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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Sophia - "Em todos os jardins"

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia.
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.
  
Um dia serei eu o mar e a sereia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como um beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia, De Mar (Antologia), Caminho 
Imagem, Dos Jacarandás de junho, na Boavista.

(No fim deste mês, um poema de Sophia, que foi um dos autores em destaque na Biblioteca e para a qual se criará entre a próxima semana e o fim do 1º período uma exposição temática, "o mar de Sophia", que convidamos todos a conhecer e a participar. Daremos notícias disso pelos canais habituais.)

Eugénio - "O indulgente cativo"

Há pouco mais de um ano uma revista que procura na cidade do Porto conduzir-se entre as artes, os livros e as bibliotecas, publicou um texto, que foi lido publicamente no velho Guarani e onde participou um artista plástico que deu corpo a diferentes projetos de cidadania, H Mourato. Essa revista, As Artes entre as Letras deixou um texto num dos seus números de 2013, em evocação de Eugénio, lembrando esse tempo que o poeta dizia a sua poesia na cidade crepúsculo. Nesta despedida do mês de novembro, um texto,  que nos lembra a luz das suas palavras e de algum modo esse mundo dos cafés e das tertúlias, onde tantas ideias se ajuntaram para qualquer coisa mais belo.

"Com aquele semblante austero, aquele olhar levantado e distante quando era visto (ou quando se via) passar; com aquela solitária presença, protegido de silêncio ou mergulhado profundamente, com todos os sentidos, numa leitura absorvente, quem ousava romper uma tal serenidade ou quebrar essa muralha com que procurava proteger-se? E, no entatnto, bastava uma saudação amável ou até um sorriso apenas para "abrir a porta". (...)

O halo da sua presença atraía e, com aquela sua voz inconfundivelmente amável e sedutora, quem quer que o ouvisse não podia deixar de ficar preso à sua musicalidade nem à sabedoria adivinhada em cada palavra ouvida. Mesmo não o conhecendo, pela sua voz, pela figura, era "alguém" invulgar. E era. Era o Poeta: o arquitecto exímio da palavra, com a qual era capaz de edificar palácios que resistirão ao tempo, ao mundo, aos homens, mesmo que os que por deficiência genética ou por ambição se tornam demolidores

Quem o conheceu e lhe é leal não pode deixar de lembrá-lo como homem bom e cortês, afável, delicado, carinhoso, fiel, sem outra ambição que não fosse encontrar "uma sílaba, uma sílaba só...uma vogal, uma consoante, quase nada" e dar à sua vida a dimensão que pudesse ser pesada "num prato de balança" com um verso seu. Não sei de destino mais glorioso. Passou a vida toda a transformar a luz em canto

Que singularidade a vida e a existência deste ser comum que amou um lódão como uma criança, que louvou a heroicidade de Chico Mendes ou a memória de Ruy Belo por palavras que mais ninguém saberia harmonizar! (...) Quem te lê, sente que enlevas e elevas para onde só a poesia como a tua é capaz de transportar. Felizes aqueles que podem guardar no coração e em qualquer momento um verso teu.Isso fá-los-á estar sempre mais próximo do sol". 

   Imagem, a partir de uma escultura do mestre de artes plásticas, H. Mourato

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Eugénio - Um retrato de si

“Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio de amor vigilante e sem fadiga da minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam.
A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz.

As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elementar. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitetura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em refletir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico - o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma.

Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz, cindida, o bem e o mal compartimentados; e ainda uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada".

[Eugénio de Andrade, uma biografia por si construída]
Eugénio de Andrade, Prosa, Modo de Ler, 2011

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Eugénio - a biografia de um amigo

(...)
"Eugénio de Andrade, vulcões de camaradagem exigente e limpa, ilhas fraternas de rigorosa ternura, abrigos de pedra suave onde encostar a inquietação da febre, pessoas que nos reconciliam com a noite mais escura da alma de que Scott escrevia, por dela nos trazerem vestígios da manhã. E é de Eugénio de Andrade que falo hoje, perpétua varanda de basalto em chamas de frente para o mar.

Chamam-lhe o amigo mais íntimo do sol: de acordo, se o sol for obstinado e severo. Chamam-lhe poeta: de acordo, se as palavras nos trazem notícia da veemência do sangue. Chamam-lhe difícil: de acordo, se notarem a bondade de menino na pomba do sorriso que de tempos a tempos acende os passos seus e os nossos e nos mostra a única vereda que caminha a direito, nas macieiras fora, na direção do rio. 

Não conheço ninguém com gestos tão longos e com uma tão aguda inteligência de alma. Onde poisa a atenção do ouvido tudo se torna búzio. Onde descansa os dedos tudo se torna gato comedido e atento. Onde os olhos lhe nascem aprendemos com ele o intrasigente júbilo do mundo. E no entanto que geografia de dor no país do seu rosto, que discrição no sofrimento, que impediosa dignidade medida em cada sílaba. A total ausência de vaidade do seu orgulho foi o que, ao encontrá-lo pela primeira vez, mais profundamente me comoveu. (...)

Ainda que em guerra Eugénio reconcilia-nos connosco ao deixar entrever os degraus que nos falta subir para estarmos lá em baixo, no lugar que é o nosso, manchados da comovida urina e dos líquidos obscuros que nos protegem ao nascer e nos esperam, na sombra da morte, a fim de nos ajudarem a partir, pobres criaturas mudas vestidas de ranho e de poeira celeste. Para além da amizade que nele é dura e nobre, isto lhe devo também: o retrato da minha condição e a certeza de que algo para além de mim continuará nos seus versos, seja pássaro, nuvem ou laranja madura.

Escrevi um dia que quando o coração se fecha faz mais barulho que uma porta. Não imagina como lhe agradeço, Eugénio, que o seu se mantenha calado num vigilante desvelo, convidando-me a entrar onde uma máscara de bronze nos aguarda para ficar connosco, naquela sala aberta rumo às palmeiras da voz." (1)


(1) António Lobo Antunes, "Bom dia Eugénio" , in 2º Livro de Crónicas

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Escritor do mês - Sophia

"Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume de tília e do orégão."

Sophia, "Arte Poética II", in Obra Poética III, pág. 95

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Escritor do mês - Eugénio de Andrade

Em novembro decidimos escolher dois autores que nos falam do mundo com as palavras num sentido em que elas parecem estar depuradas de todo o excesso que muitas vezes observamos, dando-nos apenas o essencial, numa virtude minimalista das coisas vividas. Eugénio é o primeiro em destaque e é um dos grandes poetas da língua portuguesa. 

Quem o conheceu em sessões de poesia e na austeridade poética da sua vida, entre a seda das pedras da ribeira e as folhas dos jacarandás que na sua praça lhe enchiam as folhas de vento e humildade não pode deixar de o lembrar como uma figura única na construção das palavras. Se há anos parecia excessiva a sua ideia de que a sua poesia era uma possibilidade de ver o mundo e que dita por outros não tinha encanto, hoje compreendemos melhor que as palavras são sempre essa biografia que nós colocamos nelas.

Eugénio é um dos grandes poetas de língua portuguesa, ultrapassando este tempo geográfico para integrar o seu olhar na humanidade, nos gestos mais ousados com que tentamos escrever o real. Em Eugénio de Andrade, a linguagem, a precisão das palavras, a melodia dos sons, a relação com a natureza e a integração dos elementos mais simbólicos (terra, água, luz e vento) estão presentes de uma forma muito precisa. A sua poesia nasce desta combustão dos elementos, procurando a simplicidade da respiração, tentando a pureza que é tão e só essa ligação aos elementos.