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terça-feira, 19 de abril de 2016

O gueto de Varsóvia - a coragem

"Shuddering I shall cry:
what for and why
did my people die?"
 (Itzhak Katzenelson- I Had a Dream) - (1)

É uma história amarga, a maior delas. É uma narrativa impossível de explicar, pois não há nela nenhuma racionalidade, apenas a emoção que uma selvajaria animal ainda se faz transportar dentro de algo humano, uma humanidade clonada de formas sem espírito. Passou-se ao som de criações elevadas da capacidade de sublimar a vida, a música, a arte e a literatura. 

É uma história mil vezes repetida, mas nunca a percebemos verdadeiramente, nunca soubemos explicar porque a morte de milhões de pessoas pode ser uma alegria, uma sinfonia de vontades vitoriosas e na verdade nunca aprendemos do pouco que vemos, pois residem entre nós, nas coloridas televisões, nas radios de risos de plástico a construção por tózés do pensamento dizendo-nos que a memória é uma ocupação de falhados, não suporta o utiliatarismo que os novos iluminados habitam no conforto dos gadgets sem ideal humano.

Mas façamos um esforço, reconheçamos a esta meia dúzia de sonhadores o seu grito e o seu exemplo. O da palavra contra a violência, a explicação, o olhar que procura conhecer, o do testemunho para que se saiba se conheça, pela poesia, pela crónica, pelas imagens, pelas narrativas. E o seu grito final o de quem compreendeu que o impossível por ser humanamente inconcebível pode ser uma opção dos que vivem com os olhos na morte.

Após dois mil anos de sujeição, de incompreensão, alguns judeus perceberam que apenas lutando poderiam gritar o que sentiam, e tentar, apenas tentar mudar a sorte talhada nos campos de extermínio a que uma sociedade alemã, promessa de um desenvolvimento económico decidia encolher os ombros. Não dizia Heiddeger, o filósofo da emanência do ser que "as mãos de Hitler eram de uma beleza insuperável"?

Lembremos pois esses poucos, que nos mostraram no gueto de Varsóvia que a luta é a melhor forma de defender o que somos, e que embora divididos como o estavam em grupos e movimentos souberam lutar, heroicamente,na Passover, por uma dignidade contra os que apenas os queriam aniquilar. 

Fazem hoje setenta e um anos sobre esse levantamento no gueto de Varsóvia e essa luta de grandeza pela dignidade humana. É possível conhecer esta luta e o que foi a vida no gueto de Varsóvia, naquilo que foi o trabalho desenvolvido pelo historiador Emmanuel Ringelblum e que permitirira mais tarde criar o Holocaust Research Project. Pela sua vertente pedagógica e informativa, também de grande relevo o United States Holocaust  Memorial Museum.     

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Memória, cidadania e cultura - A Memória nos livros




Os livros dão-nos a memória do que representou em todos os momentos da existência, o Nazismo e a sua ideologia de extermínio a milhões de pessoas. Do trabalho, à vida pública, às relações sociais, à possibilidade de viver em família, aos gestos mais particulares e íntimos de uma pessoa houve repercussões que o gravaram como a mais baixa forma de existência da Humanidade. Deixamos alguns dos possíveis livros que nos dão essa proximidade do que foi o desespero de milhões de pessoas. Alguns deles estão em mostra na Biblioteca na exposição feita para homenagear uma memória e a mais inexplicável história humana.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Gandhi - a consciência da humanidade

«Sempre foi para mim um mistério o facto de os homens se sentirem honrados com a humilhação dos seus semelhantes.» (1)

A trinta de Janeiro de 1948, despedia-se deste mundo físico um homem de uma imensa grandeza, que com simplicidade, determinação e beleza soube congregar em si a dimensão única da consciência da Humanidade. Fez da verdade e da justiça a sua causa de vida, enfrentou o Império britânico com a força do espírito, com a sua satyagraha, onde juntou a sua preocupação com os outros à ideia de não-violência.

