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quarta-feira, 15 de março de 2017

Em Roma sê Romano - Leitura

"Então o homem soltou o pano branco, que flutuou ao sabor do vento. 
Aquele era o sinal de partida, as quadrigas dispararam lado a lado e foram ganhando velocidade até à primeira curva, onde a branca e a azul se distanciaram das outras duas. Mas logo adiante voltaram a ficar lado a lado e os gritos da multidão redobraram. 
Ana hesitava entre arregalar os olhos para ver melhor o irmão ou tapá-los para não ver nada. 
Tinha medo de que ele caísse tinha medo de que se magoasse, tinha quase a certeza de que ia perder e tinha pena de o ver perder. "Para que é que ele se meteu nisto!", pensou...

(A turma do 7.º 4.ª leu o título Em Roma sê Romano, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, como proposta de leitura autónoma. Os alunos exploraram a obra em Português e História tendo realizado uma ficha de leitura de análise da obra. Neste dia, na Biblioteca foi feita uma apresentação da obra a alguns alunos de outras turmas do 7.º ano de modo a que estes conhecessem um livro que introduz os leitores de um modo lúdico e acessível, no universo da civilização romana.)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Curiosidades sobre alimentos - Sabias? (IV) - Um livro

 
Quase todas as maçãs silvestres são belas. Nunca têm um aspecto demasiado rugoso, desagradável ou oxidado. As mais disformes terão alguma característica redentora para o olhar. Descobriremos algum rubor vespertino que mancha ou salpica qualquer protuberância ou qualquer cavidade. É raro o Verão passar sem deixar uma maçã com riscos ou laivos em certos pontos da sua esfera.
O fruto terá algumas manchas vermelhas, a comemorar as manhãs e os crepúsculos que presenciou, quaisquer malhas escuras e ferruginosas, a recordar as nuvens e os dias enevoados e húmidos que passaram por ela, e um vasto campo verde a reflectir a face geral da Natureza - tão verde como os campos : ou ainda um fundo amarelo, o que implica um travo mais suave - amarelo como a colheita, ou de um castanho-avermelhado como as colinas.

Refiro-me às maçãs de uma beleza indizível - maçãs não de Discórdia, mas de Concórdia! Porém, não tão raras que os mais humildes não possam ter a sua parte delas. Pintadas pela geada, algumas de um amarelo-vivo límpido e uniforme, vermelhas, ou carmesim, como se as suas esferas tivessem girado com regularidade e sofrido a influência do sol em toda a superfície por igual; algumas com o rubor rosa mais ténue que se possa imaginar; outras malhadas, como uma vaca, com laivos de um vermelho profundo, ou percorridas por centenas de raias vermelho-sangue que correm regularmente, desde a implantação do pedúnculo até ao extremo da flor, como linhas de meridianos sobre um fundo cor de palha; outras, aqui e ali, cm um toque de ferrugem esverdeada, semelhante a um líquen delicado, com manchas rubras ou olhos mais ou menos confluentes e incendiados quando estão húmidas; outras, finalmente, rugosas e pintalgadas ou mosqueadas com ténues pontos carmesim sobre um fundo branco, como que acidentalmente salpicadas pelo pincel d' Aquele que pinta as folhas outonais.

Outras, ainda, são por vezes vermelhas no interior, impregnadas de um lindo rubor, alimento de fadas, demasiado belas para serem comidas - maçãs das Hespérides, maçãs do céu do entardecer! Porém, como conchas e seixos à beira-mar, é preciso vê-las quando cintilam entre as folhas secas em qualquer depressão dos bosques, por entre o ar outonal, ou espalhadas pela erva húmida, e não depois de definharem e empalidecerem em casa.
Henry-David Thoreau. (2016). Maçãs silvestres e cores de Outono. Lisboa: Antígona.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Pop- up (livros de outros séculos)

 
A Biblioteca Nacional tem exposição até nove de setembro uma mostra de Pop-Up do século XIX e XX. 

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terça-feira, 26 de abril de 2016

Saramago - A substância da palavra

José Saramago é um autor marcante das últimas décadas do século XX, tendo tido um papel de destaque na focalização da literatura portuguesa, dando-lhe palcos relevantes em diferentes continentes. 

José Saramago foi um escritor invulgar por diferentes motivos. Definiu uma escrita em moldes muito próprios, diversas vezes narrando como se o discurso fosse do nível oral e propondo uma longa conversa. As suas frases longas, as suas polémicas, o seu posicionamento político, as suas afirmações sobre a espuma dos dias deu-lhe um carisma que atraiu fãs do mundo inteiro e afastou muitos outros, por desconhecimento do seu real valor como criador de ideias. Forjaram-se assim alguns equívocos que importa ultrapassar para que mais pessoas cheguem ao valor intrínseco da sua escrita.

