordante de alegria. 

E agora que sucumbo às feridas do tempo, em que tropeço nas minhas mãos gastas, com linhas de chuva escorrendo, como gotas de vidraças ensombradas de vento vejo as áleas da janela que resistem aos dias seguidos de rotina. Decoram o mais longe, com braços esguios nascidos em rugas que o tempo acastanhou e de onde flores de vento se erguem como pequenos jardins. E deste amor que se lembra, como amar-te agora em rugas de silêncio, no tempo do acontece, na essência da eternidade, acima da memória descalcificada. O sublime é sempre uma iluminação, ama-se com esse sentido de circunstância, a forma de escrever eternidade, como quando os astros se juntam numa galáxia de luz. 

É o ponto inicial e final de consumir beleza, o fascínio encontrado nos teus olhos, o amor do qual não sabíamos sair, o mundo que não existe, as formas maciças de toda a expressão corporal, o fundamento da terra. E em casas, como árvores ouvíamos a folhagem, o silêncio do absoluto, os seres da terra, a sua música e talvez também Deus. E era para superar a nossa mortalidade e o seu poder, a sua omnipotente vaidade que nos amávamos até que perdemos o que era o amor, essa canção sem lobos.

E dos momentos em que partiste tornou-se impossível recuperar as formas e o movimento de como, de quanto te amei. As formas possíveis do que fomos, a nossa ontologia, como uma natureza viva que já não se recupera no desenho do teu rosto, pois já não sobra do real que vejo. O amor éramos nós nesses tempos de rio e bosques e com o universo fomos só uma forma de eternidade. O corpo que se transcende de angústia de tempo deu-nos essa totalidade de nós. O que farei desse sonho de nuvem?

Com as palavras de Vergílio ou o que elas me dizem. Vergílio Ferreira. (1990). em nome da terra. Imagem: © – Acompletelife.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A palavra e o mundo - em nome da terra - (I)

E então disseste-me em alvoroço
- Vem ouvir!
E eu fui. Está aqui este louco a pregar, disseste ainda. Era uma voz rouca, inchada para baixo até às cavernas da profecia. "Porque vós estais todos enlameados na rotina animal e não quereis saber senão da gamela a horas, da canga a horas, do trabalho servil, e nem seque sabeis que existis.
- Que estação é esta? - perguntei. E tu disseste
- Não sei. Estava à procura da emissora e apareceu-me este pregador.
que existis. Todo o país está podre de estagnação, vós moveis um pé no lodaçal e ficais estoirados do esforço ao fim do dia. Mas nunca vos perguntais para quê, nunca vos perguntais o que isso quer dizer, nunca vos perguntais com que direito haveis de ser boi até ao fim da vida. Parai ó estúpidos, suspendei um momento esse vosso trabalho animal e perguntai-vos se é essa a vossa vontade, se num instante da vossa tarefa cavalar é isso com que sonhais para vosso prazer. Porque é que não fazeis aquilo que quereis? (...)

O que eu vos venho pregar é que vos perguntais para quê. O que tenho a dizer-vos é uma coisa elementar como a a água e o pão.   O que tenho a dizer-vos é se já vos perguntaste porque é que estais vivos, que é que fazeis da vida, porque é que amochais à vontade de outrem, porque é que alombais com um destino que não é o vosso. 

Tudo no universo tem um destino que é seu, vós nem sequer sabeis qual é o vosso porque antes de perguntardes já vos albardaram com um outro. O sol serve para aquecer, o mar para a navegação e o abastecimento piscícola, a pedra para fazerdes muros ou jogardes à pedrada - vós para que é que sois? Não vos trago mais uma doutrina política que já há de mais a apodrecer como a fruta excessiva, nem qualquer outra forma de serdes em rebanho nem que seja a de uma filarmónica. O que vos trago é apenas uma pergunta - porquê ou para quê. (...)

