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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Vida Activa - O espírito de Hannah Arendt

"Não há pensamentos perigosos;
Pensar é perigoso em si mesmo" - Hannah Arendt

Título original: The Spirit of Hanna Arendt
Realizadora: Ada Ushpiz
Género: Documentário
Produção: Israel / Canadá, 125 minutos, 2015.
Vida Activa, O espírito de Annah Arendt é um documentário sobre o pensamento político e filosófico de Hannah Arendt (1906-1975). O documentário tenta contextualizar as reflexões de Hannah Arendt sobre um conceito que ela própria criou, "a banalidade do mal". Vida Activa, O espírito de Annah Arendt faz uma leitura cronológica da sua vida nos seus marcos mais importantes, a vida na Alemanha, a emigração para França e depois para os Estados Unidos ao lado dos acontecimentos que viveu e destacando as figuras com que se relacionou, com destaque para Karl Jaspers e Martin Heidegger. O filme fez parte da selecção oficial da selecção do filme documentário em Amesterdão, 2015, integrou o FilmFest de Munique também em 2015 e fez parte da selecção oficial do Jerusalem Festival Film.

O filme é um registo de grande valor histórico e cultural pois coloca-nos de frente para diferentes realidades que importa pensar: 
  1. o conhecimento do que foi o totalitarismo nazi e como o explicamos, como compreendemos os seus mecanismos. 
  2. a ideia de banalidade do mal, o que significa no que foram os julgamentos de Nuremberga e como isso se relaciona com o significado da cultura alemã;
  3. O mal como pode ser ele explicado, a partir de que pensamento, de que acção? 
  4. Vida activa - como a conciliar como uma prática de vida e uma liberdade de ser?
Questões essenciais para compreender o século XX e este século, pois como Arendt assinalou, os sistemas totalitários podem ser eliminados, mas os mecanismos desse totalitarismo podem sobreviver ao seu tempo histórico. Vida Activa, O espírito de Annah Arendt é um documentário a ver várias vezes, pois a intensidade do pensamento de Hannah Arendt é de uma riqueza que nos deixa incapazes de tudo absorver no imediato. É lamentável que dos jornais respeitáveis ninguém arrisque uma análise detalhada sobre o filme. As cartas entre Hannah Arendt e Karl Jaspers são de uma enorme riqueza para a compreensão do que foi o nazismo, esse dilúvio e que arca sagrada sobrou desse holocausto .

Vida Activa, O espírito de Annah Arendt  é uma narrativa fascinante para compreensão de um conceito que nem sempre é entendido, a mediocridade do homem e a sua conciliação com actos abomináveis, como foi o de Eichmann, mas também para a interrogação do colapso moral que em sociedades respeitáveis não se luta pelas linhas mais básicas da condição humana. É-o também para a compreensão de que quando o pensamento de detém perdemos essa condição, a de construir uma acção. Foi essa a limitação de Heidegger num momento crucial da ascensão do nazismo.

Vida Activa, O espírito de Annah Arendt vale ainda muito sobretudo por nos dar uma pensadora verdadeiramente livre, que não se enquadrava nos liberais, nem nos marxistas, nem nos católicos. Hannah Arendt é o pensamento em ação, a liberdade de construir uma vida que dos escombros do exílio sabe compreender um mundo mutilado. Arendt diz-nos algo essencial, pensar é o que nos define, é um desafio para todos, é a forma de construir a relação de um com o outro, a forma de conceber uma cidade participada. O pensamento é essa possibilidade de reconhecer um passado e um futuro e de descobrir formas de o construir, de o fazer novo para o futuro. É ele que consolida essa massa essencial da condição humana, a pluralidade.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Hannah Arendt – evocar o pensamento

” The sad truth is that most evil is done by people who never make up their minds to be good or evil. ” – Hannah Arendt, A condição humana. 