O primeiro equívoco é pensá-lo como um escritor de romances históricos, situação surgida pelo seu primeiro êxito - Memorial do Convento. José Saramago não escreveu romances históricos, no sentido de devolver a respiração de uma sociedade, de um conjunto social e cultural. Memorial do Convento é uma obra de fição sobre um tempo específico do passado, dando-lhe o autor uma perspetiva do seu próprio conhecimento e da sua análise do presente. Memorial do Convento é uma oportunidade para conhecer o que pensa Saramago sobre como as sociedades se transformam e neste caso a da 1ª metade do século XVIII. Em José Saramago, a História não é apreendida como uma certeza credível, sendo muitas vezes considerada como uma fantasia, na medida em que ela muda conforme as dimensões do tempo e na perspetiva das ações concretizadas por diferentes pessoas.

Em O ano da morte de Ricardo Reis não volta a escrever um romance histórico e medita entre um fascínio sobre a racionalidade deste heterónimo de Pessoa e um certo desconforto por esta ideia de satisfação pelo espetáculo do mundo. Neste sentido, coloca o ano de 1936 como pano de fundo e procura interrogar-nos sobre a crise das consciências e o nascimento dos autoritarismos na Europa. É uma convocação para nos interrogar, tendo como cenário, a desordem humanitária dos fascismos europeus. É uma interrogação, a de verificar, se ainda seria possível escrever odes sobre as quais nos sentimos sábios. 

Com A História do Cerco de Lisboa, o livro onde foi mais longe na interrogação do espelho da História, e onde cruzou espaços temporais diferenciados, o século XII e o século XX. Nele, discute os limites da “verdade histórica”, numa narrativa que nos devolve o homem comum, o que muitas vezes não se ouve nas narrativas da História. Com A História do Cerco de Lisboa, José Saramago procurou dar-nos a discussão da possibilidade de se escrever a História do Tempo Longo e essa é uma das suas marcas como escritor. Apresenta, num tempo conjuntural, a discussão do que é permanente nas sociedades, e de como o que vivemos e construímos vive desta combinação, de atitudes e valores de diferentes figuras.

Aquilo que José Saramago considerou ser o âmago da pedra, a carne e o sangue por que lutamos em si, fê-lo evoluir para um tipo de literatura que colocou questões sobre valores importantes, interrogando-nos sobre o que somos, que valores e preconceitos veiculamos e porque o fazemos. A abordagem de temas que tocavam crenças de muitas pessoas criaram-lhe dificuldades. São romances desta fase, O Evangelho segundo Jesus Cristo, O Ensaio sobre a Cegueira ou Todos os Nomes. No Livro das Tentações, ou No Homem Duplicado, revemos a restauração da ideia que nos devolve à pedra essencial de que somos feitos em estreita ligação ao mundo material e à nossa memória. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Dos livros

O livro é um dos objectos raros, por onde se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos aos critérios da econometria. O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. 

Embora muitos dispensem esta chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela é um imenso privilégio. É-o, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo. 

Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. É na respiração das palavras que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem” (Manuel Anrónio Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores. 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A memória das palavras - João Aguiar

Quando um escritor parte, a sua obra, as suas ideias, a sua morada eterna são as suas palavras. João Aguiar deixou um discurso narrativo muito imaginativo nas formas e muito ligado à memória histórica. Nele transpareceu sempre uma imagem de príncipe das letras e o seu sucesso como recurso nas aulas de História foi sempre a confirmação das suas qualidades, junto dos adolescentes que mergulhavam no imaginário da Portugalidade que ainda se espera audaciosa. Um excerto, de um dos seus livros, A Catedral Verde).

Ainda não logrei definir com exactidão o que torna este lugar tão especial. Talvez a disposição das árvores, o modo como as suas cores se misturam sob a luz do Sol, talvez o jogo de sombras, talvez a folhagem – ou, neste momento, os ramos desnudados -, talvez o silêncio, porque é raro ouvir aqui outro som que não seja o das próprias árvores tocadas pelo vento. (...) Lembro-me da primeira vez que aqui vim. Seguia de carro pela estrada, avistei o cruzeiro, que despertou a minha atenção – nesse tempo eu era um recém-chegado a Vale de Monges. Reduzi a velocidade, acabei por parar, o carro ficou estacionado mais ou menos no sítio onde hoje está. 