Albert Einstein, disse dele, em 1948, «gerações vindouras dificilmente acreditarão, que um homem destes, de carne e osso, tenha alguma vez andado por este Planeta». Relembramos, hoje, os sessenta e seis anos de uma memória excepcional, Mahtama Gandh e lembrar os esquecidos ideais humanos, na medida em que essa memória representa a consciência da própria humanidade.

Falamos aqui de uma figura intemporal que lutou com energia, abnegação e inteligência por um mundo mais justo e mais igual entre todos. Com consciência lutou pela verdade nas relações humanas, mostrou-nos que a força do espírito, alimentado pela razão pode vencer impérios e que não existem deuses acima da Verdade, considerada como valores universais.

Lutou pela independência da Índia através da desobediência civil, através de marchas cívicas de protesto ordeiro, aceitando o sofrimento para justificar uma causa nobre e defendendo a verdade, mesmo que representada num só homem. Defendeu o trabalho manual, a reposição da dignidade entre todos, a recuperação da auto-estima dos mais humildes na sua construção individual do futuro. Conduziu a sua vida na conquista de um sonho, o mais elevado. Iluminar a Humanidade para um caminho de paz e harmonia. Deixou-nos elevados valores ligados à liberdade individual, condições para afirmar a liberdade política, a justiça social e a tolerância.

 Criou um pensamento que assentava em dois princípios: a Satyagraha (a força da verdade e do amor) e o Ahimsa (a não-violência). Todos os movimentos que no século XX lutaram contra a opressão dos impérios coloniais, ou contra a violência ou o racismo inspiraram-se nele. Todos os homens que aspiraram no século XX a um mundo melhor, livre da injustiça social, da guerra e da ditadura individual foram procurar motivação nas suas palavras.

De Martin Luther King a Nelson Mandela e a Aung San Suu Kyi na Birmânia, todos compreenderam que a força do seu exemplo e a nobreza da sua causa permitiram fazer evoluir o Homem. Da guerra do Vietname à praça de Tianamen, o seu exemplo deu força à coragem de alguns para se construir uma Humanidade mais fraterna. Este homem, vítima da intolerância, no seu próprio tempo, com as questões relacionadas com a separação da Índia e do Paquistão, após a saída dos Ingleses, guardou para nós o melhor de uma consciência mundial, disponível a todos.

              (1) Mahatma Gandhi, 1893, durante os protestos na África do Sul

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Memória, cultura e cidadania - Aristides - Memórias do Holocausto

Na homenagem às vítimas do Holocausto merece referência um homem muito especial, Aristides de Sousa Mendes. Lembremo-lo como um homem imenso que também participou naquilo que foi a caminhada dos justos. Aristides é um exemplo a diversos níveis. Conhecer a sua vida, o enquadramento social, económico e cultural de outras figuras do País cinzento dos anos trinta e quarenta dá-nos uma real dimensão do seu valor. 

Aristides foi um homem que ensinou ao mundo e a este País como a nossa única obrigação é com a nossa consciência. Ignorado nos livros de História durante décadas deu-nos a honra de vincular este País a um verdadeiro heroísmo, o de contribuir para a civilização contemporânea de um modo construtivo, mas acima de tudo empenhado com a sua tradição humanista.

Um homem que provou na sua vida o que é a bondade, o que é estar preocupado com os outros, com o seu futuro, com o modo como vivem. Um homem que se preocupou com a vida dos outros e que fez por essa defesa mais do que um País inteiro, num tempo difícil. Quando se recomendava a cautela ele ousou contra os maiores perigos, desafiando os que proibiam, perseguiam e calavam os que queriam ter a possibilidade de dizer uma palavra, a da sua dignidade.

Um homem generoso, cristão de formação, diplomata de profissão salvou milhares de vidas, arriscou na sua consciência a sua própria família ensinando-nos o valor da partilha e da luta por uma convicção. Salvou um grande número de judeus pelos vistos que lhe foi consecutivamente atribuindo, de modo a que fosse possível salvar a vida de pessoas que apenas queriam existir.

Um homem que revelou nas dificuldades que sofreu, nas humilhações recebidas, mas essencialmente na luta abnegada pelo amor à vida a imensa, a infinita mediocridade dos caminhos estreitos e sem brilho que Salazar outorgava a um país, triste e sem grandeza.