Quando a New Yorker me enviou para cobrir o julgamento de Adolf Eichman eu assumi que o tribunal teria apenas um propósito. Fazer justiça. Esta não era uma tarefa fácil, porque o tribunal que o julgava via-se diante de um crime que não exista nos códigos penais. E o réu era um criminoso muito diferente daqueles que antecederam o julgamento de Nuremberg. Mesmo assim, cabia ao tribunal definir Eichman como homem sendo julgado pelos seus actos. Não se estava a julgar um sistema, nem a História, ou sequer o anti-semitismo. Somente a pessoa. O problema com os crimes nazis como os de Eichmam é que ele insistia em renunciar a qualquer traço pessoal. Como se não tivesse sobrado ninguém para ser punido ou ser perdoado. Repetidas vezes ele protestava, rebatendo as acusações da promotoria, dizendo que não tinha feito nada por iniciativa própria. Que jamais fizera algo com premeditação para o bem ou para o mal.  Apenas cumpria ordens. Esta típica desculpa oferecida pelos nazis torna claro que o maior mal do mundo é o mal perpretado por ninguém. Males cometidos por homens sem qualquer motivo, sem convicção, sem razão maligna, mas seres humanos que se recusam a ser pessoas. E é este fenómeno que eu chamei a banalidade do mal. Nunca acusei o povo judeu pela sua destruição. A resistência era impossível. Mas talvez haja alguma coisa entre a resistência e a cooperação. E é só nesses sentido que digo, que alguns dos líderes judeus poderiam ter agido de modo diferente. É extremamente importante fazer-se essas perguntas. Porque o papel dos líderes judeus fornece o exemplo mais chocante do ponto a que chegou o colapso moral causado pelos nazis na respeitada sociedade europeia. E não só na Alemanha, mas em quase todos os países. Não apenas entre os que perseguiam, mas também entre as vítimas. Os crimes de Eichman foram crimes contra a humanidade porque os judeus são seres humanos. Porque os nazis o negavam. Um crime contra eles, é por definição, um crime contra a humanidade. Nada do que escrevi foi em defesa de Eichman. O que tentei foi conciliar a chocante mediocridade deste homem com os seus actos abomináveis. Tentar entender não é o mesmo que perdoar. A minha responsabilidade é entender. É a responsabilidade de qualquer um que ouse escrever sobre este assunto. Sócrates e Platão referiam-se muitas vezes ao pensar como o diálogo silencioso travado entre mim e eu próprio. Ao recusar-se a ser uma pessoa, Eichman abdicou totalmente da característica que melhor define o homem como tal – a de ser capaz de pensar. Consequentemente, ele se tornou incapaz de fazer juízos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem actos cruéis numa escala monumental jamais vista. É verdade. Tratei dessas questões de forma filosófica. A manifestação do acto de pensar não é o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal. O belo do feio. E eu tenho a esperança de que o pensar dê força às pessoas para evitar a catástrofe nesses raros momentos, na hora da verdade. (Do filme Hannah Arendt, de Margarethe Von Trotta)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

No aniversário de Hannah Arendt

"Na medida em que a hipótese central do totalitarismo repousa sobre o"tudo é possível", uma cidadania sensata e uma acção racional devem repousar sobre a hipótese inversa de uma constituição da natureza humana, ela própria justificada pela sua capacidade de abrir, de preservar ou reconstruir um espaço político". (1)

Hannah Arendt é um dos mais importantes nomes do pensamento filosófico do século XX. Devemos-lhe uma lucidez capaz de compreender os mecanismos que suportam a maldade como forma de organização de um qualquer poder político. O seu estudo assenta sobre esse acontecimento inexplicável nos fundamentos racionais da humanidade, essa doença do espírito que foi o nazismo.

Hannah Arendt num filme de Margarethe Von Trotta que é um exercício de cidadania e de afirmação democrática pelo que faz discutir os elementos simbólicos da organização das sociedades, revelou uma dimensão que urge salientar pela sua importância sociológica. O filme retrata a julgamento de Eichmann e a sua iniciativa de tentar compreender como se suportava no pensamento, na explicitação o "mal absoluto", num indivíduo responsável pela eliminaçãode tantos milhões de judeus. E o que Hannah Arendt compreendeu é que aquele homem não conseguia estar à altura da terrível condição que foi o nazismo. N-ao existe afirmação ideológica, nem arrependimento.

O que Hannah Arendt ouve é a voz de um burocrata, um homem que cumpre tarefas, ordens, que não está envolvido nas suas ações na engrenagem sequencial da morte que era o nazismo. Hannah Arendt compreende que existe nestes funcionários a execução do mal, a banalidade extrema desse mal. Os funcionários de Hitler não corporizam uma ideia de mal. Nessa banalidade do mal, houve uma Alemanha instruída, culta que fechou os olhos a este drama humano. A antiga aluna de Heidegger insiste que não se pode desligar o pensamento da quotidiano. 

Heidegger, filósofo da Ontologia tem dificuldades em cumprir esse compromisso. Valerão alguma coisa as palavras que não se comprometem com a dignidade humana? É essa a lição de Hannah Arendt. E a de que o pensamento tem uma moral, tem uma humanidade. A sua crítica ao colaboracionismo judeu nos campos é mais uma frente do seu vigor profundo e humano.

O filme sobre Hannah Arendt não nos ilustra um período histórico. Ele é uma peça essencial para pensar as sociedades contemporâneas, o modo como as formas de poder biopolítico se organizam. Os tempos de um crescimento sustentado de valores civilizacionais está em suspensão e a formulação do pensamento único, do fazer sem refletir deve-nos fazer pensar, que sociedade pretendemos construir, num mundo demasiado formulado a práticas burocráticas com ausência de valores de cidadania.

(1) - Hannah ArendtBetween Past and Future: Eight Exercises in Political Thought.