Estamos fora do tempo . Das idades. No susto de te desvaneceres. Tens os olhos cerrados mansos sobre ti para nada fugir de ti e eu ter-te toda no meu punho sangrento. E então soergo-me para que o meu imaginário se cumpra e se esgote. Perfeita inteira. Nenhuma linha se desvia pelo caminho da imperfeição. É a perfeição do embalo, a curva de um berço - e os seios. Fáceis leves como o teu corpo, mas não nascem dele. Seios de si mesmos, sem auréola, seios de puberdade. Tem já o desenho para a boca infantil de um dia, há-de haver essa boca quando entrares no tempo, na história corruptível da criação. Sem tempo agora, forma absoluta de uma geometria, que é a essência do incorruptível. Há um modo de o corpo ser, eles são esse modo. Integrados como a linha de um gesto. Ou uma flor. Ou uma pedra. Ou um cão. Integrados numa linha como um destino, que estupidez querer explicar o ser. Ou o azul. Ou uma cor que não existe e é a tua. Ou a harmonia do repouso da minha vida inteira aí.

Vergílio Ferreira. (2015). Em nome da Terra. Lisboa: Quetzal, páginas 155, 157 e 158

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A palavra e o mundo - Carta ao futuro - (II)

O que era o País e o mundo em 1957? À exceção de Sophia e de Jorge de Sena, o País era na década seguinte ao fim da 2ª Grande Guerra a manipulação cinzenta de uma fantasia de crianças. O Mundo após o terror alemão conduzido pelos nazis emergia no que alguns consideravam o homem novo, os amanhãs que cantariam. 

Em fins da década de cinquenta o País e o mundo eram a mais profunda sonolência, uma anestesia de vontade por algo que significasse decência e humanidade. É desse ano que Vergílio Ferreira escreve um livro que devia figurar nas estantes de qualquer pessoa com sonhos de compreender a vida e ter nela um papel substantivo.

Vergílio tornou-se mais conhecido. Um pouco mais. Não muito mais. Pois ainda é possível ouvir doutores da formalidade invocar a sabedoria de sebentas, onde palavras comuns desenham gramáticas de compreensão pouco empenhadas nesse sentido que  foi a sua escrita. A da justamente invocar a nossa verdade emotiva, aquela que nos faz apreender o mundo, por cima de códigos ideológicos, ou de confissões do nada. Vale a pena lê-lo. Ele foi um percursor da substância que mora em nós, um leitor da brevidade e da magia de estar vivo.

Muitas vezes desdobramos palavras de quem gostamos ou que nos dizem algo pela sua relevância curricular, pela sua ligação a um património cultural e civilizacional. Com Vergílio Ferreira, escritor do mês na Biblioteca em janeiro aprendemos muito. Aprendemos palavras, ideias, formas de pensar a vida e a existência. Aprendemos com os alunos formas de pensar possibilidades de criar no real a nossa própria forma de sermos humanos. Partindo com o receio de não o saber apresentar pela sua dimensão complexa ficou-nos a satisfação de termos com os alunos e alguns professores dado a conhecer um homem essencial da cultura portuguesa e europeia do século XX.

Com Vergílio Ferreira aprendemos a difícil ética de sermos humanos, compreendemos a necessidade absoluta de olhar o mundo através de um sentimento estético, que apenas a arte nos permite obter. Com Vergílio percebemos que a leitura do mundo faz-se pela nossa emotividade, a quilo que nos faz ter sentido, "a verdade humana" que nos orienta. É no nosso diálogo com uma dimensão estética da vida que o mais essencial de nós se afirma. Nos cem anos do seu aniversário percebamos tão grande lição dada quando muitos gritavam revoluções e impérios universais. Obrigado amigo!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A palavra e o mundo - Carta ao futuro - (I)

"O sentimento estético da vida não é exclusivo das obras de arte. Nós o sabemos das horas silenciosas em que a sua face se adivinha e não há ainda uma obra de arte a traduzi-la. a integrá-la numa manifestação. Assim nos não é possível imaginar um mundo sem arte, por mais que admitamos o esgotamento das formas que herdámos, por mais que admitamos que a arte terá de ser inventada de novo através de formas que mal ainda vislumbramos. 

