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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Quando fui outro - Livro da semana

Título: Quando fui outro
Autor: Luis Ruffato
Edição: 1ª
Páginas: 234
Editora: Alfaguara
ISBN: 978-989-672-042-1
CDU: 821.134.3-1"19"
Sinopse: Quando o lemos interrogamos o real continuamente e verificamos que parcela de identidade se nos compõe. Em cada leitura descobrimos palavras novas, significados diferenciados. Em cada página que ele nos dá pensamos nesse pedaço de eternidade que é o presente, ameaçado pela efemeridade dos instantes quase incandescentes e o futuro maravilhado em tantas linhas de horizonte. Em cada uma das suas páginas um exército de críticos e analistas enquadra-o em heterónimos, em possibilidades, em estados de espírito, em sensações múltiplas. As suas páginas são também a sua biografia. Ele concedeu-nos essa unidade desafiante que se confronta com o sentido que o real nos dá em oportunidades difusas e multicolores.

A sua biografia é uma impressão, um gesto de uma genialidade complexa e universal. Foi com ele que atingimos a universalidade dentro de um particular de pouca grandeza, onde sabemos distinguir a palavra, a dúvida e o sonho. Inventou, num mar de aparente solidão, uma nova forma de apresentar as palavras, de desenhar ideias de futuro, construindo uma língua, uma literatura.
Ele somos todos nós. Aqueles que ele inventou nos quotidianos onde tantos seres particulares ganham a sua originalidade, a sua universal humanidade. Se há poeta, se há escritor, se há literatura, ele é tudo isso. É a demonstração de que um país é a sua cultura, a sua língua, as suas pessoas, a sua individualidade. Luis Ruffato olhou para esta universalidade e deu-nos um livro que seleciona os poemas dos principais heterónimos, sem os enquadrar nesse sentido, antes, organizando a poesia de Fernando Pessoa em temáticas que o permitem compreender. 

Da estranheza da alma, à ideia de renúncia do pensamento, ao sofrimento de cada um, num mundo sem referências, do cansaço como um barco numa praia deserta, às convenções sociais e às sua infelizes consequências nas realidades naturais, o amor que nos desafia belo e inútil, que não se revela numa vida breve. Luiz Ruffato tentou compreender a unidade de Pessoa e entender na sua obra literária o que ele próprio foi.

Descobriu aquilo que torna Pessoa universal, a ligação profunda entre arte e vida, procurando ultrapassar as sombras que nos cercam e encontrar "essa outra coisa linda", que somos nós próprios. Com esta antologia vemos melhor a grande dádiva que Pessoa deu à língua, forma de expressão e renovação de quem com ela quiser nascer. Ainda e sempre a grande função da literatura, inventar mundos, ou a esperança de sobressair sobre esse desamparo da vida, esse tempo longo, de vidas breves, como as nossas.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Amadeo - desenhar uma personalidade fascinante (III)

Não perguntem agora como lhe foi a vida, com que espécie de filamentos se manufacturou a tessitura da biografia a escrever. Quando a passagem é tão curta como esta, não será que tudo se reduz a um dia único, lavado e sem heroísmo assinalável, nele se degustando apenas o tegumento que não adormeceu? 

De Amadeo, como de outros, poderemos dizer que oscilou do apetite à renúncia. Nem lume nem gelo o tiranizaram alguma vez, porque incólumes de intempéries ficam os homens missionários. A sua deslocação por aqui, recorta um triunfo renascentista, desses em em que um carro possante e de rodas lavradas avança esmigalhando tudo em seu curso, a mancha festejada pelas esvoaçantes nereides que nele seguem.

A história pessoal que realiza, as pegadas que deixa no solo, até pelo anonimato a que por vezes parece remeter-se, consagram uma determinação que, nas cartas que ficaram, quase se diria da última vontade: "É preciso fazer todo o esforço pela ação artística", repetirá. De há muito que estou pronto e acho que é necessário desenvolver mais ação dirá ainda. "Cuido daquilo que aprendi e herdei", resumirá por fim.

Mário Cláudio. (2016). "Amadeo", in Triologia da Mão. Lisboa: D. Quixote, página 107.
Imagem -Copyright: Amadeo de Souza-Cardoso- Pintura (Paisagem)
Óleo s/tela: 50 x 73cm, c.1910
Doação de D. Lúcia de Souza-Cardoso
Museu Municipal Museu de Souza-Cardoso, Amarante

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O 1º modernismo - Alberto Caeiro (I)

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver,
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isso com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da natureza
.
Alberto Caeiro, “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha Biografia.”
Alberto Caeiro, Poemas. (2006). Lisboa: Ática.
Imagem: © Fabien Bravin

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Amadeo - desenhar uma personalidade fascinante (I)


Aprendia a ser-se. De um toque de dedos derrubava o chapéu para a nuca, quedava-se inclinado sobre um quadril, ou então descia solidamente a escadaria de granito, estacava de pernas afastadas, farejando afrontas e risos, pronto a replicar. Deste modo se estabelecia numa certeza conjectural, se reunia forças para se ter íntegro e violento em seu inexaurível desejo de vida. E a paz vinha de se acreditar, num cenário que era ainda indecisa a autenticidade dos trabalhos inventados. A poeirada dessa quinta recôndita enchia-lhe por vezes os olhos, os arvoredos esbatiam-se num verde grosseiro e afogado. Mas não desertava do posto, timoneiro de si próprio como se confessava amiúde, acreditando nas mãos enfiadas até às profundas das algibeiras, guardião de confidências, abridor de sortes. Os rafeiros vinham devagar até ele, rondar-lhe a figura, deitavam-se-lhe aos pés. Um carro de bois insistia ronceiro em sua marcha, arrastando a paciência na estrada por detrás da casa.

Um dos tios de Amadeo iniciou a escrita de uma obra que seria a biografia de uma vida, justamente a de Amadeo de Souza-Cardoso. Mário Cláudio com conhecimentos na região pela sua própria origem nas terras entre Douro e Minho veio a ter acesso a esse texto inicial. A partir dele escreveu um texto belo e substantivo, narrativo e poético que tenta chegar a esse ponto inicial do homem antes do artista. Que tenta chegar ao desenho de uma vida. É um texto que nos confirma ou inicia a quem não conhece as formas desse brilho humano chamado Amadeo de Souza-Cardoso.

Mário Cláudio. (2016). "Amadeo", in Triologia da Mão. Lisboa: D. Quixote, página 26, 27

Imagem: Copyright - Biblioteca de Arte - Fundação Calouste Gulbenkian


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Amadeo de Souza-Cardoso - A criação do artista

Um pequeno filme sobre o percurso curto de vida e a genialidade de uma obra que se integra nas vanguardas que no início do século XX marcariam a cultura e a ruptura de valores na sociedade. Amadeo de Souza-Cardoso é um dos pontos mais altos da arte do século XX. Aqui o evocaremos em diferentes materiais que conduzirão uma exposição e a organização de atividades sobre o 1º Modernismo. Temática que tentará relacionar nesse período outros dois nomes essenciais Almada Negreiros e Fernando Pessoa.