Voltei a olhar para o cruzeiro, que se ergue bizarramente, não à beira da estrada, mas no meio de um terreno coberto de mato rasteiro. E avistei, à distância, em pano de fundo, a mancha verde. Saí do carro sempre a olhar para ela, atravessei a estrada sem deixar de a olhar e caminhei até ao ponto exacto onde me encontro agora. Vim puxado, ou empurrado, por uma força que não sabia se me era exterior ou se era um impulso da minha fantasia que eu inconscientemente vestia com as roupagens da atracção magnética.

Há aqui, pensei então, uma configuração especial que evoca a entrada de um templo: uma espécie de propileu. Mas esta configuração, pensei ainda, não é, ou não é exclusivamente, física. A evocação não está na forma como as árvores se encontram dispostas nem nos contornos e acidentes do terreno. Não é a imagem concreta das coisas, é a imagem que as coisas desenham dentro de mim.

Hoje, após tantas visitas solitárias a este lugar, hoje penso o mesmo. Talvez por vergonha, não mais voltei a fazer o que então fiz. Ajoelhei-me primeiro, depois prostrei-me de olhos fechados, as mãos coladas à terra, e rezei – digo rezei porque todo o discurso dirigido a Deus, ainda que o nome não seja pronunciado, deve ser considerado uma oração.

Não voltei a fazê-lo nem o poderia fazer neste momento sem, prosaicamente, ficar encharcado. Isso é pouco importante, porém… O lugar conserva o mesmo encanto, o silêncio feito de murmúrios é o mesmo, o mesmo é o verde luminoso e o movimento vagaroso, solene, da ramaria.

terça-feira, 2 de junho de 2015

85ª Feira do livro

Desde o passado dia vinte e oito de maio e até catorze de junho, pelo parque Eduardo VII, realiza-se a 85ª Feira do Livro.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A respiração da cidadania...

"Toda a miséria, toda a brutalidade deveriam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade. Toda a iniquidade era uma nota falsa a evitar na harmonia das esferas. (...) Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a. A menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a

(...) alguns homens pensarão, trabalharão e sentirão como nós; ouso contar com esses continuadores colocados a intervalos irregulares ao longo dos séculos, com essa intermitente imortalidade. A vida é atroz, sabemos isso. Mas precisamente porque espero pouco da condição humana, os períodos de felicidade, os progressos parciais, os esforços de recomeço e de continuidade parecem-me outros tantos prodígios que compensam quase a massa enorme dos males, dos fracassos, da incúria e do erro. (...) As palavras liberdade, humanidade, justiça reencontrarão aqui e ali o sentido que temos tentado dar-lhe."(1) 

"Um pé na erudição, outro na magia, ou, mais exatamente e sem metáfora, nesta magia simpática que consiste em nos transportarmos em pensamento ao interior de alguém.(...) é somente por orgulho, por ignorância grosseira, por cobardia, que nos recusamos a ver, no presente, os lineamentos das épocas que hão-de-vir. Aqueles livres sábios do mundo antigo pensavam como nós em termos da física ou de filologia universal: encaravam o fim do homem e a morte do globo. Plutarco e Marco Aurélio não ignoravam que os deuses e as civilizações passam e morrem.(...) Este século II interessa-me porque foi, durante muito tempo, o dos últimos homens livres.

Nada mais frágil que o equilíbrio dos lugares belos. As nossas fantasias de interpretação deixam intatos os próprios textos, que sobrevivem aos nossos comentários; mas a menor restauração imprudente infligida às pedras, a menor estrada macadamizada cortando um campo onde a erva crescia em paz desde há séculos criam para sempre o irreparável. A beleza afasta-se, a autenticidade também.(2)

(Num tempo em que a Liberdade, a Fraternidade e a Humanidade, velha divisa do imperador Adriano [nas vésperas do seu nascimento] e da casa de Marco Aurélio estão em falência significativa, um livro essencial. Escrito por Marguerite Yourcenar durante duas décadas é um documento admirável, um expoente da literatura do século XX, onde desenhou com humildade e sabedoria o olhar sobre a vida do imperador Adriano. Livro que chega a esse plano tão difícil, às palmeiras da voz. Livro que nos chega de um tempo que já não é o nosso, mas ainda próximo pela descoberta íntima da voz, do sentido mais partilhado de uma vida. Ainda é o que procuramos em tempos carentes de Humanidade.). 