Mas ainda que fosse possível imaginar um mundo sem arte, sem obras que o exprimissem, jamais seria imaginável um mundo estendido fora do sentimento estético, fora da qualidade emotiva que no-lo explica à nossa relação humana com ele.

Porque é dentro da emotividade que o mundo tem sentido, e a verdade humana, e a orientação fundamental de tudo o que nos orienta. Porque o sentimento estético é uma comunicação original com a essencialidade da vida - como esta que se abre na voz obscura da chuva que dura ainda.

Eu a ouço, eu a ouço, desde os confins da memória, balançando na rua a solidão dos espaços. Eu a escuto na vidraça como um apelo clandestino para um encontro de outrora. Que a água de pureza que te trespasse, e seja tu, rememore a água obscura do nosso horizonte - e a vida se continua´ra, una, indestrutível, igual e sem margens, como é igual na sua total presença, a vertigem da noite e a iluminação do dia.

Saúde, amigo.

 Vergílio Ferreira. (2010). Carta ao Futuro. Lisboa; Quetzal, pgs. 101 e 102

terça-feira, 1 de março de 2016

Das palavras de Vergílio (XIV)

Eu chamo-me pairar,
Uma pessoa que não quer pensar,
Que se deixa viver sem argumentar,
Vive a pairar.

É um método legítimo de viver,
Cada um é e faz como bem entender,
Mas algum dia há de ser,
Há de se aperceber,
Que não pensar não é viver.

Não há vida sem pensamento,
Vida assim não tem fundamento
Vida sem acento.

Pensar...
Pensar, Pensar, Pensar...
É quase como princípio escolar!
Não há como falhar.

Mas há aqueles casmurros,
Que acham uma maçada pensar,
Para isso felizes seriam sendo portas ou muros.

Maçada?
Não pensar.
Pensar? Viver.

Maria, "A maçada de pensar", 11º C2
Imagem: Copyright - Boris Bajcetic

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Carta ao futuro (II) - Livro da semana


Título: Carta ao futuro
Autor: Vergílio Ferreira
Edição: ..ª
Páginas: 
Editor: Quetzal
ISBN: ...

CDU: ...
Sinopse:
“O que há a redimir é a fulgurante evidência da nossa condição, mediante uma outra evidência absoluta que a aceite em harmonia, em plenitude
O que há a redimir é a adequação deste milagre brutal de nos sabermos uma evidência iluminada, de nos sentirmos este ser que é vivo, se reconhece único no corpo que é ele, na lúcida realidade que o preenche, o identifica nas mãos que prendem, na boca que mastiga, nos pés que firmam, de nos descobrirmos como uma entidade plena, indispensável, porque ela é de si mesma um mundo único, porque tudo existe através dela e é impossível que esse tudo deixe de existir, porque ela irrompe de nós como a pura manifestação de ser, e o “ser” é a única realidade pensável –  o que há a redimir é a adequação desta fantástica evidência que nos cega e a certeza de que ela está prometida à morte, de que o seu destino é a impossível e absoluta certeza do não-ser, da pura ausência, da totalidade nula, da pura irrealidade. 

Colaborar com a vida, aceitar a validade de uma norma, forjar uma regra para a distribuição da nossa ação e interesse –  sim. Mas é impossível, antes disso, desviarmos os nossos olhos de fascinação da vertigem, e vermos, vermos bem, de que fundas raízes gostaríamos de entender tudo quando realizássemos. É uma tentativa absurda, meu amigo, toda a gente no-lo diz –  toda a gente que desconhece essa força que nos fascina. Mas eu sei que só se é homem, plenamente, quando se sabe 

A escala de tudo quanto povoa a terra estabelece-se-nos aí, no saber. A ilusão da plenitude, a ficção de uma quotidiana divindade. Essa que se define por uma certa instalação na permanência, forja-se apenas de uma inconsciência animal. Somos homens, não somos deuses nem pedras. Se a grandeza que nos coube foi essa ao menos de saber, conquistemo-la até onde, nos limites das evidências primeiras, ela se nos anuncia. E se o “absurdo” é a face desses limites, assumamo-lo como quem não rejeita nada do que é ainda nós próprios. A cobardia não está em assumir esses limites, mas em recusá- los. (…)

 Vergílio Ferreira. Carta ao Futuro. Quetzal.

