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quarta-feira, 22 de março de 2017

A palavra e o mundo - Mulher de Porto Pim (II)

Sempre tão atarefados, e com membros compridos que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel em que parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar, mas não nadam, como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e uma ferocidade graciosa. 
Permanecem logo tempo em silêncio, mas depois gritam uns com os outros com fúria repentina, numa algazarra de sons que quase não variam e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, facilitado pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os esplêndidos e ternos esforços para a consumar.
Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe por que razão por que razão a frequentam. Também se deslocam em bandos, mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas se encontram algures, mas sempre invisíveis.
Às vezes cantam, mas só para si, e esse canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento pungente. Cansam-se depressa, e quando a noite cai estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Passam deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

Antonio Tabucchi. (2016). Mulher de Porto Pim e outras histórias. Lisboa: D. Quixote. 

terça-feira, 21 de março de 2017

A palavra e o mundo - Mulher de Porto Pim (I)

"(...) as baleias, que mais do que animais parecem metáforas, e também os naufrágios, que na sua acepção de actos falhados e milagrosos parecem igualmente metafóricos" (1).

Mulher de Porto Pim e outras histórias é um livro reeditado em 2016 com a chancela da D. Quixote e com uma capa desenhada por Rui Garrido que nos traz um livro maravilhoso sobre "as ilhas ocidentais". Livro de 1982,  classificado pela World Literatura Today, como "uma ode aos Açores", é um objecto de grande valor cultural, que tenta trazer a paisagem, as pessoas, o mistério, o sonho, as histórias das "ilhas ocidentais", de uma forma concisa, breve e fascinante.  Mulher de Porto Pim e outras histórias é uma narrativa poética, quase um livro de viagens sobre um arquipélago atlântico, um relato e uma pesquisa de informação sobre as ilhas, as baleias, os naufrágios.

Dividido essencialmente em duas partes: I: Naufrágios, destroços, passagens, lonjuras e II. De baleias e baleeiros tem ainda um prólogo de abertura e um Apêndice, com uma nota final, um mapa e alguns livros sobre esta temática atlântica. Mulher de Porto Pim e outras histórias tem o grande mérito que caracteriza Antonio Tabucchi de misturar o real e o sonho tentando encontrar o que se revela por detrás das imagens, das palavras, dos gestos, dando aqui em pouco mais de cem páginas um quadro do sentido diferente e maravilhoso que são os Açores.


Mulher de Porto Pim e outras histórias integra horizontes de ficção com suporte de real como é o caso do texto (lindo) sobre Antero de Quental, ou misturando histórias ouvidas com o que a sua imaginação e as suas leituras permitiram construir. 
Um texto final de rara beleza, "uma baleia vê os homens" dá-nos essa ideia criada por Carlos Drummond de Andrade, a visão que os animais têm de nós. Observação que é uma metáfora sobre a forma como vivemos e usamos o espaço que habitamos. Mulher de Porto Pim e outras histórias é um livro fascinante de um grande escritor sobre um território habitado por "deuses do espírito, do sentimento e da paixão" (2).

(1;2) - Antonio Tabucchi. (2016). Mulher de Porto Pim e outras histórias. Lisboa: D. Quixote.