Chamou-se Aristides de Sousa Mendes. O livro em cima, dá-nos uma ideia do valor da solidariedade e do papel da consciência do consul de Bordéus. Num País  em que é significativo a falta de figuras e instituições capazes de honrar a memória do País, ele é também para nós alguém que superou a memória do Holocausto. A história construída apenas para existir, sem grandeza é uma das limitações do presente e é com figuras inspiradoras que podemos voltar a ousar sobre a injustiça. É esse o grande papel de Aristides de Sousa Mendes.

Memória, cultura e cidadania - Testemunhos do Holocausto

"Nunca nenhum de nós se tinha encontrado numa situação tão perigosa como a da noite passada. Deus protegeu-nos. Imagina a Policia a remexer na estante da nossa porta giratória, iluminada pela luz acesa, sem dar connosco! Em caso de invasão, com bombardeamentos e tudo, cada um de nós pode responder por si próprio. Neste caso, porém, não se tratava só de nós, mas também dos nossos bondosos protectores.

Estamos salvos. Não nos abandones! É apenas isto que podemos suplicar.Este acontecimento trouxe consigo algumas modificações. O sr. Dussel já não trabalha à noite no escritório do Kraler mas sim no quarto de banho. Às oito e meia e às nove e meia o Peter faz a ronda pela casa. Já não pode abrir a janela durante a noite. Depois das nove e meia não podemos utilizar o autoclismo do W.C. Hoje à noite vem um carpinteiro reforçar as portas do armazém. Há discussões a tal respeito, há quem pense que não se devia mandar fazer isso.

O Kraler censurou a nossa imprudência e também o Henk disse que não devíamos em tais casos descer ao andar de baixo. Fizeram-nos ver bem que somos «mergulhados», judeus enclausurados, presos num sitio, sem direitos, mas carregados de milhares de deveres. Nós, judeus, não devemos deixar-nos arrastar pelos sentimentos, temos de ser corajosos e fortes e aceitar o nosso destino sem queixas, temos de cumprir tudo quanto possível e ter confiança em Deus. Há-de chegar o dia em que esta guerra medonha acabará, há-de chegar o dia em que também nós voltaremos a ser gente como os outros e não apenas judeus.

Quem foi que nos impôs este destino? quem decidiu excluir deste modo os judeus do convívio dos outros povos? quem nos fez sofrer tanto até agora? Foi Deus que nos trouxe o sofrimento e será Deus que nos libertará Se apesar de tudo isto que suportamos, ainda sobreviverem judeus, estes servirão a todos os condenados como exemplo. Quem sabe, talvez venha ainda o dia em que o Mundo se aperceba do bem através da nossa fé, e talvez seja por isso que temos de sofrer tanto. Nunca poderemos ser só holandeses, ingleses ou súbditos de qualquer outro pais. Seremos sempre, além disso, judeus. E queremos sê-lo.

Não percamos a coragem. Temos de ter consciência da nossa missão. Não nos queixemos, que o dia da nossa salvação há-de chegar. Nunca Deus abandonou o nosso povo. Através de todos os séculos os judeus sobreviveram. Através de todos os séculos houve sempre judeus a sofrer, mas através de todos os séculos se mantiveram fortes. Os fracos desaparecem mas os fortes sobrevivem e não morrerão!

Naquela noite pensei que ia morrer. Esperava pela Policia, estava preparada como os soldados no campo de batalha, prestes a sacrificar-me pela pátria. Agora que estou salva, o meu desejo é naturalizar-me holandesa depois da guerra. E Gosto dos holandeses, gosto desta terra e da sua língua. É aqui que gostava de trabalhar. E se for preciso escrever à própria rainha, não hei-de desistir enquanto não conseguir este meu fim.

Sinto-me cada vez mais independente dos meus pais. Embora seja muito nova ainda, sei, no entanto, que tenho mais coragem de viver e um sentido de justiça mais apurado, mais seguro do que a mãe. Sei o que quero, tenho uma finalidade, uma opinião, tenho fé e amor. Deixem-me ser eu mesma e estarei satisfeita. Tenho consciência de ser mulher, uma mulher com força interior e com muita coragem.