Carta ao futuro (I) - Livro da semana

Meu amigo:

Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos... É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais direta que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de acaso, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Boletim Bibliográfico

Em nome da Terra - Livro da semana

Título: Em nome da Terra
Autor: Vergílio Ferreira
Edição: 1ª
Páginas: 272 p.
Editor: Quetzal
ISBN: 978-972-5647-912
CDU: 821.134.3-31"19"

Sinopse: A Primavera, o fresco. Ou talvez a deusa Flora para ser mais corpórea contigo. Mas é um corpo transcendente até à sublimidade. Tu tinhas mais peso do que isso, querida. Mas eu preciso agora tanto de seres divina. Transcendente irreal. Dissolúvel e vã – deixa-me ser infantil. Mesmo o amor só começa a existir assim, é dos livros. Metafísico disparatado. Abaixo disso tem já outro nome que vem na fisiologia. Preciso ardentemente de irradiar o teu corpo a tudo quanto baste para ser divino. Vou construir uma religião que não há. Vou ser sublime e atrasado mental. Um corpo. Minha querida Mónica, o corpo ainda não existe e é preciso empenharmo-nos todos com ardor para que exista. Porque o que existe é só a porcaria de um bocado de carne que deve vender-se nos talhos dos antropófagos. Ou então existe só o que nele não existe e se transacciona nas sacristias da província. Meu amor, deixa-me dizer-te. Agora que estás morta – e como tudo foi longo. A gora que arrumaste as coisas. É uma deusa linda num instante do seu movimento leve, mas não se lhe vê a face. Porque a beleza não é dela mas da leveza do seu passar. Vê-se de costas, a face um pouco voltada só até à visibilidade do seu contorno doce. Colhe à passagem uma flor sem se deter, no ondeado da aragem que a leva. E na outra mão segura contra o peito um açafate de mais flores. Mas tudo nela é aéreo e dócil. A túnica cor de argila, ondeante até à mobilidade subtil dos seus pés nus, uma alça descaída no ombro direito.
Um manto branco tombado dos braços para as costas num suporte negligente. O cabelo apanhado na nuca, a zona mais delicada para a ternura de um homem. E uma fita com auréola a segurá-lo. E o imponderável de todo o seu ser de passagem. Mas era o que sobretudo eu gostaria de te dizer desta deusa grave e aérea. Não bem o seu corpo esbelto como um voo de ave, mas só esse voo. Não bem a sua juventude eterna mas a eternidade. Não o gracioso dela mas a graça. Olho-a infinitamente para tu lá estares e ouço-te rir porque não estarias nunca. Fito-o e filtro-o para ficar comigo o seu impassível até à morte.
O jeito breve dos pés que não pisam. Os dois dedos subtis que colhem a flor sem a colherem e são nela há dois mil anos a flor que não colheram. A anca doce em movimento, o etéreo da sua divindade. A moldagem do seu corpo vaporoso pelo zéfiro que a leva. O deslizar do manto e da túnica que não deslizam, para a nudez não ser de mais. E a espádua nua para se começar a sabê-la e ela ir existir numa avidez assustada. E o cabaz de flores com que leva a alegria consigo. E o espaço verde e vazio para que nada mais aconteça além de si. Olho-a ainda, olho-a sempre. Passa aérea e de costas. E assim a sua beleza é invisível, no anúncio do que jamais poderemos ver. Assim a sua beleza é a mais bela porque está perto e longe, na realidade tangível e intocável de sempre. Na face oblíqua do que jamais saberemos a face. No olhar que inunda todo o corpo como é próprio de todo o olhar mas de que jamais saberemos os olhos donde vem a torrente. No seu corpo de deusa e no enleio do seu movimento que jamais saberemos ter nas mãos porque a sua realidade é o passar. Nas flores que leva e colhe e jamais colherei nas minhas mãos grossas e mortais. Tenho de deixar de olhar esta deusa efémera no breve instante de ser deusa, tenho de ir ter contigo ao fundo do corredor talvez,…