(1) - Marguerite Yourcenar, memórias de Adriano ( do corpo do livro)  
(2) - Marguerite Yourcenar, memórias de Adriano (do conjunto dos apontamentos das diversas edições da obra). 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Leituras ... A Estrela

"Um dia à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que não a tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar o cabelo. Devia ficar-lhe bem, no cabelo.

De modo que, nessa noite, não aguentou. Meteu-se na cama como todos os dias, a mãe levou a luz, mas ele não dormiu. Foi difícil, porque o sono tinha muita força. Teve mesmo de se sentar na cama, sacudir a cabeça muitas vezes a dizer-lhe que não. E quando calculou que o pai e a mãe já dormiam, abriu a janela devagar e saltou para a rua. A janela era baixa. Mas mesmo que não fosse. Com sete anos, ele estava treinado a subir às oliveiras quando era o tempo dos ninhos, para ver os ovos ou aqueles bichos pelados, bem feios, com o bico enorme, muito aberto. (...)

Assim que se viu na rua, desatou a correr pela aldeia fora até à torre, porque o medo vinha a correr também atrás dele. Mas como ia descalço, ele corria mais. A igreja ficava no cimo da aldeia e a aldeia ficava no cimo de um monte. De modo que era tudo a subir. Mas conseguiu - e agora estava ali. Olhou a estrela para ganhar coragem, ela brilhava, muito quieta, como se estivesse à sua espera. E de repente lembrou-se: e se a porta estivesse fechada?"

Vergílio FerreiraA Estrela, Quetzal
(a pensar na noite em que especialmente procuramos a estrela, capaz de nos iluminar)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Os livros - no melhor de nós

"Ler torna o mundo melhor. Como, não sei. Ou seja, sei: de várias formas e cada um encontra a sua. É essa uma das graças dos livros, eles são uma mistura de religião e pequena banditagem. Tal como os bandidos nos filmes, os livros pegam em dois fios e, sem precisar de chave, ligam o carro. Quando são bonzitos, religam o leitor ao cosmos. Quando são mesmo bons, baralham e dão de novo. Um poema pode devolver-nos o sentido da vida. Já um romance é capaz de algo ainda mais importante, como ensinar-nos a namorar melhor.

Os livros são como as pessoas, só que em melhorzinho. Ninguém é fantástico vinte e quatro horas por dia. Autores banais fizeram livros extraordinários, porque no livro deram o litro. Imaginem o que seria a nossa vida só com os grandes momentos, tipo clip dos golos. Um livro é isso, uma sopa à qual basta juntar água e levar ao lume, ou seja, ao leitor. O livro está frio, desidratado, até que um leitor lhe pegue. Aí dá-se a faísca. Mas há um cuidado a ter.

Os livros são como o tango, dançados mano a mano. Se mil pessoas começam ao mesmo tempo a ler o mesmo livro, ao fim de poucos minutos já ninguém está sequer na mesma linha. Ao contrário do cinema e da televisão, o livro segue o tempo do leitor. É uma dança a dois, silenciosa como as melhores danças. Apesar de já estar escrito, impresso no papel, o livro só dança se o leitor quiser. O livro dá a melodia, o ritmo marca quem lê.

Os livros entram na nossa cabeça, porque é esse o poder da palavra escrita. Com uma originalidade: só entram na nossa cabeça se o leitor agir. Olhar todos olhamos. Ver implica estarmos atentos.E ler? Ler é olhar com intenção a dobrar: dos olhos e do espírito. Não fomos nós que criámos as árvores e o céu, mas fomos nós que inventámos a escrita: umas garatujas esquisitas que, juntas, formam coisas e ideias e sabores.

Sermos leitores não nos salva de nada. Infelizmente, quando fecharmos o livro a maior parte das vezes voltamos a ser quem éramos. A redenção durou pouco. Mas, enquanto estamos a ler, ah, nesse entretanto (nesse ler) podemos ser grandes! E a boa notícia é que há sempre outro livro por abrir.

Os livros dizem sempre a verdade, mesmo quando mentem. Cá está, uma vez mais: como as pessoas. Não, não estou a dizer que os livros são melhores que as pessoas. Apenas que os livros são as pessoas - autores e leitores no seu melhor".

Rui Zink, "Ler torna o mundo melhor", in Revista Estante (Número de Verão), pág. 6

terça-feira, 30 de setembro de 2014

As palavas ou a reescrita da voz...