Se Deus me deixar viver, hei-de ir mais longe de que a mãe. Não quero ficar insignificante. quero conquistar o meu lugar no Mundo e trabalhar para a Humanidade.
O que sei é que a coragem e a alegria são os factores mais importantes na vida!"

(Excertos do diário de Anne Frank, um dos muitos testemunhos sobre a representação no quotidiano do Holocausto e da ameaça aos judeus).

Memória, cidadania e cultura - O Holocausto - Explicar o inexplicável

«As guerras podem ser causadas por indivíduos fracos ou cretinos do ponto de vista moral, mas são combatidas e suportadas por gente muito decente» (1)

Se a cultura é a acumulação de ideias e valores que organizam uma Nação, os padrões civilizacionais de um Povo, a da Alemanha foi na História Contemporânea das mais intensas da Europa. No país de Gothe, Einstein, Beethoven, de Kurt Weill o património acumulado nas artes, no pensamento, era simbólico para a cultura europeia. Neste sentido como explicamos essa doença maligna em que o espírito humano se quebrou perante os mais nefastos fantasmas, o Nazismo.

Aquele foi o regime onde se assistiu à maior regressão da história humana. O Nazismo foi a confirmação de uma sociedade sem princípios racionais, assente nos mais nefastos instintos, o culto irracional pelo ódio e pela morte. Foi a consagração de uma religião incompreensível da loucura, onde a perda da vida uma etapa banal na conquista do poder e da glória.

E no entanto, foi um regime com assinaláveis vagas de popularidade. Antes dos fantasmas emergirem da noite para a mais clara luz, o Fuhrer chegou a ser considerado pessoa muito respeitável. De aparência em aparência o regime conquistou adeptos. A verdade difícil, cruel, trágica é que milhões de alemães acreditaram na causa nazi e muitos, demasiados jovens morreram pelo seu Fuhrer. Houve opositores ao regime nazi? Sim, mas proporcionalmente foram poucos. Como explicar este dilema?

Todas as respostas serão insuficientes, ingratas, insatisfatórias, incompletas de sentido para explicar a emergência do Mal absoluto. As condições do tratado de Versalhes, a crise económica e social, o desemprego, a inflação, a crise monetária, a derrota alemã em 1918, a psicologia teutónica tudo é pouco para justificar esta contradição. Quando se comemora o dia do Holocausto é necessário refletir sobre esta esta enigmática e cruel realidade. É uma oprtunidade para analisar a genialidade do mal. Custa admiti-lo, mas o Mal também pode ser servido por génios. A História como disciplina ignora muitas vezes o papel do indivíduo, integrando-o em grandes movimentos. Este é um caso em que um indivíduo servido por uma  ideologia irreconhecível, uma máquina de propaganda, condições históricas particulares e uma psicologia e filosofias únicas soube criar a maldade extrema na sociedade humana.

É fundamental perceber isto. É decisivo compreender como a cultura e a história se relacionam e como o discurso da cultura muitas vezes já o é ao serviço de ideologias transformando-se apenas em propaganda. Aqui se compreende como a História como disciplina oferece possibilidades formativas para que a sociedade evolua em todos os sentidos, naquilo que é a dignidade humana.

A História não se repete nas formas, mas pode voltar noutras condições oferecer uma igual falta de dignidade para a Humanidade. Só discutindo o mal se pode estar atento e preparado. É essencial pensar nos mecanismos do poder, no controle feito sobre o indivíduo, na desvinculação social, nas respostas únicas. De Heidegger, a Sartre, quantos "bons" filósofos não estavam inconscientes, para com o mal absoluto, em tantos regimes do século XX, que não sabiam reconhecer o outro como pessoa.