Ver
gílio Ferreira. (1990). Em nome da terra. Lisboa: Quetzal, páginas 127-128.
Ima
gem – ©: Deusa Flora – Representação de um fresco de Pompeia.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

No centenário de Vergílio Ferreira (II)

Clique na imagem para aceder aos conteúdos. (Retrato À Minuta)

Com três turmas do Ensino Secundário, a Biblioteca e a disciplina de Filosofia iniciaram hoje a comemoração do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira. Esta comemoração a que se deu o nome de três dias com Vergílio Ferreira procura celebrar um escritor de grande dimensão do século XX e colocar aos jovens questões que são essenciais na sua obra. A par do visionamento deste retrato feito pela RTP, foram lidos excertos de Em nome da Terra, Para Sempre e Carta ao Futuro. Foi ainda mostrado um conjunto de materiais produzidos pela Biblioteca e proposto um workshop de escrita sobre palavras e ideias de Vergílio Ferreira. Nos próximos dias daremos conta destes materiais e destes produtos. 

No centenário de Vergílio Ferreira (I)

Folheto Biográfico - Vergílio Ferreira

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Escritor do mês - Vergílio Ferreira

Vergílio António Ferreira nasceu em Melo, a 28 de janeiro de 1916, e faleceu em Lisboa, a um de março de 1996. Foi escritor, romancista e ensaísta, e estudou no Seminário do Fundão, entre 1926 e 1932, completando os seus estudos na cidade de Coimbra. Licenciou-se em Filologia Clássica na Uni-versidade de Coimbra onde, durante a segunda metade dos anos trinta, tomaria contacto com um neorrealismo emergente. 

Foi professor em Évora (1945-1958) e em Lisboa (desde 1959 e até à sua reforma). Notabilizou-se no domínio da prosa ficcional, sendo um dos maiores romancistas portugueses do século XX. Foi como escritor que mais se distinguiu. 

O seu nome continua, atualmente, associado à literatura, através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira. Em 1992, recebeu o Prêmio Camões. A sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois períodos literários: o Neorrealismo e o Existencialismo. 
Considera-se que Mudança é a obra que marca a transição entre os dois períodos. Temas como a morte, o mistério, o amor, o corpo, o sentido do universo, o vazio de valores e a arte, são recorrentes na sua produção literária.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A estrela - livro da semana

"Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que a não tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar oi cabelo. Devia-lhe ficar bem, no cabelo.

 De modo que, nessa noite, não aguentou. Meteu-se na cama como todos os dias, a mãe levou a luz, mas ele não dormiu. Foi difícil, porque o sono tinha muita força. Teve mesmo de se sentar na cama, sacudir a cabeça muitas vezes a dizer-lhe que não. E quando calculou que o pai e a mãe já dormiam, abriu a janela devagar e saltou para  a rua. A janela era baixa. Mas mesmo que não fosse. Com sete anos, ele estava treinado a subir às oliveiras quando era o tempo dos ninhos, para ver os ovos ou aqueles bichos pelados, bem feios, com o bico enorme, muito aberto. 

E se não era o tempo dos ninhos, andava à solta pela serra, saltava os barrancos, jogava mesmo, quando preciso, à porrada com o um homem. Assim que se viu na rua, desatou a correr pela aldeia fora até à torre, porque o medo vinha a correr também atrás dele. Mas como ia descalço, ele corria mais. A igreja ficava no cimo da aldeia e a aldeia ficava no cimo de um monte. De modo que era tudo a subir. Mas conseguiu - e agora estava ali. Olhou a estrela para ganhar coragem,  ela brilhava, muito quieta, como se estivesse à sua espera. 

