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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A palavra e o mundo - A Pérola (II)

E a beleza da pérola, que brilhava e cintilava à luz da pequena vela, perturbou o seu cérebro. Era tão bela, tão macia, desprendia-se dela uma música própria - a sua música de promessas e delícias, a sua garantia de futuro, de conforto, de segurança. O seu brilho quente prometia um remédio contra a doença e uma muralha contra os insultos. Fechava a porta à fome. Ao olhar para ela, os olhos de Kino adoçaram-se e o seu rosto descontraiu-se. Viu a pequena imagem da vela consagrada refletida na superfície lisa da pérola e voltou a escutar a música maravilhosa do mar, o tom da luz verde, difusa, do fundo do mar. Juana, espreitando o seu rosto, viu-o sorrir. E porque, de certa forma, eles eram um só com uma só vontade, sorriu ele.
E principiaram aquele dia com esperança.

A Pérola é um clássico da literatura. A reedição dos livros lidos dá-nos a possibilidade de voltar a ler o que já lemos e construir uma nova leitura. Nesta leitura a dimensão de parábola devolve-nos pormenores já esquecidos ou recortes de um drama humano que já tínhamos esquecido. A Pérola é uma pequena narrativa de um sonho, a luta persistente para mudar as linhas escritas da pobreza. 

Nela vemos a luta antiga por esse ideal que sonha em ultrapassar a fome e a doença e dar a cada homem a possibilidade de construir o seu mundo, ainda que seja só um plano, um esboço de felicidade. O canto da terra, a natureza com as suas formas e cores, os seus silêncios e rumores e a linguagem do canto interior às coisas. A linguagem que pressente o bem e o mal, a esperança, a raiva e a ambição fazem parte desta adaptação de um conto popular mexicano, uma obra de grande significado.

A Pérola é quase uma parábola sobre a vida. Condensa o bem e o mal com que os humanos habitam a vida, entre a maior nobreza e a cobiça mais feroz. História de uma solidariedade, de uma família e desse canto mais íntimo ligado à terra e ao que ele transporta. Um exemplo de uma escrita em que Steinbeck alia a descrição rápida com o sentimento das personagens fazendo correr a narrativa com um brilho que nos faz ler com grande prazer. O escritor de Salinas é um dos grandes escritores do século XX pela capacidade de construir personagens que são memória e fruto desse património, a ruralidade, aqui num espaço localizado, numa cultura de pescadores.

A Pérola acaba por ser uma visão do que pode ser a vida, entre a maior rudeza, as necessidades mais essenciais e a conquista pelo privilégio do dinheiro e do poder pelos que já o têm. O fim do livro é uma pequena vitória para Kino e Juana, mas há nessa restituição ao mar algo de protecção à cobiça dos mais ricos, dos instalados no poder. E, no fim o valor da Natureza como consagração da essência que o homem tenta destruir. Fim que não deixa de ser desolador por um sonho que morre perante os contrafortes da ignorância, alimentada em universos dominados pela corrupção e pela insensibilidade.

A Pérola é assim um livro eterno de um escritor essencial, narrador da América, das condições de trabalho das pessoas, mas também um escritor do mundo, pela sua consciência universal. Uma escrita a envolver-nos com essa grandeza, que aqui Kino dá conta, "tinha perdido o seu mundo anterior e agora tinha de se agarrar a um mundo novo. Porque o seu sonho de futuro era real e não podia ser destruído" (p. 498). A grandeza de pensar um mundo e torná-lo real faz de A Pérola um livro notável e de Kino uma das grandes personagens da Literatura.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A palavra e o mundo - A Pérola

Estava prestes a amanhecer quando Kino acordou. As estrelas ainda brilhavam e o dia espalhava apenas uma desbotada claridade no horizonte. (...) Kino ouviu o rebentar das ondas matinais na praia. Gostava de o ouvir - Kino fechou os olhos de novo para escutar a sua música. Talvez mais ninguém o fizesse ou talvez toda a sua gente tivesse feito o mesmo. O seu povo tinha sido outrora grande cultor de canções, de tal modo que tudo o que via ou pensava, ou fazia e ouvia, se transformava numa canção. Mas isso já tinha sucedido havia muito tempo. No entanto, as canções tinham permanecido. (...)

O povo de Kino tinha cantado tudo o que acontecia ou existia. Tinham feito canções aos peixes, ao mar enfurecido e ao mar em calmaria, à luz das trevas e ao Sol e à Lua, e essas canções estavam todas em Kino e na sua gente - todas as canções que tinham sido feitas, até mesmo as que estavam esquecidas. E, enquanto enchia o seu cesto, a canção soava dentro de Kino e o ritmo da canção era o bater do seu coração, a queimar o oxigénio do fôlego retido, e a melodia da canção era a água verde-acizentada e os pequenos animais que fugiam precipitadamente e as nuvens de peixes que adejavam junto dele e desapareciam. Mas, dentro da canção havia um pequeno canto interior e secreto, quase imperceptível, mas sempre presente, doce, secreto, fiel, quase escondido na contramelodia, que era o Canto da Pérola Ambicionada, porque cada concha atirada  para o cesto podia conter uma pérola.

