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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Antologia Poética (Miguel Torga) - Livro da semana

Título: Antologia Poética
Autor: Miguel Torga
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: D. Quixote
ISBN: ...
CDU: 821.134.3-1"19"

Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso

Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Os Bichos de Torga

(Na apresentação aos alunos do escritor Miguel Torga, foi proposto na Biblioteca a leitura do conto "Tenório", inserido no livro Os Bichos. Deixam-se algumas das imagens usadas para ilustrar o conto e com elas criar uma sessão de leitura e de diálogo sobre a ideia do conto. A leitura do conto foi precedida de uma breve apresentação de Torga e do seu reino maravilhoso. Do resultado de algumas questões colocadas publicaremos noutro post, o essencial do que foi produzido pelos alunos).

Esta é a história verdadeira de Tenório, o galo. Nascido duma ninhada que a senhora Maria Puga deitou amorosamente debaixo das asas chocas da Pedrês, em doze de janeiro, pelas três da tarde, quando a velhota o viu sair da casca, disse logo:

- É frango. 

E realmente. Aquela amostra de crista que trazia do ovo, poucas semanas depois, parecia já uma mitra. E ninguém mais duvidou de que era frango macho. Dos dois irmãos, muito tinhosos, sempre engeridos, desses é que a incerteza se manteve por largo tempo.
- Que te parece, António?
- Eu sei-te lá mulher!...
- O da dianteira está-se mesmo a ver. Aquelas três são pitas, com certeza.

Galo! Galo e duma maneira tal, que agora no quinteiro, mal franzia a testa, tremia tudo! E então lindo! A crista caía-lhe dobrada sobre o ouvido. Um rico brinco de cada lado. E em todo o lado. E em todo o peito, sobre o papo redondo, um avental de penas que pareciam de pavão! Sem falar nas asas, um primor de beleza, nos esporões que, de brancos, lembravam marfim, e naquela rica voz, legítimo orgulho da dona.
- Muito bem canta o seu galo, Ti Maria!
- Nem há...

Qual medo, qual pudor, qual nada! Era ou não era um galo a valer?! Ou não via como, em toda a capoeira alvoraçada, do espanto se passara a um rumor de pura admiração? Na capoeira e até lá dentro...
- Ouviste o frango, António?
- Ouvi.

É danado, o seu galo! Onde não chega, manda. (...)
Era a Júlia Pirraças a falar à dona. Ele ouvia com ar modesto. Por dentro, a babar-se, evidentemente. Quem é que não gosta que lhe louvem as valentias?...
Ah, se não fosse o espinho que começava a crescer-lhe no coração!...

O galo velho tem coisa...
Galo velho! Isto é que era uma vida!... Andava um homem sabe Deus como, roído por dentro, não lhe apetecia arreganhar os dentes, e logo uma sentença sem apelo: - galo velho!

- Mata-se e faz-se um bolo. O filho já dá conta do recado... Era o senhor menino, que começava a pôr as unhas de fora! Ah, mas saía-lhe cara a brincadeira! Oh, se saía! Garoto! (...).


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Antologia de Torga - Livro da semana

Título: Antologia Poética
Autor: Miguel Torga
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: D. Quixote
ISBN: ...
CDU: 821.134.3-1"19"


Sinopse:
Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga, Diário XIII

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Construir a memória - Torga

«(...) É muito tarde para as lentas
narrativas do coração.
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal» 
 
 Eugénio de Andrade, «Nao Sei», in saldalingua.worpress.com
Imagem, entre as serranias do parque natural de Montesinho

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Escritor do mês - Miguel Torga

«Liberdade. Passei a vida a cantá-la, mas sempre com a identidade no pensamento, ciente de que é ela o supremo bem do homem. Nunca podemos ser plenamente livres, mas podemos em todas as circunstâncias ser inteiramente idênticos. Só que, se o preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira, pode nos ser outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade.» (1)

Um dos escritores do mês na Biblioteca é mais que um autor. É uma paisagem humana de uma raridade e de uma frontalidade só quase vivida pela geografia mais sublime. Mais que um homem, foi uma criação de um património, a respiração do vento mais puro, no alto das fragas.
Miguel Torga representa na dimensão humana o carácter duro, mas solidário, frontal, mas apaixonado por uma consciência de valores imutáveis. A sua escrita apresenta o encanto silvestre e a originalidade humana desse reino único, muito especial, aquele deu o nome de maravilhoso. 

A sua obra e a sua figura são a morada desse tempo quase eterno onde a montanha faz nascer a liberdade e a beleza. Torga confunde-se com esse reino. Há nele essa dimensão de natureza frontal, em estado maciço que se apresenta como um universo a descobrir, uma fonte de vida e valores universais. Durante o mês, a ele voltaremos para divulgarmos uma obra única que nos faz compreender como somos herdeiros de um território e de uma identidade.
                                             (1) Miguel Torga, Diário XVI
                                    Imagem, Entre as serranias de Montesinho