(1) Testemunho de pilloto da Luftwaffe,
citado em A Vida Perdida de Eva Braun

Memória, cidadania e cultura

Ainda está por deslindar o essencial da história desta feliz coincidência entre a desumanidade mais sistemática e uma forma de simpatia ou de indiferença geradora de uma cultura tão elevada". (1)

A vinte sete Janeiro de 2005, a Assembleia-Geral dass Nações Unidas instituiu este dia, como o Dia do Holocausto, em memória das vítimas daquilo que o nazismo chamou a solução final. No mesmo dia, em 1945 era libertado um dos locais, onde a Humanidade perdeu a sua dignidade, os campos de concentração de Auschwitz-Birkenau. É um dia e um acontecimento que nos remete para o mais difícil de explicar na História da Humanidade. 

Alguns escritores e cineastas têm tentado explicar esta doença mais cruel do espirito humano, que foi o nazismo.  Deixamos alguns dos filmes que melhor deram conta desta incapacidade de como sociedade impedirmos o inaceitável. São muitos deles em grande medida documentos históricos sobre o Holocausto e o Nazismo.



 A Biblioteca passará ao longo do dia, uma dessas obras, O Pianista, de Roman Polanski e fará uma breve mostra de livros sobre o nazismo. Nos intervalos passarão excertos da Lista de Shindler. É importante e necessário nesta data pensar como a cultura, a educação, o conhecimento permite ou não estabelecer elementos essenciais na construção de sociedades evoluídas materialmente e como estas se podem conciliar com as mais tenebrosas formas de existência. 

Se em A Noite e o Nevoeiro, de Alain Resnais, tomamos contato com o foco onde as imagens de uma câmara de filmar projectam o fundo trágico do cenário inquietante e incompreensível da Soah, em O Ovo da Serpente, deIngmar Bergman, onde este nos dá a procura de uma resposta para que se visualize a origem desse mal e o modo como os fantasmas emergiram da noite para a luz. 

Em Saudade de Veronika Voss de Rainer Werner Fassbinder, reconstroem-se as memórias do nazismo, onde somos devolvidos à construção de vidas, de uma sociedade triunfante sobre os escombros de uma moralidade sem direitos humanos e onde a reconstrução do pós-guerra se torna impossível de concretizar, para os que no passado recente o tinham alcançado. Em A Vida Maravilhosa e Horrível de Leni Riefenstahl, de Ray Muller, temos acesso a um documento interessante para compreender como ocinema e a arte podem estar ao serviço da propaganda que condicionaou milhºoes nas suas vontades e opções de vida. 

Leni Riefenstahl, em O Triunfo da Vontade, filma todo o aparato das massas nos comícios do partido nazi em Nuremberga. Apesar de trágico, é um filme que nos mostra como o cinemapode criar líderes e influenciar multidões e como ele pode funcionar como documento da História e criador de ideologias. 

A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, dá-nos o retrato do que significa o Holocausto para milhões de judeus e o como estar vivo era apenas uma questão de sorte, a de alguém escolher para um trabalho que permitisse a sua sobrevivência. Oscar Shindler optou, como membro do partido, de usar a sua influência para salvar pessoas da morte. O Pianista de Roman Polanski, confirma-nos essa ideologia de morte, dos mais baixos níveis de indignidade humana, numa história verídica sobre um homem que viveu esse pesadelo e pôde sobreviver.

(1) George SteinerO silêncio dos livros

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

George Orwell - a construção da liberdade

"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário (1)".

Há figuras, personalidades que pensam os seus dias, dão-nos formas de desenhar a construção do quotidiano e lembram-nos como a nossa fragilidade, o nosso desamparo se apresenta como um molde por onde os mais desjustados à dignidade humana se confinam em páginas de indiferença. Fez ontem, sessenta e quatro anos que deixámos de visitar a presença física de um homem que compreendeu como poucos o que foi o século XX - Geoge Orwell.

Foi um dos escritores que mais influenciou o século XX. Deixou uma obra importante que soube diagnosticar a tragédia humana que representou o século XX em tantas geografias. De A Quinta dos Animais, entre nós,  Triunfo dos Porcos, a 1984, a sua obra traçou, como uma alegoria, os mecanismos do desprezo pela humanidade que marcaram significativamente o século passado.