E de repente lembrou-se: se a porta estivesse fechada? Levantou-se logo, foi ver. A torre era muito alta e tinha uma porta para a rua. Pedro empurrou-a um pouco e viu que estava aberta. Ficou muito admirado, mas depois nem por isso. Ninguém ia roubar os sinos que mesmo eram muito pesados. E quanto ás estrelas, se calhar ninguém se lembrava de que era fácil empalmá-las. E tão contente ficou de aporta estar aberta, que só depois se lembrou de a ter ouvido ranger. E então assustou-se. Voltou a experimentar e rangeu outra vez. Rangia pouco, mas o silêncio era muito e parecia por isso que também a porta rangia muito. E teve medo. Reparou mesmo que estava a suar e não devia ser da corrida, porque este suor era frio. 

A porta ficara já deslocada e agora era  só encolher-se um pouco e passar. Mas sem tocar na porta, para não ranger. Meteu-se de lado e entrou. Havia um grande escuro lá dentro. Já calculava isso, mas as coisas são muito diferentes de quando só se calculam. E cheirava lá a ratos, a cera, às coisas velhas que apodrecem na sombra. Como estava escuro, pôs-se a andar às apalpadelas. Mas as pedras frias assustaram-no. Lembravam-lhe mortos ou coisas assim. (…) Mas, à medida que ia subindo, vinha lá de cima um fresco que aclarava o cheiro. À última volta da escada em caracol, olhou ao alto o céu negro, muito liso. Via algumas estrelas, mas era tudo estrelas velhas e fora de mão. Até que chegou ao campanário e respirou fundo. Aproveitou mesmo para puxar as calças que estavam a cair.  Eram dois sinos e uma sineta. (…) E assim que se pôs em terra, largou para casa, mas não muito depressa. Apetecia-lhe mesmo parar de vez em quando e olhar a estrela com uma atenção especial. Era formidável. 

Lembrava um pirilampo, mas muito maior. Oh, muito maior. E de outro feitio, já se vê. A certa altura, voltou-se para trás e olhou ao alto o sítio donde a despegara, como se para ver se realmente já lá não estava. E não. O que lá estava agora era um buraco escuro, por sinal bem feito. Lembrava-lhe a boca dele quando lhe caiu um dente, mas não sabia bem porquê. Quando por fim chegou a casa, trepou á janela que deixara aberta e meteu-se na cama. Estava ainda algum tempo com a estrela na mão, mas não muito, porque já não podia mais, arrombado de sono. De modo que guardou a estrela numa caixa e adormeceu. 

No dia seguinte acordou tarde. A mãe estranhou aquele sono demorado, mas não muito, porque quem passava os dias no retoiço era natural que uma vez por outra pegasse no sono com vontade. Como tinha o berro forte, capaz de ir de monte a monte, a mão ouviu logo. Veio então a correr muito aflita, sem fazer ideia do que fosse, e perguntou-lhe o que tinha. E ele, que estava fora de si, ou mesmo ainda com sono, disse assim:
- Roubaram-ma! Roubaram-ma!

E a mãe, naturalmente, perguntou o que é que lhe tinham roubado. Mas ele aqui calou-se. A mãe cuidou que seriam restos de sonho e não ligou. (…) Mas não tinha sido um sonho, não. O que aconteceu foi que, logo de manhã, assim que acordou, abriu a caixa para ver a estrela e a estrela não estava lá. Ou por outra, estava lá, mas não era a mesma, era assim como uma estrela de lata. E então pensou que lha tinham trocado para pensar qualquer coisa, porque aquilo, realmente, não era coisa que se pensasse. É claro que brilhava um pouco. Mas toda a estrela de lata brilha. O que é, só de dia, quando lhe bate o sol. E mesmo assim, não muito.  Que afinal, com sol todas as coisas brilham com o brilho que é do Sol e não dessas coisas. E a estrela brilhava com  um brilho só dela. Mas nada disse à mãe do que se passara (…)"

Vergílio Ferreira, A Estrela. Quetzal. 2010.