Os livros são um dos objetos primordiais do que podemos chamar uma civilização. Com eles guardamos a memória e as inquietações anteriores a nós, mas também como eles descobrimos que eles nos fazem pensar melhor, afinal que podemos evoluir como pessoas, como sociedade. Apesar dos múltiplos ecráns estamos muito sós, nas palavras que queremos dizer, na voz que não se ouve. Palavras reescritas de uma respiração que se escuta nal sob um domínio, um ruído dominante dos media e de um poder formatado para os lugares comuns. 

É na leitura que nos descobrimos, que verificamos que valores nos conduzem, que formas de encontro conseguimos estabelecer com os outros. Os livros que lemos dizem muito das pessoas que conseguimos ser, dos conhecimentos que multiplicamos nas ideias que apreendemos e da perceção que temos do mundo e de nós próprios. 

Os livros são muito diversos, pois constrõem continentes de emoções, geografias de sentimentos, formas de ser, modos de pensar e de construir o mundo e são por isso um património de um profundo enriquecimento pessoal. Com eles fazemos viagens ligando o passado e o presente, numa ideia de algo a construir, a sonhar, embora nunca lá estejamos, esse futuro por viver. Eles, são por isso, os caminhantes de ideias e lugares, por onde passámos e onde eles chegarão. Com eles vivemos a possível eternidade. 

Os livros emergem com as palavras e ao nomeá-las, estamos a dar-lhes a substância de existirem, mesmo que se refiram ao que não temos, mesmo que sejam os sonhos antes dos sonhos, a respiração de ver o que se ama. Os livros e a leitura confirmam essa possibilidade maior de aceitarmos em partilha as vozes que nos chamam para o reconhecimento múltiplo da humanidade.  

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Apresentar um livro - Profº Luís Campos

Três chávenas de chá, de Greg Mortenson e David Oliver Rolin

O nosso clamor é um vento forte que atravessa a terra.» (1) 

Ouvimos e vemos demasiadas vezes notícias que nos relatam a pobreza extrema, as doenças de que sofrem milhões de pessoas no planeta. Assistimos nos media a atentados suicidas em zonas do planeta contra pessoas indefesas. Sentimos em vastas zonas do globo a indiferença para com a vida em atos de extrema violência. Verificamos como o analfabetismo e a extrema pobreza alimenta o fundamentalismo, em países como o Paquistão ou o Afeganistão, convocando crianças e jovens para o absurdo. Existe alguma forma de superar esta epidemia do espírito, esta doença que ameaça o coração do Homem?

Três chávenas de chá é um caminho que vale a pena conhecer. É a história de um livro, de um homem, de uma ONG e de uma comunidade nas montanhas altas do Paquistão, justamente no K2. É um livro sobre as possibilidades criadoras que a educação e a leitura permitem construir, mesmo nas geografias mais difíceis, onde a violência, o fanatismo religioso e a pobreza alimentam uma terra ferida de dignidade e esperança para as mais jovens gerações. O Paquistão e o Afeganistão são muitas vezes sinónimos de indiferença a uma ideia de dignidade, de alfabetização, de oportunidade para diversas comunidades.

Um alpinista americano, ao escalar o K2, a segunda maior montanha do planeta conheceu no povo balto a hospitalidade de uma cultura ancestral. No território do fundamentalismo islâmico, entre os caminhos da Al-Kaeda e dos Talibãs, num mundo esquecido, um homem tenta a conciliação de culturas. Nas altas montanhas da Ásia, entre o Paquistão e o Afeganistão um homem viu como a educação podia fazer sobreviver as aspirações de uma comunidade. Com a ideia de criar escolas, especialmente para meninas e com o apoio a projetos comunitários, um homem cria uma resposta generosa onde muitos, demasiados só parecem encontrar a guerra. 

É um livro que não é uma ficção, mas uma reportagem ilustrada por quem viveu uma aventura de generosidade e de transformação de como um sonho, pode converter-se numa ONG, The Central Asia Institute, que alimenta a possibilidade de alfabetização de uma cultura, nos seus elementos mais jovens. 

É um livro que revela uma lição imensa. Uma lição de vontade e inteligência. Mas também, uma lição de recompensa pelos frutos conseguidos com aquelas crianças e a convicção que só de olhos abertos se pode compreender o mundo. É ainda um livro que nos envolve com o mais importante, a vontade e a determinação de cada homem. Um livro que nos assegura que as mudanças têm de passar pelo individual, pois cada de um nós, nas palavras antigas de Krishnamurti, representa "o resto da humanidade".

Se este tema se te interessa podes consultar o sítios relacionado com este projeto, justamente, três chávenas de chá.


(1) "A canção de guerreiro do rei Gezar", in Três chávenas de chá, pág. 313