Orwell, demonstrou com clareza, como o controle da informação, o apagamento da memória, a destruição de uma consciência humana, a ausência da individualidade, a anulação da espiritualidade construiram regimes inquietantes, feitos de angústia e sofrimento de dimensões indescritíveis. Revelou nas suas páginas, o que muitos respeitados intelectuais não souberam verificar, quando as marchas de paz no Mundo, eram a expressão armadilhada de uma doutrina de tirania.

O início do século prometia uma difusão de regimes democráticos, perto do que alguns consideraram a progressão da História. Vivemos a confirmação do regresso da História, onde a promessa de uma humanidade «feliz», onde a dignidade seja respeitada continua, não só por construir, mas como regrediu a níveis preocupantes. Ao poder esmagador dos estados autoritários do século XX, assiste-se pela fragmentação dos poderes tradicionais à mesma limitada oportunidade que o indivíduo tem em garantir a sua voz de individualidade.

As transformações tecnológicas têm contribuído para isolar o indivíduo, pelo controle quase de ubiquidade que as máquinas permitem e pelo tempo desperdiçado na sua aprendizagem que nunca poderá ser de igual riqueza ao que se dispende a alimentar o conhecimento dos outros. Sendo o tempo uma realidade tão preciosa, a evolução económico-social tem garantido a liberdade humana, nas instituições que devem garantir a Democracia?

Tocqueville há dois séculos lembrou que para as sociedades democráticas, as que respeitam a identidade humana, o mais perigoso é que «no meio das pequenas ocupações incessantes da vida privada, a ambição perca o seu ímpeto e a sua grandeza (2)". Estamos pois de regresso às palavras de Orwell e essa é a sua grande "vitória", do tempo que o compreendeu muito limitadamente. 

(1) George OrwellSelected Writings, Penguin
(2) Alexis de TocquevilleDa Democracia na América
Imagens, in http://www.famousauthors.org/george-orwell

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Luther King - As palavras e os gestos da coragem

"I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident; thal all men are created equal".

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today". (...)


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Muro de Berlim


"Na medida em que a hipótese central do totalitarismo repousa sobre o "tudo é possível", uma cidadania sensata e uma ação racional devem repousar sobre a hipótese inversa de uma constituição da natureza humana, ela própria justificada pela sua capacidade de abrir, de preservar ou reconstruir um espaço político." (1)

Vivemos tempos em que a memória é pouco relevante na construção do quotidiano e perdemos a noção do valor que gerações emprestaram às suas lutas por uma sociedade decente, onde os valores humanos representavam a marca de gerações pelo bem comum. Esta descontinuidade com o passado é uma das causas porque olhamos passivamente para a desigualdade social e lidamos com a indiferença, perante as dificuldades de cidadãos e povos.

Passaram ontem vinte cinco anos sobre mais um dos símbolos de opressão que o século XX erigiu. O muro de Berlim é um dos marcos do século XX, pois nele viveu o simbolismo de um mundo dividido, após o fim da segunda guerra mundial, onde dois modos de o ver eram tão demarcados no quotidiano. Acreditou-se que as ideias, a coragem bastariam para derrubar as formas opressoras da dignidade humana. Os traços essenciais.

Até 1961 os habitantes de Berlim, os berlinenses tinham acesso a circular livremente dentro da sua cidade. Fruto da guerra fria e da migração dos habitantes de Berlim Oriental para ocidente, iniciou-se a construção de um muro a treze de Agosto de 1961. A sua construção dividiu ruas, prédios, separou famílias em poucas horas, tinha torres eletrificadas, protegidas por arame farpado e vigiava todo o seu extenso espaço com cerca de trezentos postos militarmente guardados. 

O muro representou o pior de um mundo que não respeitava a liberdade individual das pessoas, a sua humanidade perante um estado policial que segregava as vidas dos cidadãos. Os anos oitenta viram cair uma sociedade que impedia a participação do cidadão e onde o Estado podia regular tudo. A apologia do militar, suportada numa organização obsoleta não saberia resistir às mudanças. A nove de novembro de 1989, o mundo cairia, consequência da vontade de muitos alemães de se mudarem para a parte oeste, processo que se verificou incontrolável. O fim do muro representou o início do fim da guerra fria e a ideia de uma abertura para um mundo mais livre e participativo. Em 1990 as duas Alemanhas iriam reunificar-se juntando um único País. 