(...)
Olhou por momentos para o cesto. Talvez fosse melhor deixar a ostra para o final. Tirou do cesto uma ostra pequena, cortou-lhe o manto, pesquisou entre as dobras de carne e atirou-a para a água. Então pareceu ver a grande ostra pela primeira vez. Acocorou-se no fundo da canoa, pegou na ostra e observou-a. As estrias brilhavam em tons de preto e castanho e tinha poucas cracas agarradas à casca. Kino hesitou em abri-la. Sabia que o que vira podia ter sido um reflexo, um pedaço de concha arrastado por acaso ou pura e simplesmente uma ilusão. Naquele golfo de luz incerta havia mais ilusões do que realidades.
Mas os olhos de Juana estvam cravados nele e ela não conseguia esperar mais. Pousou a mão sobre a cabeça tapada de Coyotito. - Abre-a - disse suavemente. Kino introduziu habilmente a faca entre as valvas da concha. Sentia a resistência do manto contra a faca. Usou a lâmina como uma alavanca e o músculo cedeu e a concha abriu-se. A carne semelhante a um lábio contorceu-se e depois descaiu. Kino ergueu a carne e lá estava ela, a grande pérola, perfeita como a Lua. Captou a luz, sublimou-a e refletiu-a em incandescências prateadas. Era tão grande como um ovo de gaivota. Era a maior pérola do mundo.

John Steibeck. (2015). A Pérola. Porto: Livros do Brasil, páginas. 7, 20, 21 e 22

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A palavra e o mundo - Viagens com o Charley (II)

As cidades americanas são como buracos de texugo, rodeadas, todas elas, de rebotalho, cercadas por pilhas de automóveis destruídos e a enferrujar, e quase asfixiadas em refugo. Tudo quanto usamos vem em caixas, caixinhas e caixotes, as chamadas embalagens de que tanto gostamos. Os montes de coisas que deitamos fora são muito maiores do que as coisas que usamos. 

Nisto, se não for por outro meio, podemos ver a exuberância desenfreada e perdulária da nossa produção, e o desperdício parece ser o seu índice. Seguindo o meu caminho, pensava como em França e na Itália cada uma destas coisas deitadas fora seria guardada e aproveitada para algo. Isto não é dito como crítica de um sistema ou de outro, mas pergunto a mim mesmo se não virá o tempo em que já não possamos permitir-nos o nosso desperdício – desperdícios químicos nos rios, desperdícios de metais por toda a parte, e desperdícios atómicos profundamente sepultados na terra ou afundados no mar. Quando uma aldeia índia ficava demasiado enterrada na sua própria imundície, os habitantes mudavam de lugar. Mas nós não temos lugar para onde mudar. (…)

O meu caminho seguiu para o Norte, pelo Vermont, e depois para o Leste, pelo New Hampshire, pelas montanhas Brancas. Os lugares à beira da estrada estavam cheios de abóboras-morangas douradas, de abóboras castanho-avermelhadas, e de cestos de maças vermelhas tão quebradiças e docas que pareciam explodir em sumo quando as mordia. Comprei maçãs e um garrafão de um galão de sidra recentemente espremida. Creio que toda a gente ao longo das estradas vende mocassins e luvas de camurça. 

E também não há quem não venda doces de leite de cabra. Não vira até antão armazéns de venda direta das fábricas em pleno campo, vendendo calçado e roupas. Suponho que as aldeias são as mais bonitas de todo o país, limpas e pintadas de branco, e, não contando com os motéis e acampamentos turísticos, imutáveis há cem anos, exceto quanto ao trânsito e às ruas pavimentadas.

O clima mudou rapidamente para frio e as árvores rebentaram em cor, com vermelhos e amarelos que não podem imaginar-se. Não é apenas cor, mas um brilho, como se as folhas engolissem a luz do Sol de outono e a libertassem depois lentamente. Há uma quantidade de fogos nestas cores. Fui subindo as montanhas, tendo chegado muito acima antes do crepúsculo. 

John Steinbeck. (2016). Viagens com o Charley. Lisboa: Livros do Barasil, págs 33 e 34. Imagem: Vermont, (último estado a nordeste que faz fronteira com o Alasca).

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A palavra e o mundo - Viagens com o Charley

"Por outras palavras, não melhoro, ou, indo mais longe, quem foi vadio é sempre vadio. Receio que a doença seja incurável. Menciono este assunto, não para ensinar os outros, mas para me informar a mim mesmo". (pág. 13)

Viagens com o Charley é um livro de John Steinbeck, publicado em 1962, nas vésperas de ele receber o Prémio Nobel da Literatura e que recentemente foi editado pelos livros do Brasil. Trata-se de um livro delicioso, uma daquelas obras raras que consegue ser uma conversação com o leitor. Escrito com grande honestidade, o livro funciona como uma leitura de um País, a América no início dos anos sessenta e a revelação mais íntima de uma história de vida, de um conjunto de memórias e de um património cultural. Lendo-o, conhece-se melhor John Steinbeck, a sua personalidade, as suas opções de vida e os seus valores humanos.

A América de Steinbeck, aquela que ele nos dá é ainda uma América que não conhece ainda as contradições que o final da década acentuará, mas há já uma visibilidade das transformações de uma sociedade em mudança. O valor do livro passa por essa capacidade de revelação da América, mas também pela perceção da mudança. Com grandes descrições do natural, das paisagens de um conjunto alargado de estados, Viagens com o Charley é um convite para conhecer um escritor que faz da terra, das condições de vida e do património da América a matéria-prima da sua escrita.

Com Steinbeck e Viagens com o Charley compreendemos  como o particular pode ter uma dimensão universal. A escrita do autor nascido em Salinas tem em Viagens com o Charley um momento mais, de grande valor literário e cultural, pela descoberta que ele nos revela de uma América e para a compreensão dos seus valores mais característicos, no início de uma década, que em muitos sentidos mudaria o mundo.

Escrito numa linguagem dominada pelo humor e por algum ceticismo, Viagens com o Charley acaba sendo uma reflexão crítica sobre a América, a sua história, as suas paisagens humanas. Nele vemos já a discussão do que tem feito o mundo caminhar por linhas preocupantes de abandono do seu património natural. Viagens com o Charley em muitos aspetos é um alerta profético, uma campainha a tocar sobre a ideia que a mudança em si nem sempre serve o homem e a sua felicidade.