Embora não o soubéssemos na altura, o século XX terminou em 1989. Outros muros se levantaram, erguidos por uma cegueira fundamentalista sem memória. O muro abriu uma porta que a classe política europeia não soube aproveitar. Na queda do muro de Berlim participaram, lutaram, viveram e morreram gerações de homens e mulheres que acreditaram na liberdade individual como forma de expressão do desenvolvimento humano e como este é inseparável de uma procura de nivelação de direitos culturais e sociais.

 O muro tornou-se hoje quase um episódio de arqueologia histórica, pois os que o comemoram têm-se esquecido do valor das instituições e do papel dos movimentos sociais e do valor dos sonhos individuais na sua dinâmica. Na crise europeia, o muro de Berlim ainda é um espelho para os que se têm esquecido que os pressupostos de uma desvinculação à sociedade pelos aparelhos políticos e governativos, mantidos apenas por grupos fechados, formou o ponto de construção de sistemas totalitários no século XX. A História serve sobretudo para fazer questões e compreender a sua complexidade. É essa ainda uma das lições do Muro de Berlim.

(1) - Hannah ArendtBetween Past and Future: Eight Exercises in Political Thought.

domingo, 5 de outubro de 2014

5 de Outubro de 1910

A Implantação da República em 5 de Outubro de 1910, é um dos grandes acontecimentos da História Contemporânea de Portugal, pelas tentativas de transformação de uma sociedade e pela originalidade que na Europa essa forma de governo ainda era pouco generalizada.

Sobre uma monarquia pouco adaptada às transformações económicas e sociais do fim do século XIX, os republicanos souberam aproveitar um imenso descontentamento social com as reais condições de vida da população, a que se juntava uma crise financeira, a difusão das ideias socialistas e a afirmação crescente em sectores operários das ideias republicanas.

A República foi uma primeira tentativa no século XX de modernizar, democratizar e dar à população uma componente de cidadania, capaz de projectar o País numa possibilidade nova de desenvolvimento económico. Neste sentido, a educação como instrumento para formar cidadãos informados e participativos, onde a população pudesse ser alfabetizada foi uma das suas grandes iniciativas. Desvincular o ensino da religião e criar um estado laico, sem religião oficial, foram outras das suas preocupações.

A população, de maioria rural, estava pouco receptiva para as necessidades de escolarização. A República revelou-se pouco sensível à situação económica e social das pessoas. Transformou a questão religiosa num dos aspectos centrais da sua governação e acabaria por afundar-ser num conjunto largo de desilusões.

A crise financeira, a instabilidade governativa, a anémica construção de instituições  que não souberam dar garantias efectivas de democratização e de cidadania, aliadas às desastrosas consequências na economia, da participação na 1ª Grande Guerra, afectaram de modo significativo a balança comercial e afundaram o projecto da 1ª República.

As ideias da 1ª República seriam retomadas em contextos diversos, após o fim do Estado Novo. A incapacidade de o sistema político reformar o Estado e assim suavizar a organização social ou o papel pouco estruturado, de como as ideias da cultura, foram sempre aproveitadas para a dinamização social foram constantes da História portuguesa do século passado.

A História do século XX em Portugal é marcada por esta falta de integração do outro. Se a 1ª República fez as primeiras tentativas de democratização no século XX, é perturbador verificar que existem pontos de continuação reveladores da pouca consistência social e económica em muitas franjas humanas do País.

A comemoração do centenário da República, feito em 2010,  não despertou nenhuma capacidade de interrogar a memória do sentido da República neste século. Sem essa inquietação, alimento do sonho não é possível aprender a conquistar o presente, ameaçado de uma gritante falta de dignidade. A abolição do feriado por um governo que anseia que todos se distraiam do essencial e de uma ideia de comunidade participada é a confirmaçao, aos que ainda não perceberam como vivemos em tempo de negação do essencial, a dignidade humana.

Imagem, "Resistência Republicana à Luta contra a Ditadura (1891-1974),
in Centro Português de Fotografia - Porto - 2010